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Capítulo 2 – Um vestido lavanda e um olhar impossível

O sábado amanheceu preguiçoso.

A luz dourada do sol atravessava as cortinas do pequeno apartamento de Isadora Duarte, desenhando faixas luminosas sobre o piso de madeira. Era um daqueles dias em que a cidade parecia desacelerar por algumas horas antes de mergulhar novamente no caos.

Ela abriu os olhos antes mesmo do despertador tocar.

Sorriu.

Fazia tempo que não acordava com aquela sensação leve no peito.

Não era paixão.

Muito menos ansiedade.

Era apenas expectativa.

Na noite anterior, Rafael havia confirmado o encontro com uma mensagem simples.

"Passo para te buscar às onze e meia."

Sem exageros.

Sem insistência.

Sem jogos.

Isadora gostava disso.

Levantou-se, prendeu os cabelos em um coque improvisado e caminhou até o ateliê improvisado que ocupava um canto da sala.

Na verdade, chamá-lo de ateliê era quase um ato de carinho.

Era apenas uma mesa grande, uma máquina de costura antiga herdada da avó, uma arara com algumas peças criadas por ela e uma pasta repleta de croquis cuidadosamente organizados.

Ali era onde ela se sentia inteira.

Passou os dedos sobre alguns desenhos.

Vestidos.

Blazers.

Conjuntos.

Peças pensadas para mulheres como ela.

Mulheres que vestiam curvas sem pedir desculpas por existirem.

— Um dia... — murmurou para si mesma.

— Um dia vocês vão sair do papel.

Seu olhar então encontrou um vestido pendurado na arara.

Lavanda.

Romântico.

Com mangas delicadamente bufantes, cintura marcada e uma saia fluida que se movimentava com leveza.

Ela mesma havia desenhado, modelado e costurado cada detalhe daquela peça.

Sorriu.

Era aquele.

Depois de um banho demorado, fez uma maquiagem suave, deixou os cabelos soltos em ondas naturais e vestiu o vestido.

Parou diante do espelho.

Por um instante, a velha insegurança tentou aparecer.

"Talvez esse modelo marque demais meu quadril..."

Ela respirou fundo.

Sorriu para o próprio reflexo.

— Não.

Quem tiver problema com minhas curvas... que olhe para outro lado.

Pegou a bolsa e desceu.

---

Rafael já a esperava encostado ao carro.

Assim que a viu atravessando a calçada, ficou completamente imóvel.

Ela aproximou-se sorrindo.

— Vai dizer bom dia ou esqueceu como fala?

Ele piscou algumas vezes.

— Eu estava tentando lembrar como se respira.

Isadora riu.

— Essa foi ensaiada?

— Não.

Infelizmente.

Ela cruzou os braços.

— Infelizmente?

— Porque, se eu tivesse ensaiado, teria encontrado uma frase muito melhor.

Ela balançou a cabeça.

— Você é péssimo.

— Concordo.

Mas continua linda.

As bochechas dela ganharam um leve tom rosado.

— Obrigada.

Rafael abriu a porta do carro.

— Depois de você.

— Um verdadeiro cavalheiro.

— Minha mãe me obrigou.

Ela gargalhou enquanto entrava.

O caminho até o restaurante transcorreu entre conversas leves.

Descobriram que ambos gostavam de fotografia.

Que preferiam viagens tranquilas a festas lotadas.

E que compartilhavam uma paixão inesperada por cafeterias antigas.

Quanto mais conversavam, mais fácil parecia estar ao lado um do outro.

Sem máscaras.

Sem esforço.

Sem competição.

---

O restaurante escolhido por Rafael era um dos mais tradicionais da cidade.

A fachada discreta escondia um ambiente sofisticado.

Madeira clara.

Luz natural abundante.

Arranjos de bambu.

O aroma delicado do shoyu, do gengibre fresco e do arroz recém-preparado preenchia o salão.

Uma grande janela permitia que o sol de fim de manhã iluminasse parte das mesas.

Era elegante.

Sem ser ostentoso.

Assim que entraram, o maître os conduziu até uma mesa próxima à janela.

Nenhum dos dois percebeu.

Mas, do outro lado do salão, um homem ergueu lentamente os olhos.

Leonardo Vasconcelos interrompeu a conversa com dois executivos por apenas um segundo.

Foi suficiente.

Reconheceu imediatamente a jovem que caminhava sorrindo entre as mesas.

Isadora.

O vestido lavanda parecia ter sido criado especialmente para ela.

O tecido acompanhava seus movimentos com delicadeza.

A cintura marcada valorizava suas curvas de forma elegante, enquanto a saia dançava suavemente a cada passo.

Ela parecia...

Diferente.

Na loja, havia chamado sua atenção pela personalidade.

Ali...

Chamava atenção sem sequer perceber.

Então ele viu o homem ao lado dela.

Os dois sorriam.

Conversavam próximos.

Rafael segurou delicadamente a cadeira para que ela se sentasse.

Um gesto simples.

Mas suficiente para despertar em Leonardo uma sensação completamente irracional.

Incômodo.

Ele não gostou disso.

Não havia motivo para gostar ou desgostar.

Ainda assim...

Gostou menos do que deveria.

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