Os flashes iluminavam a entrada principal do evento como pequenas explosões de luz.
Fotógrafos disputavam espaço atrás das grades de proteção, enquanto jornalistas anunciavam a chegada de empresários, artistas, modelos e estilistas renomados. O salão principal do Hotel Imperial havia sido completamente transformado. Um longo tapete em tons de champagne conduzia os convidados até o grande salão onde a passarela ocupava o centro do ambiente.
Isadora parou por um instante antes de entrar.
Respirou fundo.
Desde criança, sonhava em assistir a um desfile daquele porte. Não pela fama. Nem pelos famosos.
Mas pela moda.
Pela arte.
Pela possibilidade de aprender observando quem já havia chegado onde ela tanto desejava estar.
— Está pronta? — perguntou Rafael, estendendo o braço.
Ela sorriu.
— Acho que nunca estive tão pronta.
Os dois seguiram juntos até a recepção.
Enquanto uma recepcionista conferia seus convites, outra entregava uma pulseira dourada de acesso VIP.
— Fileira B. Lugares doze e treze.
Isadora agradeceu educadamente.
Nem percebeu que, alguns metros adiante, um homem acabava de interromper uma conversa ao vê-la entrar.
Leonardo Vasconcelos.
Por um breve instante, todo o restante do salão pareceu desaparecer.
Ela usava um vestido azul-lavanda que ele jamais havia visto em qualquer coleção.
A peça parecia dançar conforme ela caminhava.
A cintura marcada valorizava suas curvas com elegância, enquanto o tecido fluía de forma leve a cada passo.
Não havia exagero.
Não havia ostentação.
Havia identidade.
E aquilo chamou sua atenção mais do que qualquer vestido assinado por grandes maisons presente naquele evento.
Henrique, que conversava ao seu lado, acompanhou discretamente a direção do olhar do primo.
Depois sorriu.
— Então é ela.
Leonardo desviou os olhos.
— Ela quem?
Henrique riu baixo.
— A garota que fez você perguntar três vezes sobre esse desfile.
— Você fala demais.
— E você observa demais.
Leonardo ignorou o comentário.
Mas continuou acompanhando Isadora com o olhar.
Ela caminhava naturalmente ao lado de Rafael, completamente alheia à atenção que despertava.
Aquilo o incomodava de uma maneira difícil de explicar.
Não porque estivesse interessada em outro homem.
Mas porque parecia... feliz.
E ele sequer entendia por que aquilo importava.
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As luzes começaram a diminuir.
Os convidados ocuparam seus lugares.
Isadora procurou os números indicados em seu convite.
— É aqui.
Ela sentou-se.
Rafael ocupou o assento ao seu lado.
Poucos segundos depois, um organizador aproximou-se discretamente.
— Senhor, peço desculpas pelo transtorno. Tivemos um problema na primeira fileira. Precisaremos remanejar alguns lugares.
Rafael levantou os olhos.
— Sem problema.
— O senhor poderia ocupar aquele assento, por gentileza?
Ele olhou para Isadora.
— Tudo bem?
Ela assentiu.
— Claro.
Rafael sorriu.
— Já volto quando acabar.
Assim que ele se afastou, o organizador conduziu outro convidado até o lugar vazio ao lado de Isadora.
Ela virou o rosto.
E congelou por um segundo.
Leonardo.
— Boa noite.
A voz grave dele rompeu o silêncio.
Ela recompôs a expressão imediatamente.
— Boa noite.
— Parece que o destino insiste em nos colocar no mesmo ambiente.
Ela soltou um sorriso discreto.
— Ou São Paulo é menor do que imaginamos.
Leonardo acomodou-se na poltrona.
— Também pode ser.
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As luzes se apagaram completamente.
A música começou.
A primeira modelo surgiu na passarela.
Vestia um conjunto estruturado em tons neutros.
A plateia aplaudiu.
Leonardo observava o desfile.
Mas, vez ou outra, desviava os olhos para Isadora.
Ela não assistia como uma espectadora comum.
Ela analisava.
Observava costuras.
Modelagens.
Caimentos.
Expressões.
Tecidos.
Era como se desmontasse cada criação mentalmente.
Depois da quinta entrada, Leonardo perguntou em voz baixa:
— E então?
Ela continuou olhando para a passarela.
— O quê?
— Gostou da coleção?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Não.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Não?
— Ela é bonita.
Mas bonita não basta.
Aquilo despertou completamente sua atenção.
— Explique.
Ela cruzou delicadamente as pernas.
— Eles estão apostando em silhuetas muito semelhantes.
Falta identidade entre as peças.
A cartela de cores é segura demais.
Os tecidos são excelentes, mas a modelagem não conversa com mulheres reais.
Leonardo permaneceu em silêncio.
Ela continuou.
— Parece uma coleção feita para impressionar críticos.
Não para vestir pessoas.
Ele olhou novamente para a passarela.
Pela primeira vez.
Com os olhos dela.
E percebeu detalhes que haviam passado despercebidos.
— Continue.
Ela sorriu de canto.
— Você está mesmo interessado?
— Muito.
— Então observe.
Na terceira entrada, repetiram praticamente a mesma construção de ombros da primeira peça.
Mudaram o tecido.
Mudaram a cor.
Mas a ideia continua igual.
Ele analisou novamente.
Ela tinha razão.
— E aquele vestido vermelho?
Ela respondeu quase imediatamente.
— Lindo.
Mas faria muito mais sentido com uma cintura deslocada dois centímetros acima.
O caimento valorizaria diferentes biotipos.
Assim...
Só funciona em uma modelo extremamente magra.
Leonardo voltou a encará-la.
Não era opinião.
Era conhecimento.
Era técnica.
Era talento.
Um talento raro.
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Quando o desfile terminou, toda a plateia levantou-se para aplaudir.
Isadora também.
Leonardo permaneceu olhando para ela.
Depois perguntou calmamente:
— Quem desenhou seu vestido?
Ela olhou para a própria roupa.
Depois para ele.
— Eu.
— Imaginei.
Ela sorriu.
— Como?
Ele sustentou seu olhar.
— Porque alguém que enxerga moda desse jeito dificilmente usaria algo criado por outra pessoa.
Pela primeira vez desde que o conhecera...
Isadora ficou sem resposta.
Aquele elogio tinha um peso diferente.
Não era direcionado à sua aparência.
Era ao seu talento.
E isso significava muito mais.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Rafael voltou.
— Pronta para irmos?
Ela assentiu.
— Sim.
Leonardo levantou-se.
— Foi um prazer revê-la, Isadora.
Ela sorriu educadamente.
— Igualmente, senhor Vasconcelos.
Os dois seguiram em direções opostas.
Mas Leonardo permaneceu parado por alguns segundos.
Henrique aproximou-se novamente.
— E então?
Leonardo continuava olhando para o corredor por onde Isadora havia desaparecido.
A resposta veio baixa.
Quase como um pensamento em voz alta.
— Ela não nasceu para vender roupas.
Henrique cruzou os braços.
— Não?
Leonardo desviou finalmente o olhar.
Havia uma convicção incomum em sua voz.
— Ela nasceu para criá-las.
Naquela mesma noite, antes mesmo de chegar em casa, Leonardo tomou uma decisão.
Na segunda-feira, conversaria com Henrique.
E, custasse o que custasse, encontraria uma maneira de colocar Isadora exatamente onde o talento dela merecia estar.
Mesmo que ela nunca soubesse quem abriu a primeira porta.