A cidade ainda despertava quando Leonardo Vasconcelos estacionou diante da sede da Vasconcelos Group Fashion.
O prédio de vidro refletia o céu cinzento daquela segunda-feira, impondo-se sobre a avenida como um símbolo do império construído pela família Vasconcelos ao longo de três gerações.
Centenas de pessoas passavam diariamente por aquelas portas de vidro.
Pouquíssimas conseguiam permanecer.
Ali, talento era obrigatório.
Excelência, o mínimo esperado.
Leonardo atravessou o saguão sem diminuir o passo. Os funcionários o cumprimentavam discretamente conforme ele passava.
— Bom dia, doutor Leonardo.
— Bom dia.
— Bom dia, senhor.
Ele respondia apenas com um leve aceno.
Pontualidade, disciplina e foco.
Era assim que conduzia a própria vida.
Mas, naquela manhã, havia algo incomum.
Pela terceira vez desde o desfile, a imagem de um vestido azul-lavanda atravessou seus pensamentos.
E, junto dela, veio uma voz firme.
"Parece uma coleção feita para impressionar críticos. Não para vestir pessoas."
Leonardo entrou no elevador privativo.
Assim que as portas se fecharam, soltou um suspiro discreto.
Não era do seu feitio pensar tanto em alguém que conhecera havia poucos dias.
Muito menos em uma consultora de vendas.
Mas Isadora não permanecia em sua mente por acaso.
Era o olhar técnico.
A segurança com que defendia suas ideias.
A paixão evidente quando falava sobre moda.
Ela enxergava detalhes que profissionais experientes haviam ignorado.
E isso era raro.
Muito raro.
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Henrique já o esperava quando ele entrou na sala.
O escritório tinha um estilo completamente diferente do de Leonardo.
Enquanto a sala do primo era marcada por linhas retas, tons sóbrios e organização quase obsessiva, a de Henrique era preenchida por livros, fotografias de campanhas antigas, tecidos, miniaturas de manequins e quadros assinados por estilistas famosos.
Criatividade.
Era a palavra que melhor definia aquele ambiente.
Henrique ergueu os olhos do notebook e sorriu.
— Milagre.
Leonardo tirou o paletó.
— O quê?
— Você chegar antes de mim.
— Você atrasou três minutos.
Henrique deu de ombros.
— O trânsito estava horrível.
— Você mora no mesmo prédio.
— Exatamente.
O elevador demorou.
Leonardo apenas balançou a cabeça.
Era impossível discutir com Henrique.
Além de primo, ele era o único amigo que possuía desde a adolescência.
Os dois eram completamente diferentes.
E talvez fosse justamente por isso que funcionassem tão bem.
Henrique fechou o notebook.
— Então...
A que devo a honra dessa visita logo cedo?
Leonardo permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois caminhou até a enorme janela do escritório.
Observou a cidade antes de responder.
— Preciso que você contrate uma pessoa.
Henrique arregalou as sobrancelhas.
— Você acabou de falar isso?
Leonardo voltou-se para ele.
— Sim.
— Você?
— Henrique...
— Espera.
Deixa eu aproveitar esse momento histórico.
Você... Leonardo Vasconcelos... acabou de pedir que eu contratasse alguém.
Ele colocou a mão no peito teatralmente.
— Estou emocionado.
Leonardo respirou fundo.
— Já terminou?
— Ainda não.
Henrique pegou o celular.
— Acho que vou gravar.
— Henrique.
— Tá bom.
Estou brincando.
Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Quem é?
Leonardo respondeu sem hesitar.
— Isadora Duarte.
O sorriso divertido desapareceu lentamente do rosto de Henrique.
— A garota do desfile.
Leonardo não respondeu.
Não precisava.
Henrique soltou um riso baixo.
— Eu sabia.
— Você não sabe de nada.
— Sei que você passou o desfile inteiro prestando atenção nela.
— Prestei atenção nas análises dela.
— Claro.
Leonardo lançou-lhe um olhar impaciente.
— Ela tem talento.
Henrique continuou observando o primo.
Em mais de quinze anos trabalhando juntos, nunca o tinha visto defender alguém daquela forma.
Ainda mais alguém de fora da empresa.
— O que ela faz?
— Trabalha em uma boutique de luxo.
— Formação?
— Não sei.
— Currículo?
— Também não sei.
Henrique cruzou os braços.
— Então você quer que eu contrate uma mulher cujo currículo nem conhece?
Leonardo aproximou-se da mesa.
— Quero que você a entreviste.
Há diferença.
O silêncio tomou conta da sala.
Henrique encarava o primo com curiosidade.
— Isso é sobre talento...
Ou sobre ela?
Leonardo sustentou o olhar.
— Sobre talento.
Henrique permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois sorriu discretamente.
Conhecia Leonardo bem demais para perceber uma pequena mudança.
Ele realmente acreditava no potencial daquela garota.
Mas havia outra coisa.
Uma curiosidade.
Uma inquietação.
Algo que nem o próprio Leonardo parecia disposto a admitir.
— Tudo bem.
Vou entrevistá-la.
Leonardo relaxou os ombros pela primeira vez naquela conversa.
— Mas...
Henrique levantou um dedo.
— Se ela não for tão boa quanto você acredita...
Ela não entra.
Leonardo respondeu imediatamente.
— Justo.
— E se ela realmente for boa...
Henrique abriu um sorriso.
— Você vai me dever um jantar.
Pela primeira vez naquela manhã, Leonardo sorriu de verdade.
— Fechado.
Henrique estendeu a mão.
Os dois apertaram as mãos como faziam desde crianças.
Negócio fechado.
Sem que Isadora soubesse...
Seu destino acabava de mudar.