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ENTRE TECIDOS E SEGREDOS
ENTRE TECIDOS E SEGREDOS
Por: PassionVi
Capítulo 1 - A mulher que não abaixava os olhos

Parte 1

O aroma de couro italiano misturado ao perfume amadeirado que preenchia a loja era uma das poucas coisas que Isadora Duarte realmente apreciava em seu trabalho.

Ela acreditava que lugares também contavam histórias.

Aquela boutique de luxo, instalada na rua mais elegante dos Jardins, em São Paulo, narrava a história de pessoas que nunca precisavam perguntar o preço de uma peça.

Tudo ali era impecável.

O mármore claro refletia a luz dos enormes lustres de cristal.

Araras douradas exibiam vestidos assinados por grandes estilistas internacionais.

Bolsas limitadas descansavam em nichos iluminados como obras de arte.

O silêncio era interrompido apenas pelo som discreto dos saltos das clientes e pela música clássica que tocava ao fundo.

Isadora passou delicadamente a mão sobre o tecido de um vestido de seda.

Mesmo depois de quase três anos trabalhando ali, ainda admirava o caimento perfeito das roupas.

Não porque desejasse possuí-las.

Mas porque sempre imaginava como faria diferente.

Ela enxergava erros onde outros viam perfeição.

"O recorte poderia ser mais limpo..."

"A cintura ficaria melhor dois centímetros acima..."

"Esse tecido merecia um acabamento francês..."

Sua cabeça nunca parava de criar.

— Isadora...

A voz da gerente interrompeu seus pensamentos.

— Sim, dona Cláudia?

— Não esqueça que hoje teremos um cliente muito importante.

Ela assentiu.

— Alguma celebridade?

— Pior.

Isadora arqueou uma sobrancelha.

— Empresário.

As duas riram.

— O nome dele é Leonardo Vasconcelos.

— Nunca ouvi falar.

— Porque você vive desenhando e não lê revistas de negócios.

— Justo.

Cláudia aproximou-se e abaixou a voz.

— Dizem que ele é extremamente exigente.

— Cliente exigente não me assusta.

— Dizem que já fez gerente de hotel pedir demissão.

Isadora soltou uma risada.

— Aí o problema não é o cliente...

— É o quê?

— É o gerente.

Cláudia balançou a cabeça.

— Você tem resposta para tudo.

— Ainda bem. Faz parte do trabalho.

As duas voltaram aos afazeres.

Mas, vinte minutos depois, a porta automática da boutique se abriu.

O ambiente pareceu mudar.

Não porque alguém anunciasse sua chegada.

Mas porque algumas pessoas tinham uma presença que ocupava o espaço antes mesmo de dizer uma palavra.

Um homem alto entrou acompanhado apenas de um segurança que permaneceu do lado de fora.

O terno preto sob medida parecia ter sido feito para aquele corpo.

O relógio discreto no pulso custava mais do que muitos carros.

Os cabelos escuros estavam perfeitamente alinhados.

A barba curta desenhava um rosto de traços marcantes.

Mas eram os olhos que chamavam atenção.

Cinzentos.

Frios.

Observadores.

Ele percorreu toda a loja com um único olhar.

Como se estivesse avaliando cada detalhe.

Cada funcionário.

Cada peça.

Cada centímetro daquele ambiente.

Cláudia caminhou rapidamente em sua direção.

— Senhor Vasconcelos, seja muito bem-vindo.

Ele apenas fez um leve aceno.

— Tenho uma prova marcada.

— Claro. A Isadora será responsável pelo seu atendimento.

Antes que a gerente pudesse chamá-la, Leonardo já olhava diretamente para ela.

Os olhos dele demoraram um segundo além do necessário.

Não por interesse.

Por análise.

Como se tentasse entender por que aquela jovem, de vestido floral delicado e fita métrica pendurada no pescoço, trabalhava em uma loja daquele padrão.

Isadora caminhou até ele sem demonstrar qualquer nervosismo.

Sorriu profissionalmente.

— Bom dia, senhor Vasconcelos.

— Bom dia.

— Podemos ir até a sala de atendimento?

Ele apenas assentiu.

Durante o caminho, Isadora percebeu que ele observava discretamente as vitrines.

Não admirando.

Julgando.

Entraram em uma sala reservada.

Ali havia espelhos dos dois lados, sofás de couro, iluminação perfeita e um provador exclusivo.

Ela pegou um tablet.

— A gerente informou que o senhor procura um smoking para o baile beneficente da Fundação Vasconcelos.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Você pesquisou.

— Eu gosto de saber quem estou atendendo.

— Interessante.

Ela sorriu de leve.

— Facilita meu trabalho.

Leonardo retirou o paletó com naturalidade.

Ela manteve a postura profissional.

Já havia atendido homens bonitos antes.

E ele, embora chamasse atenção, era apenas mais um cliente.

Ou pelo menos era isso que ela dizia para si mesma.

— O senhor prefere um corte clássico ou contemporâneo?

— Qual você escolheria?

Ela levantou os olhos do tablet.

— Está perguntando como vendedora ou como estilista?

Pela primeira vez, Leonardo pareceu realmente prestar atenção nela.

— Você é estilista?

— Ainda não.

— Então por que respondeu assim?

Ela sorriu.

— Porque pretendo ser.

O silêncio durou alguns segundos.

Depois ela caminhou até um cabide.

Retirou um smoking azul-marinho de uma coleção recém-chegada.

— Esse.

Leonardo observou a peça.

— Não foi o mais caro.

— O senhor pediu o melhor.

Não o mais caro.

Ele cruzou os braços.

— E qual a diferença?

Isadora sustentou o olhar dele sem hesitar.

— Uma peça cara compra status.

Uma peça bem escolhida revela personalidade.

O ambiente ficou silencioso.

Ela percebeu que havia provocado o homem errado.

Ou talvez...

O homem certo.

Leonardo aproximou-se um passo.

— Você costuma contrariar seus clientes?

— Só quando eles confundem preço com qualidade.

A frase escapou antes que pudesse filtrá-la.

Cláudia, que observava discretamente pela porta entreaberta, levou a mão à testa.

"Meu Deus... ela acabou de afrontar Leonardo Vasconcelos."

Mas, para surpresa de todos...

Ele não ficou irritado.

Apenas a encarou.

Longamente.

Como se estivesse tentando decidir se aquela garota era extremamente corajosa...

Ou completamente inconsequente.

Continua...

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