Início / Romance / Dona Sorte e Sr Azar / Capítulo 4 Do outro lado da moeda
Capítulo 4 Do outro lado da moeda

Hendrick

​Acordo com um toque baixo do aparelho que fica embaixo do meu travesseiro. Afasto o sono rápido e me levanto para acordar Endriave.

​Dividimos o mesmo quarto desde o dia em que me mudei em definitivo do orfanato para a mansão dos Silverstones. Endriave nunca me tratou melhor do que um criado, mas ele tratava seus criados com decoro, então eu não podia reclamar. O mais difícil de tolerar é o comportamento desprezível da mãe dele.

​Depois de acordá-lo com suavidade, ele me dá bom dia e faz sinal para que seus empregados o arrumem para o primeiro dia de aula. Apesar de eu não desfrutar de todo o luxo e facilidades que Endriave tem dentro de casa, do lado de fora sou tratado como segundo na linha de sucessão da herança da família. Não pode haver suspeitas de que a família Silverstone adotou alguém nem de que faz distinção de filhos; isso era malvisto pela alta sociedade. E deve ser por isso que foram pouquíssimas as vezes em que eu e Endriave colocamos o pé para fora de casa.

​Mas, como hoje tanto Endriave quanto eu, seu acompanhante, vamos entrar para o Colégio de Herdeiros, não voltaremos com tanta frequência para casa, o que significa que eu vou ter um pouco mais de conforto, pelo menos por um tempo.

​Depois do banho de Endriave, ajudo-o a colocar seu uniforme impecável e bem passado; coloco seus óculos, que escondem por completo a deformidade nos olhos, e o direciono até a sala de jantar, onde a família se reúne para o desjejum.

​— Bom dia, Sr. Silverstone e Sra. Silverstone — digo, fazendo uma reverência com a mão no coração.

​Enquanto o Sr. Silverstone me lança um sorriso, a Sra. parece estremecer um pouco de raiva. Guio Endriave pela mão até seus pais, que o abraçam e o cumprimentam. Puxo a cadeira para que ele se sente. Quando se acomoda, faço outra reverência e me retiro da presença deles, que ignoram o fato de eu sequer ter estado ali.

​Após o banho, visto o uniforme que também foi separado para mim; ele se encaixa perfeitamente, provavelmente feito pelo alfaiate da família — ele sabe todas as nossas medidas. Penteio meus cabelos castanhos para trás, assim como o código de aparência e vestimenta da família manda. Dou uma boa checada no espelho e vejo que não tem nada fora do lugar. Fui instruído a usar dois anéis de safiras azuis, um no dedo anelar direito e o outro no mindinho esquerdo, além da fragrância da família: sândalo e limão para mim, cedro e hortelã para Endriave.

​Sei que estou indo cumprir com o meu dever, mas não deixo de estar levemente aliviado por sair um pouco dessa casa. Tomo meu café no quartinho que fica escondido atrás da prateleira; nem mesmo os criados sabem que vim de um orfanato de elite, só sabem que sou extremamente zeloso e cuidadoso com meu irmão e não gosto muito de interações familiares.

​Desço até a sala de jantar, onde eles já terminaram de comer. Quando acabo de descer as escadas, não deixo de observar certo espanto no rosto do casal, que não desgruda os olhos de mim desde o primeiro degrau. Sinea, a mãe de Endriave, faz um sinal para que eu me aproxime. Ajudo Endriave a sair do seu assento e o direciono até sua mãe.

​— Querido filho, você é o futuro líder da família; honre seus pais e assuma seu legado — ela diz e coloca o broche com o brasão da família na lapela de seu uniforme.

​— Hendrick, você é um pilar importante para nossa família. Você cuidará de que seu líder sempre esteja seguro e tenha tudo o que precisa. Siga a sua missão, cumpra o seu dever — o Sr. Silverstone diz e, depois, coloca o broche com o brasão da família em mim. Seus olhos, fixos em meu rosto, reforçam mais uma vez a seriedade do meu papel: manter o herdeiro seguro.

​Após as despedidas de Endriave, encaminho-o para fora, onde o motorista da família já nos aguarda. Ajudo Endriave a entrar no carro e passo o cinto de segurança, prendendo-o no banco; depois, dou a volta e me sento ao seu lado.

​Endriave não costuma mostrar reações, incômodos ou quaisquer outras emoções; parece frio e alheio a tudo o que o rodeia, mas hoje não consigo parar de reparar que ele parece ansioso e ligeiramente tenso. Olho para seu perfil: as sobrancelhas levemente franzidas. Ele praticamente é a versão masculina de sua mãe; os cabelos ruivos caem levemente na testa, meio ondulados, e as sardas salpicam todo o seu rosto. Tirando o fato de ser bem alto — algo que acredito ele ter puxado do pai —, eu poderia dizer que ele e a mãe são cópias equivalentes.

​Durante todo o percurso, ele permanece quieto e distante. E eu não tenho permissão para falar com ele até que ele fale primeiro; e, francamente, hoje não estou disposto a ouvir nada nem nenhuma reclamação do herdeiro rico.

​Hoje completo 17 anos. Não deixo de pensar que, se eu nunca tivesse sido adotado, a essa altura eu já estaria livre e bem longe daqui. Afasto esses pensamentos; já aprendi faz tempo que pensar em como o passado poderia ser diferente é desperdício de tempo de vida, e nós humanos não vivemos muito para nos dar esse luxo.

​Observo a paisagem cinza pela janela do carro. Jacarta é uma cidade que manteve as raízes; ela não virou um centro tecnológico como outras partes do mundo. Ainda temos muitas árvores, casas tradicionais em alvenaria, não há prédios, e até as pistas de hipervelocidade não estão espalhadas aos montes, apenas em locais estratégicos e vias longas. Por isso, a ida até a escola se estendeu por 37 km sem atalhos. Quando chegamos ao portal da escola, me surpreendo com o quão sombrio é o lugar. Me lembra até o Lar Feliz das Crianças Sem Sorte: pedra sobre pedra cinzas, não tem cores, jardins ou fontes de água que tirem o foco daquela visão nublada do castelo que abrigaria os alunos. As únicas cores que podem ser observadas de longe, assim que o carro entra pelo portal, são as portas de elevadores: uma vinho ao canto esquerdo da construção e, muito mais à direita, uma azul.

​As maiores e mais importantes famílias e impérios do mundo: os Marverichs e os Silverstones.

​O motorista estaciona em frente ao elevador azul. De perto, posso ver os entalhes dourados e o nome da família ao centro com letras bem extravagantes. Um elevador extravagante para uma família extravagante. Guio Endriave até lá e aperto o botão da cobertura, onde ficam nossas acomodações. Assim que as portas se fecham, curiosamente, Endriave aperta o botão de parada sem errar. Me posiciono à sua frente. Endriave ajusta a postura; ele não se vira, mas sabe exatamente onde estou.

​— Você está ansioso? — diz.

​— Não me sinto diferente do normal — respondo.

​Ele inclina levemente a cabeça, como se analisasse o som da minha voz.

​— Meu pai costuma dizer que você é... eficiente. Uma palavra curiosa para se usar com pessoas.

​Permaneço em silêncio, analisando suas intenções.

​— Ontem à noite — continua ele — ouvi meu nome ser repetido várias vezes. E o seu logo depois. — Ele respira fundo. — Importância. Confiança. Continuidade. Termos grandes demais para alguém sem sangue.

​Se ele espera reação, não encontra. Permaneço calado.

​— Você entende por que está aqui, Hendrick? — pergunta. — Não falo do colégio. Falo da família.

​— Entendo, senhor.

​Ele sorri. Um sorriso contido, tenso.

​— Você existe para garantir que eu continue intacto. Para servir, observar, antecipar. Nada além disso.

​— Sim.

​Novamente, ele aperta o botão para que o elevador volte a subir. Olho desconfiado para ele: será que ele já estudou aqui antes?

​— Minha mãe acredita que tudo pode ser controlado — diz ele, com um leve desprezo. — Pessoas, reputações, riscos. Ela acredita que você é um desses controles. — Ele dá um passo na minha direção; para a uma distância precisa demais para alguém que não enxerga. — Mas controle cria dependência. E dependência cria fraqueza.

​Aguardo.

​— Não confunda proximidade com ascensão — ele diz. — Nem função com direito. Você não herdará nada; até o pouco que você tem é meu por direito.

​— Nunca considerei herança, senhor.

​Isso o faz parar.

​— Não? — pergunta, desconfiado.

​— Isso é algo que não me diz respeito.

​Ele franze levemente a testa.

​— Tudo aqui diz respeito à herança. — Ele agita os braços para evidenciar o elevador espaçoso e luxuoso.

​— Para a sua família, sim. Mas eu não faço parte da sua família.

​Minha resposta é calma, neutra. Mas espero que isso tire qualquer suspeita que ele possa ter de mim. O elevador desacelera.

​— Lembre-se do seu lugar — diz Endriave, agora com frieza explícita. — O mundo funciona melhor quando cada um sabe o que é.

​As portas se abrem. Dou um passo à frente, seguro seu braço com firmeza e o guio para fora.

​— Eu sei exatamente o meu papel — respondo. — E cumpro isso com excelência.

​Caminhamos pelo corredor. É claro que, por fora, sou leal. Mas a verdade é que não desejo nada do que eles protegem com tanto medo. E tenho meus próprios métodos para sair vitorioso dessa batalha sem nem mesmo lutar nas linhas de frente. E, enquanto Endriave se agarra à ideia de sangue como se fosse destino, eu já compreendi algo que ele jamais verá: impérios não são ameaçados por quem quer entrar, mas por quem não precisa dele para construir um.

​— Vá buscar meu aparelho que ficou no carro — diz ele, seco, enquanto entra no apartamento.

​— É claro, Endriave — respondo, usando seu nome de propósito.

​Vejo-o dando um sorriso incrédulo enquanto as portas do elevador se fecham. É interessante ver o quão assustado ele está. Agora eu preciso saber do que os pais dele estavam conversando sobre mim a ponto de ele ter ficado tão preocupado.

​Assim que desço do elevador, vejo-o subindo novamente. Com certeza aquele imprestável quer que eu suba pelas escadas. Vou até o motorista, que ainda está a postos, e peço que ele procure o aparelho dentro do carro; ele rapidamente o encontra e me entrega. Lhe desejo um bom dia de trabalho e o dispenso; ele diz que voltará mais tarde com nosso carro pessoal. Visto que a escola não permite mais de dois empregados por família, e já temos a cozinheira e a faxineira, parece que eu vou ser o motorista da vez.

​De longe, observo que o elevador azul não desceu, e o elevador dos Marverichs continua disponível. Me encaminho até lá e aperto o botão para que ele abra, bem no momento em que vejo um Porsche vinho — da cor exata do elevador — estacionando bem à frente.

​As portas se fecham. Escolho o andar da cobertura, mas, mesmo após apertar o botão, nada acontece.

Aperto novamente e uma mensagem brilha no painel: "Digital não correspondente. Acesso não autorizado".

Quanto zelo por esses herdeiros! Nós, pobres empregados, não temos nenhum direito sobre o que é deles. Ah, depois da conversa mais cedo com Endriave, isso não podia ser mais irônico.

​A porta do elevador se abre e o cheiro de rosas entra quente e suave no meu nariz. Mas aquela borboleta que parece bater asas é o que faz meu coração acelerar; eu jurava que ela só viria amanhã. Endriave e eu tínhamos uma autorização especial para que ele se ambientasse primeiro aos espaços, mas é claro que a família mais poderosa do mundo também teria esse direito.

​Eu não posso deixar que ela descubra quem eu sou; não até eu ter me livrado completamente dessa família. Vejo-a respirando fundo ao sentir meu perfume, que também exala dentro do elevador. Assim que as portas se fecham, eu digo com a voz mais aveludada que consigo nesse momento:

​— Eu também adoro o cheiro de rosas — falo, bem próximo ao seu ouvido, e inspiro forte perto do seu pescoço.

​Ela se vira imediatamente para mim e olha nos meus olhos. Faço de tudo para manter a compostura; suprimo toda a saudade que sinto e dou um sorriso de canto para ela. Ela cambaleia para trás. E fico satisfeito por ter causado impacto. Afinal, ela é o único motivo de eu hesitar tanto em sair de Jacarta; eu queria vê-la de novo e levá-la comigo.

​Ela se recompõe e estende a mão para apertar o botão de emergência no elevador. Antes que eu pudesse controlar meu impulso, seguro o punho dela para impedi-la e não deixo de notar que ela tem na mão o mesmo anel que eu no indicador da mão direita, com a simples alteração de que é um rubi e não uma safira.

​Digo no seu ouvido mais uma vez:

​— Por favor, não faça isso. — Deixo minha mão escorregar do seu punho até seu braço, do seu braço até seu ombro e do seu ombro até o bolso do paletó do meu uniforme.

— É meu primeiro dia, e meu elevador parece preso no último andar — digo, me afastando dela.

— Achei que não teria problema usar o seu, já que você não tinha chegado ainda — concluo.

​Observo seus olhos mudarem de leve desespero para uma leve indiferença.

​— Eu me chamo Hendrick Silverstone.

​— Lizzebeth Udarach Marverich — ela diz, casual.

​Não consigo deixar de sorrir quando ela finalmente encontra meus olhos depois de percorrer com os seus todo o meu corpo.

​— Qual andar? — ela diz, e a voz soa um pouco fina demais; logo após, ela finge uma tosse.

​— Cobertura.

​Ela aperta o botão e se posiciona no lado oposto do elevador. Em segundos, chegamos à cobertura, o que me faz pensar que meu elevador é bem mais lento; isso deve ser uma configuração para não desnortear Endriave, o que parece exagero, visto que ele é muito mais capaz do que parece.

​Ela passa por mim e faz um breve aceno com a cabeça. Antes que entre no seu apartamento, corro e seguro sua mão. Ela me olha assustada, mas não recolhe a mão.

​— Muito obrigado, minha dama — digo e beijo lentamente sua mão.

Ela se afasta rápido e b**e a porta atrás de si. Sorrio para a porta; engraçado ver seu leve desespero ao lidar comigo.

No orfanato, ela era tão implacável; quando se tornou tão submissa e recatada?

​O aparelho de Endriave vibra no meu bolso e, ao pegá-lo, vejo que é uma ligação da sua mãe. Atendo o telefone, mas, antes que eu consiga me identificar, ela solta:

​— Você não acha estranho ele se parecer tanto com seu pai? — Escuto barulho de passos no telefone.

— Ele está aqui, vou desligar.

​Abaixo o aparelho pensando: o que isso quer dizer? Não me acho parecido com o Sr. Silverstone.

Temos a mesma altura, um pouco mais altos que Endriave , o cabelo é parecido, mas é só isso. Talvez os olhos azuis? Mas conheço dezenas de pessoas altas de olhos azuis e cabelos castanhos.

​Me apresso em chegar do outro lado do extenso corredor que liga os dois apartamentos.

Bato na porta e entro. Vejo Endriave no sofá, entediado, com fones de ouvido. Ao ouvir o barulho da porta fechando, ele puxa os fones.

​— Uau, para quem veio subindo escadas, nem demorou tanto assim — diz ele, levantando-se. — Me leve até meu quarto.

​Entrego o aparelho para ele e o guio. É a primeira vez em 21 anos que ele vai dormir sozinho, pois nesse apartamento os quartos são separados. Mas ele não parece nem um pouco surpreso; senta-se na cama e me passa instruções para hoje.

​Haverá um jantar de noivado hoje à noite, uma união familiar. Endriave é o noivo, mas quem vai estar no jantar sou eu. A união é muito importante e, se os pais da noiva acharem que o pretendente não é digno por causa de sua deficiência, isso poderia prejudicar o casamento. Por mais que Endriave não seja uma pessoa sempre agradável. Isso é muito cruel, mais cruel do que suas palavras no elevador.

​O plano é enganar a noiva e mudar o noivo no último segundo. Que artimanha mais nojenta! No final, é assim que a elite funciona: seres humanos que perderam a humanidade.

​— Você sabe o nome da família? — pergunto por fim

​— Marverich.

​Meu coração erra a batida.

​— Dizem que ela é linda e muito qualificada — Endriave fala com um sorriso suave.

— Não confunda as coisas, Hendrick. Você vai ao jantar, mas ela? Ela é minha.

​As palavras dele foram como um soco no meu estômago. Sento-me na cadeira em frente à cama enquanto observo esse desgraçado sorrindo, ansioso.

Parece que vou ter que mudar todos os meus planos, porque não há nenhuma chance de a Srta. Marverich se casar com alguém além de mim, e não há a mínima chance de ela entrar para outra família na qual eu não esteja incluso.

​Eu vou protegê-la dessas pessoas.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App