Mundo de ficçãoIniciar sessãoRafaela mal conseguiu dormir direito. O quarto ainda era estranho, o silêncio pesado, e os pensamentos não davam trégua. Quando finalmente começou a pegar no sono, ouviu batidas firmes na porta.
— Rafaela! Acorda! Era Priscila. Rafaela se levantou assustada, ainda sonolenta, e abriu a porta. — Anda, levanta logo — disse Priscila, já entrando. — Hoje você começa as aulas. A Lorrane me deixou responsável por te ensinar pole dance. Rafaela engoliu seco. — Hoje já? — Aqui nada demora — respondeu Priscila, prática. Sem discutir, Rafaela pegou um short e um top que tinham comprado no dia anterior, se vestiu e foi com Priscila até a cozinha tomar café. Ela começou a comer, mas Priscila logo alertou: — Não come muito, senão passa mal nos giros. Rafaela já estava nervosa, então acabou comendo pouco mesmo. Minutos depois, estavam na sala de treino. O pole no centro parecia mais intimidador do que qualquer outra coisa. — Primeiro, equilíbrio — disse Priscila, demonstrando com facilidade. Quando Rafaela tentou… quase caiu. — Segura mais firme! Ela tentou de novo. E de novo. Mas escorregava, perdia o eixo, não conseguia sustentar o próprio corpo. — É mais difícil do que parece… — Rafaela murmurou, frustrada. Priscila soltou um leve riso. — Todo mundo acha que é fácil… até tentar. As horas foram passando, e Rafaela continuava com dificuldade. Suada, cansada, mas insistindo. Em um momento de pausa, Rafaela olhou para Priscila, curiosa. — Como você veio parar aqui? Priscila ficou em silêncio por alguns segundos. O sorriso desapareceu. — Eu… morava com minha avó. A gente passava muita dificuldade. Meus pais já tinham morrido… A voz dela começou a falhar. — Eu não aguentava ver ela passando fome. Então… eu vim trabalhar. Era isso ou continuar sem nada. Os olhos dela se encheram de lágrimas. Rafaela se aproximou. — Ei… não chora… Aquilo tocou fundo nela. — Eu também… — Rafaela começou — passei por muita coisa. Meu padrasto… ele… Ela respirou fundo, tentando se controlar. — Eu só queria uma vida melhor também. As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, se entendendo sem precisar de muitas palavras. Mas o clima mudou quando Priscila olhou para a roupa de Rafaela. — Você ainda tá com vergonha, né? Rafaela abaixou o olhar. — Eu não tô acostumada com isso… Priscila foi direta: — Então se acostuma. Aqui você precisa chamar atenção. É isso que dá dinheiro. Rafaela não respondeu, mas sabia que era verdade naquele lugar. Elas voltaram a treinar e passaram o resto do dia ensaiando. No fim da tarde, já exausta, Rafaela se sentou. — Chega por hoje — disse Priscila. — E se prepara… porque a Lorraine mandou você pro bar hoje. Rafaela arregalou os olhos. — Hoje?! — Hoje. Rafaela respirou fundo. — Tá… eu vou me arrumar. — Não — disse Priscila, sorrindo de leve. — Eu vou te arrumar. No quarto, Priscila escolheu um vestido curto de napa que marcava o corpo de Rafaela, fez uma maquiagem bem feita, destacando seus olhos e lábios. Quando terminou, Rafaela se olhou no espelho. Ela parecia outra pessoa. — Você tá linda — disse Priscila. Rafaela ficou sem saber o que dizer. — E você? Vai fazer o quê hoje? — perguntou. Priscila respondeu com naturalidade: — Sala VIP. Rafaela hesitou antes de perguntar: — Você… não fica com vergonha? Priscila deu de ombros. — No começo sim. Agora não. Eu ganho dinheiro… e faço o que precisa ser feito. Rafaela ficou pensativa. Pouco depois, cada uma seguiu seu caminho. Rafaela foi para o bar, tentando parecer segura enquanto servia bebidas. O ambiente era cheio, barulhento, olhares por todos os lados. Alguns homens a observavam com interesse, o que a deixava desconfortável. Foi então que Marcela apareceu, com um sorriso debochado. — Olha só… a virgenzinha hoje tá de VIP no balcão. Rafaela ignorou, tentando continuar o trabalho. Mas Marcela, de propósito, esbarrou nela. O copo virou. A bebida caiu direto sobre o vestido de Rafaela. — Você tá maluca?! — Rafaela explodiu, irritada. — Foi sem querer — disse Marcela, claramente provocando. As duas começaram a discutir, chamando atenção. No escritório, Lorrane observava tudo pelas câmeras. Sem perder tempo, ela desceu. Quando chegou, um garçom já ajudava Rafaela. — Foi ela — disse ele, apontando para Marcela. — Eu vi. Foi de propósito. Lorraine lançou um olhar frio para Marcela. — Pro quarto. Agora. — Mas— — Marcela tentou protestar. — Agora. Marcela saiu furiosa, sabendo que tinha perdido dinheiro naquela noite. Lorraine então se virou para Rafaela. — Vai trocar de roupa. Rafaela assentiu, ainda com raiva, e subiu rapidamente. No quarto, ela fechou a porta com força. Ficou ali, parada, respirando fundo, tentando segurar as lágrimas. Raiva. Vergonha. Confusão. Tudo misturado. Ela olhou para o espelho mais uma vez. E pela primeira vez… não sabia mais quem estava olhando de volta.






