Capítulo 7

    Rafaela mal conseguiu dormir direito. O quarto ainda era estranho, o silêncio pesado, e os pensamentos não davam trégua. Quando finalmente começou a pegar no sono, ouviu batidas firmes na porta.

— Rafaela! Acorda!

Era Priscila.

Rafaela se levantou assustada, ainda sonolenta, e abriu a porta.

— Anda, levanta logo — disse Priscila, já entrando. — Hoje você começa as aulas. A Lorrane me deixou responsável por te ensinar pole dance.

Rafaela engoliu seco.

— Hoje já?

— Aqui nada demora — respondeu Priscila, prática.

Sem discutir, Rafaela pegou um short e um top que tinham comprado no dia anterior, se vestiu e foi com Priscila até a cozinha tomar café.

Ela começou a comer, mas Priscila logo alertou:

— Não come muito, senão passa mal nos giros.

Rafaela já estava nervosa, então acabou comendo pouco mesmo.

Minutos depois, estavam na sala de treino.

O pole no centro parecia mais intimidador do que qualquer outra coisa.

— Primeiro, equilíbrio — disse Priscila, demonstrando com facilidade.

Quando Rafaela tentou… quase caiu.

— Segura mais firme!

Ela tentou de novo. E de novo.

Mas escorregava, perdia o eixo, não conseguia sustentar o próprio corpo.

— É mais difícil do que parece… — Rafaela murmurou, frustrada.

Priscila soltou um leve riso.

— Todo mundo acha que é fácil… até tentar.

As horas foram passando, e Rafaela continuava com dificuldade. Suada, cansada, mas insistindo.

Em um momento de pausa, Rafaela olhou para Priscila, curiosa.

— Como você veio parar aqui?

Priscila ficou em silêncio por alguns segundos. O sorriso desapareceu.

— Eu… morava com minha avó. A gente passava muita dificuldade. Meus pais já tinham morrido…

A voz dela começou a falhar.

— Eu não aguentava ver ela passando fome. Então… eu vim trabalhar. Era isso ou continuar sem nada.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

Rafaela se aproximou.

— Ei… não chora…

Aquilo tocou fundo nela.

— Eu também… — Rafaela começou — passei por muita coisa. Meu padrasto… ele…

Ela respirou fundo, tentando se controlar.

— Eu só queria uma vida melhor também.

As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, se entendendo sem precisar de muitas palavras.

Mas o clima mudou quando Priscila olhou para a roupa de Rafaela.

— Você ainda tá com vergonha, né?

Rafaela abaixou o olhar.

— Eu não tô acostumada com isso…

Priscila foi direta:

— Então se acostuma. Aqui você precisa chamar atenção. É isso que dá dinheiro.

Rafaela não respondeu, mas sabia que era verdade naquele lugar.

Elas voltaram a treinar e passaram o resto do dia ensaiando.

No fim da tarde, já exausta, Rafaela se sentou.

— Chega por hoje — disse Priscila. — E se prepara… porque a Lorraine mandou você pro bar hoje.

Rafaela arregalou os olhos.

— Hoje?!

— Hoje.

Rafaela respirou fundo.

— Tá… eu vou me arrumar.

— Não — disse Priscila, sorrindo de leve. — Eu vou te arrumar.

No quarto, Priscila escolheu um vestido curto de napa que marcava o corpo de Rafaela, fez uma maquiagem bem feita, destacando seus olhos e lábios.

Quando terminou, Rafaela se olhou no espelho.

Ela parecia outra pessoa.

— Você tá linda — disse Priscila.

Rafaela ficou sem saber o que dizer.

— E você? Vai fazer o quê hoje? — perguntou.

Priscila respondeu com naturalidade:

— Sala VIP.

Rafaela hesitou antes de perguntar:

— Você… não fica com vergonha?

Priscila deu de ombros.

— No começo sim. Agora não. Eu ganho dinheiro… e faço o que precisa ser feito.

Rafaela ficou pensativa.

Pouco depois, cada uma seguiu seu caminho.

Rafaela foi para o bar, tentando parecer segura enquanto servia bebidas. O ambiente era cheio, barulhento, olhares por todos os lados. Alguns homens a observavam com interesse, o que a deixava desconfortável.

Foi então que Marcela apareceu, com um sorriso debochado.

— Olha só… a virgenzinha hoje tá de VIP no balcão.

Rafaela ignorou, tentando continuar o trabalho.

Mas Marcela, de propósito, esbarrou nela.

O copo virou.

A bebida caiu direto sobre o vestido de Rafaela.

— Você tá maluca?! — Rafaela explodiu, irritada.

— Foi sem querer — disse Marcela, claramente provocando.

As duas começaram a discutir, chamando atenção.

No escritório, Lorrane observava tudo pelas câmeras.

Sem perder tempo, ela desceu.

Quando chegou, um garçom já ajudava Rafaela.

— Foi ela — disse ele, apontando para Marcela. — Eu vi. Foi de propósito.

Lorraine lançou um olhar frio para Marcela.

— Pro quarto. Agora.

— Mas— — Marcela tentou protestar.

— Agora.

Marcela saiu furiosa, sabendo que tinha perdido dinheiro naquela noite.

Lorraine então se virou para Rafaela.

— Vai trocar de roupa.

Rafaela assentiu, ainda com raiva, e subiu rapidamente.

No quarto, ela fechou a porta com força.

Ficou ali, parada, respirando fundo, tentando segurar as lágrimas.

Raiva. Vergonha. Confusão.

Tudo misturado.

Ela olhou para o espelho mais uma vez.

E pela primeira vez… não sabia mais quem estava olhando de volta.

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