Na sala, o clima era tenso.
— Eu acredito nela! — Régis dizia, alterado — o seu marido passou a mão nela, e você não faz nada!
A mãe de Rafaela cruzou os braços, irritada.
— Você não sabe de nada, garoto.
— Eu sei sim! — ele insistiu — ela tava desesperada! Chorando!
— Chega! — interrompeu a mãe de Régis — vocês resolvam isso entre vocês.
Sem esperar resposta, ela subiu até o quarto.
Abriu a porta.
Silêncio.
Olhou ao redor.
A cama vazia.
A bolsa… não estava lá.
Seu coração apertou.
Ela desceu rapidamente.
— Régis… ela não tá lá.
Ele subiu correndo.
Abriu o quarto.
Procurou.
Nada.
— Não… não, não… — passou a mão no cabelo, nervoso.
Sem pensar, saiu de casa.
Régis dirigiu pelas ruas, desesperado.
— Rafaela…
Passou pelo colégio.
Pelas praças.
Pelas ruas onde costumavam andar.
Até passou pela rodoviária.
Mas era tarde.
O ônibus já tinha partido.
E Rafaela…
Já estava longe.
Dentro do ônibus, olhando pela janela, Rafaela via tudo ficando para trás.
Sua cidade.
Sua dor.
Seu passado.
Ela apertava a bolsa contra o peito.
Com medo.
Mas com esperança.
— Vai dar certo… — sussurrou para si mesma.
Quando chegou ao Rio de Janeiro, o movimento era intenso.
Pessoas indo e vindo.
Cada uma com seu destino.
Menos ela.
Rafaela desceu do ônibus… e ficou parada.
Sem saber para onde ir.
Sem ninguém.
Sem nada.
Depois de algum tempo… tomou uma decisão.
Voltou para dentro da rodoviária.
Ali parecia… mais seguro.
Naquela noite, ela dormiu sentada em um banco, abraçada à bolsa.
O sono era leve.
O medo constante.
No dia seguinte, acordou cedo.
Foi até o banheiro, tomou um banho rápido e tentou se arrumar da melhor forma possível.
Ela precisava de um emprego.
Precisava sobreviver.
Passou o dia inteiro andando.
Entrou em lanchonetes.
Padarias.
Pequenos comércios.
— Você tem endereço?
— Não…
— Então não dá.
A resposta era sempre a mesma.
Portas fechadas.
Olhares desconfiados.
Nenhuma chance.
Cansada, voltou para a rodoviária.
Comprou algo simples para comer.
Vestiu um moletom para se proteger do frio da noite.
E deitou novamente no banco.
Quando já estava quase dormindo…
Um ônibus parou.
Dele desceu uma mulher elegante.
Bem vestida.
Confiante.
Ela olhou diretamente para Rafaela.
Aproximou-se… e jogou algumas moedas perto dela.
Sem dizer nada.
E entrou em um carro vermelho.
Foi embora.
Rafaela pegou as moedas… confusa.
Mas o cansaço venceu.
E ela dormiu.
No dia seguinte…
Mais uma tentativa.
Mais recusas.
Mais portas fechadas.
E mais uma noite na rodoviária.
Foi então que alguém se aproximou.
— Ei… — disse um homem simples, com um olhar gentil — você tá com fome?
Rafaela hesitou… mas assentiu.
Ele entregou um prato de comida.
— Eu tenho duas filhas… — disse — não tô contratando… mas se você quiser ajudar lá… servir… limpar… pelo menos comida você vai ter.
Rafaela sentiu os olhos encherem de lágrimas.
— Obrigada…
Na manhã seguinte, ela decidiu.
Não ia mais procurar emprego.
Ia ajudar ali.
Era pouco.
Mas era alguma coisa.
Naquela noite, voltou ao banco para dormir.
Mas algo chamou sua atenção.
Um carro vermelho.
O mesmo.
Parando novamente.
A porta se abriu.
A mesma mulher desceu.
Dessa vez… veio até ela.
— O que uma moça bonita como você faz dormindo aqui?
Rafaela hesitou… e mentiu.
— Meus pais morreram… tô sozinha.
A mulher a analisou com atenção.
— Quer trabalhar pra mim?
Rafaela franziu a testa.
— Eu não me prostituo… sou virgem… e quero esperar o casamento.
A mulher deu um leve sorriso.
— Romântico… raro hoje em dia.
Deu um passo mais perto.
— Mas não é isso que eu quero.
Rafaela ficou surpresa.
— Eu tenho uma boate — continuou — e preciso de dançarinas.
Silêncio.
— Você dança… ganha dinheiro… tem onde dormir… e o que comer.
Rafaela ficou pensativa.
— Pensa bem — disse a mulher — amanhã meu carro passa aqui de novo.
Ela colocou algumas moedas na mão de Rafaela.
— Se quiser… entra.
E foi embora.
Rafaela ficou ali.
Sentada.
Olhando para o nada.
O coração dividido.
Medo.
Esperança.
Dúvida.
Talvez…
Aquela fosse sua chance.
Ou talvez…
O começo de algo muito mais perigoso.