Assim que chegou em casa, a mãe de Régis tirou os sapatos com pressa e foi direto até ele.
— Régis… eu vi aquela menina… a Rafaela… — disse, séria — ela tava na praça. Sozinha. De madrugada.
Régis franziu a testa na mesma hora.
— O quê?
Sem pensar duas vezes, pegou uma blusa.
— Eu vou lá.
— Régis, espera—
Mas ele já tinha saído.
O carro parou bruscamente perto da praça.
— Rafaela! — ele começou a chamar, olhando ao redor — Rafaela!
Nada.
Silêncio.
O coração dele apertou.
Sem alternativa, voltou para o carro e seguiu até a casa dela.
Quando bateu na porta, foi a mãe de Rafaela quem atendeu.
— Ela tá aí? — perguntou direto.
— Aquela menina fugiu — respondeu a mulher, com descaso — tá ficando maluca.
Atrás dela, o padrasto apareceu, com um sorriso irônico.
— Problemática… vive inventando coisa.
Régis sentiu o sangue ferver.
— Cala a boca! — ele disparou — se você encostou um dedo nela…
Deu um passo à frente.
— Você vai se ver comigo.
O homem apenas riu, debochado.
— Olha o moleque…
— Some daqui! — gritou a mãe de Rafaela, nervosa — não se mete!
Régis respirou fundo, tentando se controlar… e saiu.
De volta à praça, ele não desistiu.
— RAFAELA!
O vento soprava leve…
Até que uma voz, fraca, respondeu:
— Régis…
Ele olhou ao redor.
— Aqui…
Ele ergueu os olhos.
Ela estava na árvore.
— Meu Deus… Rafa, desce daí!
Com cuidado, Rafaela desceu. Quando chegou perto, já estava chorando.
— Ele tentou… — disse, com a voz quebrada — e minha mãe não acreditou…
Régis sentiu um aperto no peito.
— Vem… você não vai ficar aqui.
— Eu não posso ir… sua mãe não gosta de mim…
— Eu não vou te deixar sozinha!
Sem dar mais espaço pra discussão, abriu a porta do carro.
Depois de hesitar… Rafaela entrou.
Na casa dele, tudo parecia estranho.
Régis contou tudo.
Dessa vez… sua mãe ficou em silêncio.
Abalada.
— Você pode dormir aqui hoje… — disse, mais suave — vamos ver o que fazer.
Rafaela apenas assentiu.
Depois de um banho quente… ela finalmente se deitou.
E dormiu.
Na manhã seguinte…
TOC TOC
— Rafa… 7 horas… colégio.
Ela abriu os olhos devagar.
Ainda cansada… mas sem escolha.
O dia passou arrastado.
E, ao voltar…
Rafaela ouviu.
— Isso não pode continuar… — dizia a mãe de Régis — ela não pode ficar aqui escondida… temos que avisar a mãe dela.
Cada palavra foi como um golpe.
Rafaela voltou para o quarto, em silêncio.
Régis entrou logo depois.
— Eu tenho uma prova… volto rápido, tá?
Ela apenas concordou.
Sozinha… ela desceu.
Na cozinha, encontrou Raimunda.
— Você é a Rafaela, né? — disse a mulher, com um sorriso acolhedor.
— Sou…
— Fiquei sabendo de tudo… — disse, mais baixa — você não tá errada, não.
Rafaela sentiu os olhos marejarem.
— Não volta pra aquela casa.
Raimunda pegou um dinheiro e colocou na mão dela.
— Pra te ajudar.
— Eu não posso aceitar…
— Pode sim.
Rafaela segurou o dinheiro, emocionada.
Mais tarde, de volta ao quarto, ela observava fotos da família de Régis.
Momentos felizes.
Coisas que ela nunca teve.
A porta se abriu.
Régis voltou.
— A prova foi rápida…
Ele se aproximou… começou a beijá-la.
Dessa vez, mais intenso.
As mãos dele voltaram a deslizar pelo corpo dela.
— Régis… não…
— Eu sou homem, Rafa… eu preciso…
Ela se afastou, magoada.
— Então é isso? Você só quer ficar comigo se eu fizer isso?
Silêncio.
Ela caminhou até a porta.
E então viu.
— Sua mãe… — disse, assustada — ela tá vindo com a minha mãe…
Régis se levantou rápido.
— Fica aqui… eu resolvo.
Mas Rafaela já tinha decidido.
Pegou a bolsa.
O dinheiro.
E saiu pela porta dos fundos.
Ela correu.
Sem olhar para trás.
Sem pensar.
Só fugir.
A rodoviária estava quase vazia.
O coração ainda acelerado.
Os olhos marejados.
Ela se aproximou do guichê.
— Uma passagem… — disse, com a voz baixa — pro Rio de Janeiro.
Pagou.
O ônibus sairia em 20 minutos.
Sentou-se.
Abraçando a bolsa.
Sozinha.
Com medo.
Mas decidida.
Quando chamaram o embarque…
Rafaela se levantou.
Respirou fundo.
E entrou no ônibus.
Sem saber…
Que aquela viagem mudaria tudo.
E que, no destino…
Alguém perigoso estava prestes a cruzar o caminho dela.