Régis ainda parecia incomodado, mas tentou disfarçar.
Ele se aproximou de Rafaela novamente, segurando seu rosto com carinho, como se quisesse apagar o clima pesado de antes. Seus lábios encontraram os dela em um beijo mais intenso dessa vez.
Rafaela correspondeu por alguns segundos…
Mas então sentiu as mãos dele deslizando pelo seu corpo.
— Régis… — ela disse, se afastando — para…
Ele respirou fundo, frustrado.
— Rafaela… a gente namora… qual o problema?
Ela abaixou o olhar, um pouco sem jeito, mas firme.
— Eu já te falei… eu não tô preparada.
— Mas até quando isso? — ele respondeu, agora claramente irritado — você quer ficar virgem até quando?
Rafaela levantou os olhos, séria.
— Até o casamento.
O silêncio pesou entre os dois.
Régis soltou um leve riso, meio incrédulo.
— Então a gente casa.
Ela ficou surpresa com a resposta, mas percebeu que não havia maturidade naquilo, era impulso.
— Não é assim, Régis… — disse com calma — casamento não é só pra isso.
Ele passou a mão no cabelo, frustrado, mas tentou amenizar.
— Tá… tá bom… desculpa.
O clima já não era mais o mesmo.
Depois de alguns minutos em silêncio, ele se aproximou da janela.
— Eu vou indo… — disse — amanhã você vai lá em casa, né? Minha mãe quer te conhecer… a gente almoça junto e depois vai pro colégio.
Rafaela assentiu, ainda pensativa.
— Eu vou sim.
Ele deu um último olhar para ela antes de sair.
— Boa noite, Rafa.
— Boa noite…
Na manhã seguinte, Rafaela acordou cedo.
Saiu do quarto em silêncio… e ao passar pelo corredor, percebeu a porta do quarto da mãe entreaberta. Lá dentro, sua mãe ainda dormia, ao lado do padrasto.
Ela desviou o olhar rapidamente.
Na cozinha, preparou um café simples e deixou sobre a mesa. Era automático… como se ela fosse a responsável por tudo naquela casa.
Sem fazer barulho, pegou sua bolsa e saiu.
No colégio, tentou se concentrar nas aulas, mas sua mente estava longe.
O que tinha acontecido na noite anterior… o jeito que seu padrasto a olhou… tudo isso não saía da sua cabeça.
Quando as aulas terminaram, ela respirou fundo.
Era hora de ir para a casa de Régis.
A casa dele era muito diferente da sua.
Mais arrumada. Mais confortável. Mais… acolhedora.
Mas isso não durou muito.
— Então você é a Rafaela? — disse a mãe dele, com um sorriso que parecia educado… mas frio.
— Sou sim, senhora — respondeu Rafaela, educada.
Durante o almoço, vieram as perguntas.
— E seus pais?
— Moro com a minha mãe e meu padrasto…
— Entendi… — respondeu a mulher, trocando um olhar discreto com o filho.
Rafaela sentiu um leve desconforto, mas tentou ignorar.
— Com licença… posso ir ao banheiro? — perguntou.
— Claro.
Ao sair do banheiro…
Rafaela ouviu.
A voz da mãe de Régis, mais baixa… mas carregada de julgamento.
— Filho… você merece coisa melhor. Essa menina… olha a situação dela… família desestruturada, pobre…
Cada palavra foi como um golpe.
Rafaela congelou.
— Mãe, para com isso… — Régis respondeu, incomodado.
Mas já era tarde.
Os olhos de Rafaela se encheram de lágrimas.
Sem fazer barulho, pegou sua bolsa… e saiu.
Ela andava rápido, tentando conter o choro, mas não conseguiu.
As lágrimas começaram a cair.
Tudo parecia desmoronar ao mesmo tempo.
Régis foi atrás dela… mas não a encontrou.
Desesperado, decidiu ir até a casa dela.
E lá… encontrou Rafaela chegando.
— Rafa! — ele chamou.
Ela parou, sem olhar pra ele.
— Me desculpa… — ele disse — eu não concordo com nada do que ela falou…
Rafaela respirou fundo.
— Eu só… quero ficar um pouco sozinha.
A voz dela estava fraca.
Ele assentiu, sem saber o que dizer.
Dentro de casa, sua mãe já estava acordada.
— Fiz almoço — disse, com a voz arrastada.
— Não quero… — respondeu Rafaela, indo direto para o quarto.
Assim que fechou a porta…
Desabou.
Chorou como não chorava há muito tempo.
Pela humilhação. Pela dor. Pela vida que parecia não dar trégua.
Sem perceber… acabou pegando no sono.
Era madrugada quando ela acordou.
Algo estava errado.
Uma sensação estranha.
Alguém estava ali.
Ela sentiu.
Uma mão.
Subindo lentamente pela sua barriga… levantando sua blusa.
O coração disparou.
Seus olhos se abriram rapidamente.
Era ele.
Seu padrasto.
O pânico tomou conta.
Ele tapou a boca dela.
Mas Rafaela reagiu.
Com força, deu um chute nele e conseguiu se soltar.
Correu.
Desesperada.
— MÃE! — gritou.
Sua mãe acordou assustada.
— Ele… ele tentou… — Rafaela mal conseguia falar.
— Para com isso! — a mãe respondeu, irritada — você tá inventando coisa!
— Eu não tô mentindo!
— Ela que implica comigo — disse o padrasto, fingindo indignação — garota problemática!
Rafaela ficou em choque.
Sozinha.
Sem apoio.
Sem ninguém.
As lágrimas voltaram com força.
Sem dizer mais nada, voltou para o quarto, pegou sua bolsa, o pouco dinheiro que tinha guardado…
E saiu.
A praça estava vazia.
Escura.
Silenciosa.
Rafaela sentou em um banco, abraçando a si mesma.
Com medo.
Perdida.
Sem saber o que fazer.
Depois de um tempo, viu alguém passando.
Era a mãe de Régis.
— Rafaela? O que você tá fazendo aqui essa hora?
Rafaela engoliu seco.
— Tô esperando uma amiga…
A mulher a olhou desconfiada… mas acabou indo embora.
E Rafaela ficou.
Sozinha novamente.
O medo aumentava a cada minuto.
Então, olhando ao redor… tomou uma decisão.
Subiu em uma árvore próxima.
Se escondeu entre os galhos.
Ali… ninguém veria ela.
Ou pelo menos… era o que ela esperava.
Mas naquela noite…
O destino ainda não tinha terminado de agir.