Samara enviou vários áudios depois de receber a fatura.
Se ele tivesse clicado, teria ouvido Samara falando do incêndio.
Mas ele não clicou.
Para qualquer coisa ligada a mim, Jorge nunca teve paciência.
Meia hora se passou sem resposta minha.
Ele perdeu a paciência e ligou direto para o asilo.
— Aqui é o Jorge. Suspenda imediatamente todas as despesas da mãe da Franciely e mande ela embora.
Do outro lado, a enfermeira hesitou, folheando os registros.
— O senhor está falando da mãe da Franciely?
— Sim.
— A mãe da Franciely faleceu há um mês, num acidente de carro.
Jorge arregalou os olhos, mas logo descartou a informação.
— Foi a Franciely que ensinou você a dizer isso, né? Atropelada dentro do asilo? Se vai mentir, inventa algo melhor. Expulsa ela logo.
Ele desligou.
A enfermeira ainda murmurou, confusa:
— Ela foi participar do casamento da filha e acabou atropelada na porta do quartel dos bombeiros…
Mas Jorge já não ouviu.
Ele estava ocupado organizando o casamento com Patrícia.
Tinha prometido ao pai dela que faria dela a mulher mais feliz do mundo.
E o pedido de aniversário dela era casar com ele.
Jorge acariciava o rosto dela, cheio de ternura.
— Patrícia, mesmo que a gente não possa registrar no cartório, eu vou te dar o casamento mais romântico.
Patrícia cravou as unhas na palma da mão.
— E… se a Franciely aceitar o divórcio?
— Ela não vai.
Jorge respondeu sem pensar.
— E eu também não. Falei em divórcio só pra fazer ela aparecer e te dar a pele. Eu tô com ela há oito anos. Ainda tenho sentimentos. Ela cuidou dessa casa por muito tempo. Se não tem mérito, tem esforço.
Eu fiquei em choque.
Sentimentos?
Que sentimentos eram esses?
O hábito de me ter sempre disponível?
Ou a certeza de que eu nunca iria embora, não importava como ele me tratasse?
Os sentimentos dele custavam caro demais.
Custavam a vida.
Eu não podia pagar.
Patrícia mordeu os lábios, tentando esconder o ciúme que a consumia, e assentiu.
Jorge percebeu a expressão dela e ia consolá-la quando recebeu uma notificação do tribunal.
[Como o senhor é o primeiro requerente do Divórcio com Liquidação AA, o julgamento será público. O senhor concorda?]
Jorge nem pensou.
Confirmou na hora.
Na cabeça dele, eu com certeza devia muito mais a ele.
Flutuando ali, eu senti um gosto amargo.
Quis impedir.
Mas não podia.
Nem morta eu teria paz.
Eu seria exposta, chamada de parasita, diante de todo mundo.
Porque, de fato, nesses anos, eu não tive renda.
Só vivi em função da casa.
Minutos depois, vi Samara mandar outra mensagem para ele.
Uma lista.
Lavar roupa, cozinhar, cuidar de idosos.
Tudo convertido em valor monetário.
Eu não entendia como aquilo era possível.
Tentei me aproximar para ver melhor.
Mas, nesse momento, Patrícia puxou Jorge pelo colarinho e o beijou.
Ele tentou se afastar.
Ela o segurou mais forte.
— Jorge… só dessa vez. Eu só quero ter você uma vez.
O rosto dele mostrou conflito.
Mas, no fim, ele cedeu.
Virou o rosto.
E se deixou levar.
A cama do hospital começou a ranger.
Eu fiquei olhando aquela cena, imóvel.
Lágrimas escorreram do meu rosto, mesmo eu já não sendo viva.
Então era assim.
Era assim que ele tratava oito anos de sentimentos.