Mundo de ficçãoIniciar sessãoO pior dia de sua vida? Maya Nogueira está desesperada. Com a mãe gravemente doente e dependendo da caridade para pagar o tratamento. Ela aceitava qualquer trabalho, por isso estava no local ao qual descobriu que seu namorado estava lhe traindo. Depois de uma noite caótica, ela entra por engano no quarto de um homem misterioso. O encontro inesperado acaba se tornando inesquecível, mas, na manhã seguinte, ela acredita que nunca mais voltará a vê-lo. Até descobrir que o desconhecido é Arthur Strauss: o cirurgião mais respeitado do país, dono de um ego insuportável... e o médico que é um dos donos do hospital onde a sua mãe faz o tratamento gratuitamente. Agora, entre provocações, orgulho, um contrato inesperado e uma atração impossível de ignorar, Maya e Arthur precisarão decidir se conseguem separar o profissional do pessoal ou se o maior erro de suas vidas será justamente aquele que aconteceu por acaso.
Ler maisMaya Nogueira
- Que desgraçado! - Grito quando um carro praticamente j**a água suja em cima de mim após passar por uma poça. - Droga, droga... Droga! Hoje definitivamente o dia tinha começado de forma ruim. Minha mãe passou mal, o remédio dela acabou, o gás foi cortado, meu namorado estava fora da cidade a trabalho, e agora ganho um banho de lama. - Que maravilha! - Gritei frustrada. Não tenho nem tempo de xingar a quarta geração desse motorista infeliz. Precisava trabalhar, não tinha opção de dar meia volta, e ir para casa. Eu não tinha essa opção. Então engoli toda raiva que sentia Quando as luzes do Hotel Royal cintilavam como diamantes frios contra o céu noturno de São Paulo, eu pensei que pelo menos teria uma noite de trabalho boa. Para qualquer outra pessoa, aquele brilho significava luxo e celebração. Para mim, significava apenas uma coisa: três caixas do remédio do tratamento de lúpus da minha mãe. Entrei correndo, estava atrasada. Eu ajeitei o colete do uniforme de staff, sentindo o tecido barato pinicar minha pele. Eu não deveria estar ali como convidada, mas como sombra. Minha melhor amiga, a Bia, tinha conseguido esse "bico" para mim como assessora de apoio na festa de lançamento de uma nova linha de joias. "É só sorrir, entregar catálogos e garantir que ninguém derrube champanhe nos expositores, Maya", ela disse. Eu precisava desesperadamente daquele dinheiro. Desde que a pequena estamparia onde eu trabalhava faliu, os boletos da farmácia começaram a se acumular na mesa da cozinha como uma sentença de morte silenciosa. Henrique, meu namorado há três anos, estava em uma "viagem de negócios" em Curitiba. Ele se ofereceu para ajudar, claro, mas meu orgulho e o desejo de não ser um fardo falavam mais alto. Eu queria ser a parceira perfeita, aquela que aguenta o tranco sozinha enquanto ele subia na carreira. — Maya, setor B. Agora! — O rádio no meu ouvido chiou. Respirei fundo, limpei o suor das mãos na calça preta e caminhei em direção ao bar do terraço. O cheiro de perfumes caros e charutos começou a me sufocar. Eu me sentia um peixe fora d’água, uma intrusa de classe média baixa em um aquário de tubarões banhados a ouro. E então, o mundo parou. O som da banda de jazz tornou-se um ruído indistinguível. No canto do bar, sob a luz âmbar que deveria ser romântica, um homem segurava a cintura de uma mulher vestida em seda vermelha. Ele ria, aquele riso que eu conhecia tão bem, aquele que ele guardava para as nossas manhãs de domingo. Não era Curitiba. Era o Hotel Royal. E não era trabalho. Henrique Eduardo. Meus pés se moveram antes que minha mente pudesse processar o comando de "fuga". Eu me aproximei, escondida atrás de uma pilastra de mármore, torcendo com cada fibra do meu ser para estar enganada. Por favor, que seja apenas alguém parecido. Por favor, que eu esteja louca. Mas então ele a beijou. Não foi um selinho de despedida, ou algo casto. Foi um beijo proprietário, intenso, as mãos dele descendo pelo corpo dela com uma intimidade que me fez sentir náuseas físicas. Ele nunca tinha feito aquilo comigo. O ar sumiu dos meus pulmões. O catálogo que eu segurava escorregou das minhas mãos, batendo no chão com um baque surdo. O barulho atraiu a atenção deles. Henrique Eduardo virou-se, mas não houve choque. Apenas um desdém gelado que me desarmou. Em seu rosto tinha estampado a surpresa, mas também o cansaço de esconder algo mais profundo. — Maya? — ele bufou, olhando para o meu uniforme de cima a baixo com um escárnio que eu nunca soube que ele era capaz de sentir. — Sério? Que patético. - Diz com a voz frio de emoção. Balancei a cabeça tentando sair do tampor da confusão e do terror. — Você disse que estava em Curitiba, Eduardo! — minha voz tremeu, não de medo, mas de uma dor crua. — Eu te mandei mensagens de boa noite. Eu te liguei! Porque dá mentira? Eu estava trabalhando aqui para... para garantir que não precisássemos de nada quando você voltasse! Para passar um tempo com você... - Na última parte, a minha voz saiu quebrada. A mulher de vermelho deu um passo à frente, soltando uma risadinha nasalada que soou como vidro quebrado. Ela me olhou como se eu fosse um inseto no sapato dela. — "Precisar de algo"? — ela repetiu, sarcástica. — Henrique, querido, onde você conhece essa estagiária desesperada? Ela cheira a desinfetante e má sorte. - Aquelas palavras doeram. - Está atrapalhando, querida. — Ela é uma conhecida, Carol — Henrique Eduardo disse, sem sequer olhar nos meus olhos. Ele tomou um gole do uísque, sua postura relaxada, destruindo três anos da minha vida com uma frase. - Conhecida? Eu sou a sua namorada, Henrique! - Falei mais alto que deveria. - Ou era... A mulher me olhou como se as peças se encaixassem. Henrique Eduardo suspirou. Parecia que finalmente iria me dar a verdade nua e crua. Aquela que eu definitivamente não estava preparada para ouvir. — Maya, você é uma âncora que eu preciso me livrar. - Dei um passo pra trás sentindo o golpe. - Eu trabalho duro para subir na vida, para frequentar lugares como este, e você... você vive presa nessa sua rotina de enfermeira amadora, catando bicos por aí... e não me dando o que eu preciso como homem. - Era isso... - Está dizendo que por eu não ter me entregado como você desejava, isso lhe dá o direito a de trair? - Exato! Se você não quer fazer o básico, tem quem queira, Maya. - Ele aponta para a "Carol" ao seu lado. - Eu menti, aliás, eu vivo mentindo para você porque sinto pena, sabe? Eu ainda pensava que valia a pena investir nessa relação de namorados de porta de casa porque você era bonita, mas na boa? Não dá mais pra mim. Diz como se tudo que falou justificasse suas ações. - Henrique... - Estava furiosa agora. - Sabe qual é o problema? Você acha que esse seu "amor" compensa as privações que você me faz passar. Eu sou homem! Olha para essa mulher linda ao meu lado. - Ele gira Carol como um troféu. - Olha pra você... - A sua cara era o que mais me destruiu. - Estamos em locais diferentes nessa relação, Maya. Estou cansado de te esperar. Aquilo doeu mais que a humilhação de mais cedo. — Eu me dediquei a você! — gritei, sentindo as lágrimas queimarem meu rosto, mas me recusando a recuar. — Eu paguei metade daquela viagem que você fez com seus amigos, eu deixei de comprar roupas para mim para comprar aquele relógio que você usa agora! Eu fiz de tudo para a gente crescer junto! Éramos um casal. — Exato, você fez "tudo" — Henrique Eduardo deu um passo na minha direção, diminuindo o espaço até que eu pudesse sentir o cheiro do perfume caro que "eu" o ajudei a escolher. — Você fez tudo para ser a namorada santa, a mártir. Acreditava firmemente que eu queria só isso. A pura que queria casar com o amor da sua vida. Mas a verdade, Maya, é que ninguém quer uma namorada que seja um fardo. Você é um drama constante. Tudo seu tem que ter uma explicação performática. Eu prefiro alguém que saiba viver, que saiba usar um vestido como este, em vez de se esconder atrás de uniformes de copeira. Que seja mais relaxada... que queria transar! Carol se aproximou e, com uma lentidão calculada, passou a mão pelo peito de Henrique, olhando para mim com uma superioridade cruel. — Você deveria agradecer a ele, querida — ela sussurrou, a voz destilando veneno. — Três anos é muito tempo de caridade. Ele só estava esperando você se tocar, mas como você é tão lenta... ele precisou de uma ajuda minha. Henrique Eduardo riu, um som seco, desprovido de qualquer calor. — Vá para casa, Maya. Cuide da sua mãe. É a única coisa que você sabe fazer bem, afinal. Não me procure mais. Eu cansei de brincar de namoro perfeito. Ele se virou para Carol, oferecendo um brinde, e os dois se afastaram, deixando ali, no meio do salão luxuoso, com o som das risadas deles ecoando como trovões na minha cabeça. Eu não era apenas uma namorada traída. Eu era alguém que tinha sido descartada como um objeto velho, depois de ter dado tudo o que tinha. A dor não era apenas a traição; era a revelação de que o homem que eu amava sempre me olhou com desprezo, enquanto eu o colocava em um altar. Corri. Corri até os meus pulmões arderem, até encontrar aquele estoque de bebidas, onde o único som que restava era o meu soluço descontrolado e a promessa silenciosa de que, se o amor era aquilo, eu não queria. Eu não voltei para o meu posto. Eu não conseguia. Estava escuro, silencioso e cheirava a álcool barato e caixas de papelão. Ali, sentada no chão frio, eu desabei. — Idiota... eu sou uma idiota... — As palavras saíam entre soluços violentos que faziam meu peito arder. Minha visão estava embaçada, meu nariz escorrendo, e o peso de tudo. Meus dedos tatearam uma caixa aberta ao meu lado. Uma garrafa de vodca. Outra de gim. Eu não era de beber, mas naquele momento, a sobriedade era minha maior inimiga. Abri a primeira que vi. O líquido desceu queimando, arrancando um tossido seco, mas eu não parei. — Saúde ao "homem perfeito" — balbuciei, dando outro gole longo. — Saúde por ser um "peso"... saúde por ser uma "namorada perfeita". O álcool começou a nublar as bordas da minha dor. Em vinte minutos, a garrafa estava pela metade e o mundo ao meu redor parecia estar em um carrossel quebrado. Eu chorava por Henrique, mas chorava mais por mim. Por ter acreditado que o amor era um porto seguro, quando na verdade era apenas uma âncora me puxando para o fundo. Eu queria casar com ele... me entregar! — Ele não presta... — eu resmungava para as garrafas de vinho empilhadas, minha voz já arrastada. — Ele não... (soluço) ...ele não vale o brilho do sapato dele. Por que dói tanto, hein? Por que eu sinto que meu coração foi passado num triturador de carne? — Eu só queria... uma noite... — comecei a rir, uma risada histérica misturada com lágrimas. — Uma noite sem ser a Maya "caridade". Uma noite sem boletos. Sem lúpus. Sem traição. - Parei para sentir que o álcool abafou a dor que vinha do meu peito. - Pra que esperar não é mesmo? Me guardei e levei um pé na bunda justamente por causa disso... Minha cabeça girou. O estoque parecia estar ficando menor. Eu precisava de uma cama. Precisava fechar os olhos e fingir que nada disso tinha acontecido. Bia tinha me dito que tinha reservado um quarto para o staff descansar depois do turno, ou talvez ela tivesse reservado para mim caso eu passasse mal... eu não lembrava mais. Com esforço hercúleo, me levantei, cambaleando e derrubando algumas garrafas vazias pelo caminho. O corredor do hotel parecia um labirinto infinito de carpetes luxuosos. Nem sei como eu vim parar aqui... 402... 403... — É esse... — murmurei, vendo os números dançarem diante dos meus olhos. — Quarto... 404. Não, era 402? Tanto faz... a chave... cadê a chave? Minha mão trêmula segurou o cartão magnético que Bia tinha me dado. Eu o encostei na fechadura do quarto 404. A luz verde brilhou. Girei a maçaneta com toda a confiança de quem tinha certeza de estar entrando no próprio quarto. Eu não conseguia ver nada direito, o álcool realmente fez o seu trabalho. Quando dei por mim, tinha tropeçado em meus próprios pés, ou no carpe. Quem sabe... Meu corpo bateu contra um peito firme e quente. Por um reflexo desesperado, minhas mãos procuraram apoio. No escuro, toquei algo que me fez congelar. Arregalei os olhos. Afastei a mão como se tivesse levado um choque. A questão é que eu não cai, longe disso. Eu praticamente tinha sido aparada por músculos fortes e definidos. E um cheiro que me deixou em alerta. Quando eu entendi onde eu estava, somente tive uma reação. — Seu... seu pervertido!Arthur Strauss - Estão apavorados com a possibilidade de ver o patrimônio das famílias de vocês desmoronar porque os fundos de investimento estão pulando fora? Pois saibam que eu tenho muito mais a perder do que qualquer um dos senhores. Este hospital carrega o meu sobrenome, o nome da minha mãe, e as cicatrizes de tudo o que o meu pai destruiu. Eu não voltei para cá para assistir ao fim de um legado. Eu voltei para destruir e reconstruir do jeito certo.— Palavras bonitas, Arthur, mas discursos motivacionais não pagam folha de pagamento de quinhentos médicos nem compõem margem de Ebitda negativa! — retrucou Roberto, visivelmente irritado, cruzando os braços com um desdém mal disfarçado. — A diretoria financeira está com os dias contados se não injetarmos dez milhões de dólares até o final do mês. Onde você pretende arrancar esse dinheiro? Dos fundos de caridade?Um sorriso frio, cortante e absolutamente desprovido de humor repuxou o canto dos meus lábios. Eu esperava exatamente essa
Arthur Strauss A reunião com os diretores executivos havia sido apenas um aquecimento, um ensaio geral para o verdadeiro teste de fogo que me aguardava no auditório principal da fundação. Uma coisa era lidar com burocratas e diretores fantoches que, no fundo, sabiam que tinham rabo preso com as falcatruas de Silas. Outra coisa completamente diferente era encarar os sócios majoritários.Aqueles homens não eram meros executivos contratados. Eram os dinossauros da velha guarda, investidores históricos que tinham participado da fundação do complexo hospitalar, amigos de longa data do meu pai que me viram crescer pelos corredores engomados da instituição, sentado nos sofás de couro da presidência enquanto esperava meu pai terminar alguma cirurgia interminável. Eles me conheciam desde os tempos em que eu raspava os joelhos no pátio e sonhava em usar um jaleco branco.E agora, ali estavam eles, sentados ao redor da mesa oval do conselho principal, ostentando expressões que variavam entre o
Maya Nogueira — Mário — Arthur começou, a voz saindo baixa, perfeitamente articulada, carregada de uma autoridade gélida que fez a temperatura da sala cair dez graus. — Guarde a sua falsa preocupação com a minha saúde para os seus relatórios trimestrais de auditoria, porque deles eu sei que você entende muito pouco, mas de cinismo você parece ser um especialista.Mário empalideceu levemente.— Doutor Strauss, eu apenas quis dizer que...— Eu sei exatamente o que você quis dizer — Arthur o cortou, sem lhe dar a menor chance de recuperação, caminhando com passo firme até a ponta da mesa de reuniões, a imensa mesa de carvalho onde Silas costumava reinar. Ele puxou a cadeira principal, apoiou a mão direita sobre o espaldar e permaneceu em pé, erguido, imponente. — Vocês passaram os últimos meses aproveitando o vácuo de poder para desviar verbas, renegociar contratos com margens duvidosas e transformar este hospital em um balcão de negócios para salvar a pele de vocês mesmos. E agora est
Maya Nogueira O despertador tocou antes mesmo de o sol conseguir pintar o topo dos prédios vizinhos de cinza e laranja. Eu já estava desperta, com os olhos fixos no teto do quarto, ouvindo o ritmo pausado da respiração de Arthur ao meu lado. Ele estava acordado também; eu conseguia sentir na rigidez do corpo dele, na forma como o braço esquerdo repousava imóvel sobre o colchão, e na tensão quase palpável que parecia emanar da sua pele.Hoje era o dia da reunião. O grande marco zero. O momento em que o ex-cirurgião brilhante, o homem que havia passado meses lutando contra os próprios fantasmas e contra a paralisia que quase o destruiu, cruzaria as portas da sala de diretoria da fundação e do hospital não para operar, mas para assumir o comando de todo o império.Arthur estava quieto demais. Um silêncio denso, pesado, daquele tipo que antecede tempestades. Eu sabia que era extremamente difícil para ele. Cada segundo daquela manhã exigia dele uma coragem descomunal, porque voltar àquele





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