Mundo ficciónIniciar sesiónArthur Strauss
Senti o maxilar travar. O nome da minha mãe, Vera Strauss, pairou no ar, um fantasma que eu nunca consegui exorcizar. Ela era a alma daquele hospital. A ala gratuita não era caridade para ela; era um dever moral. E meu pai, o homem que ela amou com uma devoção que eu nunca entendi, agora planejava cuspir na memória dela em nome de um balanço financeiro mais gordo. — Meu pai não vai fechar — respondi, com uma convicção que eu tentava sustentar como um edifício prestes a ruir. — Ele pode ser um bastardo implacável nos negócios, mas ele amava a minha mãe. Ele não teria a coragem de destruir o último legado que ela deixou, a única coisa que realmente importava para ela dentro destas paredes. É apenas uma tática, Elano. Ele quer me pressionar. Quer me ver suplicando, quer me ver aceitar o cargo de CEO para que eu "salve" o hospital. É um jogo de xadrez, e ele é previsível. Elano soltou uma risada curta, um som que me irritou profundamente. Ele parou e me olhou, com os olhos cansados refletindo a iluminação fluorescente. — Arthur, com todo o respeito... acho que você está lendo o jogo errado. Seu pai não está jogando xadrez. Ele está simplesmente queimando o tabuleiro para ver se você finalmente se ajoelha. Ele não quer te pressionar a negociar. Ele quer te tirar da sala de cirurgia. Ele quer que você pare de ser o "deus" e comece a ser o "Dono". E ele sabe que, enquanto houver uma faca na sua mão, você nunca vai se sentar naquela cadeira na diretoria. — Ele não conseguiria — retruquei, o desdém na minha voz funcionando como um escudo. — O hospital não sobrevive sem mim. Toda vez que um caso de alta complexidade surge, toda vez que uma vida pende por um fio, quem eles chamam? Eles não chamam o CEO. Eles não chamam o conselho administrativo. Eles chamam o Arthur. Eles pedem pelas minhas mãos. A minha capacidade não é uma escolha, Elano. É um ativo de valor inestimável. Meu pai sabe disso. O hospital sabe disso. Ele pode ameaçar o que quiser, mas ele nunca, em sã consciência, vai me afastar do que eu faço de melhor. — Você está confiante demais, Strauss — Elano balançou a cabeça, voltando a caminhar. — O orgulho é o primeiro estágio da queda. Eu não respondi. O desdém era a única resposta possível. A confiança era o que me mantinha de pé. Eu era Arthur Strauss. Eu tinha salvado mais vidas naquela semana do que muitos médicos salvam em uma carreira inteira. Como poderiam simplesmente me substituir por uma planilha de Excel? Entramos no elevador e o espelho refletiu minha imagem: o jaleco, o estetoscópio pendurado, a aura de um homem que domina a própria realidade. Eu sabia exatamente, cada próxima jogada daquele tabuleiro. Mas, no fundo dos meus olhos, a imagem de Maya Nogueira insistia em aparecer. (...) A porta de mogno abriu com aquela hesitação típica de quem ainda não conhece a pressão do meu escritório. Eu estava com a cabeça enfiada em prontuário a medicos, esperando a nova secretária que o RH tinha selecionado a toque de caixa. Quando ouvi a voz de Helena, a recepcionista, falhar, levantei o olhar. E então, o mundo pareceu travar em um único ponto. Ela. O ar na sala mudou de temperatura instantaneamente. Ela estava ali, parada, com uma pasta entre as mãos como se fosse um escudo, os olhos fixos na mesa. Mas quando ela finalmente encontrou os meus, vi o choque atravessar seu rosto. Foi um prazer visceral observar a cor fugir de suas bochechas. — Pode deixar, Helena — ordenei, sem desviar os olhos dela. A porta se fechou, selando-nos naquele espaço. O silêncio que se seguiu era um banquete. Eu estava saboreando cada batida acelerada que via no pescoço dela. Deixei a caneta cair, o barulho ecoando como um tiro, e me levantei, lento, consciente de cada movimento. — Não imaginava que nos encontraríamos novamente tão rápido — disse eu, contornando a mesa enquanto estudava a reação dela. Cada centímetro de sua postura denunciava o quanto aquela memória ainda a perturbava. — Você se candidatou a essa vaga porque é tão obcecada por mim? Ela travou o maxilar. Aquela teimosia de novo. Adorável. — Eu não sabia que o cargo era ser sua secretária— ela retrucou. A voz tremeu, mas ela teve a audácia de não recuar. — E eu não estou aqui por obsessão. Preciso desse emprego. Minha mãe está internada e a ala gratuita do hospital é a única opção que tenho no momento. O plano de saúde desta empresa é a única coisa que almejo. O hospital. A vulnerabilidade dela, exposta com tanta franqueza, deveria me fazer sentir algo como indiferença, ou talvez desprezo pelo desespero alheio. Mas não. Aquilo me atingiu como um choque elétrico. Fascinante! Nada me deixa atento fora de um centro cirúrgico. Ela não estava ali por luxo; ela estava presa a mim por necessidade. E saber que ela dependia de um traço de caneta meu para manter a mãe viva? Isso mudou o jogo completamente. — O hospital — murmurei, deixando o peso daquela informação pairar. — Você se coloca em situações interessantes, não acha? — Eu me coloco em situações onde preciso sobreviver — ela respondeu, firme. Olho no olho. Eu não pude evitar. Invadi seu espaço, sentindo o perfume dela — a mesma fragrância daquela noite — inundar meus sentidos. Eu deveria demiti-la ali mesmo. Manter uma ex-aventura como secretária era um erro de principiante, um conflito de interesses que eu jamais permitiria. Mas, por Deus, a ideia de tê-la sob meu comando, vendo-a se contorcer para manter a postura profissional enquanto eu sou a única coisa entre ela e o caos? Era viciante. Levantei a mão, roçando meu polegar pelo queixo dela. Ela estremeceu. O toque dela era macio, mas a tensão que emanava de sua pele era o que eu queria. — Sabe, como regra geral, eu não misturo trabalho com prazer — comecei, deixando a voz cair para um sussurro que eu sabia que ela sentiria na espinha. — Mas acho que posso abrir uma exceção para você. Afinal, você já me provou ser uma funcionária bastante... dedicada. - Dei meu melhor sorriso sacana. - Ainda lembra do que eu disse antes? Então... quando marcamos a segunda?






