Capítulo 3

Maya Nogueira

A luz do sol não teve misericórdia. Ela atravessou as frestas das cortinas de veludo pesado com a precisão de um laser, atingindo diretamente minhas pálpebras e fazendo meu cérebro latejar contra o crânio. O primeiro pensamento foi a ressaca — uma massa densa e pegajosa de dor que parecia ter preenchido todos os espaços da minha cabeça. O segundo pensamento foi o cheiro.

Não cheirava ao amaciante barato que eu usava em casa, nem ao mofo discreto do meu quarto de solteira. Cheirava a sândalo, couro e um perfume masculino tão caro que parecia ter sido destilado em ouro.

Abri os olhos devagar, e o teto alto, com molduras de gesso impecáveis, confirmou o pesadelo: eu não estava em casa.

Tentei me mexer, e foi aí que o choque real veio. Uma pontada aguda e ardente disparou da minha região íntima, subindo pela minha espinha e me fazendo prender o fôlego. Doía. Não era uma dor comum, era um desconforto profundo, uma sensação de latejamento que eu nunca tinha sentido antes. Meu corpo parecia estranho, invadido, marcado.

Virei a cabeça milimetricamente para o lado.

Um homem.

Ele estava dormindo de bruços, o rosto enterrado no travesseiro de fios egípcios, as costas largas e musculosas expostas acima do lençol que cobria apenas metade do seu corpo. A visão me paralisou. A pele dele tinha um tom bronzeado saudável, e os músculos dos ombros eram definidos como os de uma estátua. Meus olhos desceram involuntariamente pela linha da coluna dele até onde o lençol começava, revelando apenas o início da curva de uma náusea firme e... meu Deus, o que eu tinha feito?

As memórias da noite anterior voltaram em flashes violentos e desconexos, como um filme de terror editado por um louco. O bar. Henrique. Aquela mulher de vermelho. As palavras dele — "Você é um peso". A humilhação. A vodca... muita vodca. O corredor. A porta que se abriu. Eu que entrei sem pensar me mais nada.

Lembrei de vozes. Uma voz masculina, autoritária e rouca. Lembrei-me de mãos grandes, de uma urgência que eu mesma alimentei, de um desejo desesperado de sumir dentro de outra pessoa para não ter que sentir o buraco que o Henrique tinha deixado no meu peito.

— Meu Deus... — sussurrei, a voz mal saindo.

O pânico foi mais forte que a dor. Eu precisava sair dali. Agora.

Olhei para o relógio digital na mesa de cabeceira de carvalho: 07:15. O sangue fugiu do meu rosto. A consulta da minha mãe para o ajuste da medicação do lúpus era às 09:00, no outro lado da cidade. Se eu perdesse aquela vaga, levaria meses para conseguir outra pelo plano de saúde popular que mal conseguíamos pagar.

Ignorei o latejamento entre minhas pernas e me arrastei para fora da cama. Cada movimento era um sacrifício. Quando meus pés tocaram o carpete felpudo, uma nova onda de dor me fez morder o lábio inferior para não gritar. Eu me sentia... machucada. Literalmente. Como se um caminhão tivesse passado por cima de mim — um caminhão muito bem perfumado e forte.

Encontrei minhas roupas espalhadas pelo chão, a calcinha, destruída. O colete do uniforme de staff estava jogado perto de uma poltrona de couro; minha calça preta, do avesso perto da porta. Recuperei peça por peça com dedos trêmulos, vestindo com a pressa de quem foge de um incêndio. Eu nem sequer ousei olhar para o rosto do homem. Eu tinha medo de que, se visse quem ele era, o ato se tornasse real demais para suportar. Eu só vi o relance de um relógio de pulso caríssimo sobre a cômoda e o brilho de sapatos de grife perfeitamente alinhados.

Mancando, literalmente mancando, cheguei à porta. Girei a maçaneta com cuidado e escapei para o corredor, fechando a porta com um clique quase inaudível.

O corredor daquele andar estava silencioso, eu precisava sair dali o mais rápido possível.

Saí em disparada — ou o mais próximo disso que meu corpo permitia — em direção às escadas de serviço. Eu não podia esperar o elevador e correr o risco de encontrar alguém da gerência ou, pior, Henrique.

Consegui chegar à rua, o ar fresco da manhã batendo no meu rosto e servindo como um tapa de realidade. Corri para o ponto de ônibus, sentindo cada impacto dos meus sapatos contra o asfalto ecoar na minha pélvis. Era uma dor surda, persistente, que me lembrava a cada segundo da minha própria impulsividade.

Quando o ônibus finalmente chegou e eu me sentei em um banco de plástico duro, soltei um gemido baixo. O impacto do assento contra meu corpo foi quase insuportável. Apoiei a cabeça no vidro frio da janela e fechei os olhos, mas as imagens não paravam.

Por que eu, que sempre fui a "certinha", a dedicada, a virgem que esperava o momento certo com o namorado que amava, tinha me jogado nos braços de um estranho?

A voz dele... eu lembrava de uma voz profunda, fria mas de certa forma atraente, que me chamou de "princesa". Ele achou que eu era outra pessoa?

Ele esperava alguém, e ficou comigo mesmo sem saber se eu era a pessoa.

E eu, no meu delírio alcoólico, só queria que alguém — qualquer um — apagasse o rastro da traição de Henrique em mim.

E apagou. Henrique era uma lembrança distante agora, substituída por essa dor física real e pelo flash daquelas costas musculosas, gemidos intensos e promessas cumpridas. A autoridade que ele emanava, mesmo em silêncio, era palpável.

- Como você foi tão imprudente. — sussurrei para o reflexo no vidro, enquanto o ônibus sacolejava pelas ruas esburacadas, fazendo meu corpo latejar em uníssono.

Eu entrei em casa como um furacão em ruínas. A porta da frente rangeu, protestando contra a minha força bruta, mas eu não parei. O cheiro de café fresco e o aroma metálico dos remédios da minha mãe flutuavam no ar da nossa pequena sala, mas, pela primeira vez na vida, aquele ambiente que deveria ser meu porto seguro parecia sufocante.

— Maya? É você, querida? Por que chegou a essa hora?— A voz da minha mãe, fraca mas carregada de uma intuição maternal que eu temia, veio da cozinha.

— Sou eu, mãe! — Gritei, tentando manter a voz firme, embora ela tremesse como uma corda de violão prestes a arrebentar. — Não temos tempo! A senhora já tomou o remédio da manhã? Precisamos ir para o Santa Helena agora, ou vamos perder a senha!

— Mas Maya, olhe para você... — Ela apareceu na porta, segurando no batente, os olhos miúdos varrendo meu rosto inchado e meu cabelo que, apesar dos meus esforços no ônibus, ainda parecia um ninho de ratos. — Você está chorando? O que aconteceu na festa? O Henrique te ligou?

— O Henrique morreu para mim, mãe. Não mencione esse nome. — Minha voz saiu fria, cortante. — Vá se trocar. Agora. Por favor.

Eu não esperei resposta. Entrei no banheiro e bati a porta. Olhei no espelho e tive vontade de quebrar ele em mil pedaços. Eu estava manchada. Havia uma pequena marca avermelhada no meu pescoço que eu não tinha notado antes — um "chupão" que gritava a minha traição contra mim mesma. Lavei o rosto com água gelada, tentando desesperadamente esfregar a sensação de ter sido aberta e explorada. Mas a dor interna, aquela que parecia vir do fundo da minha alma (e do meu corpo), não saía com sabonete.

O trajeto até o Hospital Santa Helena foi um borrão de dor e ansiedade. Minha mãe tentou puxar assunto várias vezes, mas eu me escondi atrás de janelas fechadas e respostas monossilábicas.

Por um milagre que eu só podia atribuir à pena que o destino teve de mim, chegamos ao hospital cinco minutos antes da chamada para a reumatologia. Deixei minha mãe na sala de espera após o check-in e me sentei em um canto afastado.

Foi nesse momento, no silêncio relativo do corredor hospitalar, que a ficha caiu. O álcool tinha evaporado, restando apenas a realidade crua e assustadora.

Ele usou proteção?

O pânico subiu pela minha garganta como bile. Eu não podia ficar grávida. Eu não tinha emprego estável, minha mãe estava doente, e o pai seria um estranho arrogante de um quarto de hotel. Além disso... e as doenças? Eu fui tão estúpida, tão inconsequente!

- O que foi que eu fiz?

Eu precisava de ajuda. Ali, em Santa Helena, eu conhecia algumas pessoas. Fiz faculdade de secretariado e cheguei a estagiar na recepção de uma clínica parceira; a enfermeira-chefe da triagem, a Dona Cida, era uma antiga vizinha.

Mancando até o balcão da área gratuita, avistei a silhueta robusta de Cida.

— Dona Cida... — Minha voz sumiu.

— Maya? Menina, o que foi isso? Você está branca como um papel! — Ela deu a volta no balcão, segurando meus braços. — E esse andar? Você caiu? Se machucou?

A preocupação dela era palpável.

— Eu... eu tive um acidente doméstico, Cida. Preciso de um médico. Algum clínico que possa me examinar e, se possível, me encaminhar para a ginecologista de urgência. Eu estou com muita dor. Muita dor mesmo.

Nessa altura não podia mediar a urgência, eu tinha que evitar o pior.

— O plantão está lotado por causa de uma emergência cirúrgica que chegou agora pouco, mas tem um médico que acabou de chegar ao hospital para seu turno, e está cobrindo uns atendimentos rápidos aqui no bloco B para agilizar a fila. Ele é excelente, embora tenha um gênio de cão. Vem, vou te colocar na frente.

Ela me guiou por corredores brancos que pareciam intermináveis. Cada passo era uma agonia. Ela me deixou em frente a uma porta de metal escovado com o número 12.

— Espera aqui, Maya. Ele já vai te chamar. O nome dele é Dr. Arthur. Ele é um cara bem chato às vezes, mas ele é um excelente profissional.

- Obrigada Cida, te devo uma. - Ela piscou e saiu para resolver o resto dos seus outros mil problemas.

Sentei no banco de plástico, tremendo. O nome "Arthur" não me disse nada na hora. Eu só queria um remédio para a dor e uma pílula do dia seguinte que pudesse limpar a minha burrice.

E torcer pra não ter um grande problema daqui a alguns meses.

— Próxima. Maya Nogueira? — Uma voz ecoou de dentro da sala.

Uma voz... profunda. Fria. Autoritária.

Meu coração falhou uma batida. Eu conhecia aquele timbre. Aquele tom de quem está acostumado a dar ordens e ser obedecido. Não podia ser. São Paulo era uma cidade de doze milhões de habitantes. As chances seriam astronômicas.

Levantei, o corpo pesado, e empurrei a porta.

O consultório era impecável, cheirando a álcool isopropílico e eficiência. Atrás da mesa, um homem estava de costas, escrevendo algo em um prontuário eletrônico. O jaleco branco era perfeitamente passado, os ombros largos preenchendo o tecido com uma presença esmagadora.

— Sente-se, por favor. Onde dói? — Ele perguntou, sem se virar.

Eu não conseguia falar. Minha garganta estava seca. Sentei na borda da cadeira, com as mãos entre os joelhos, tentando controlar o tremor.

— Eu... eu estou com dores na região pélvica. E dificuldade para andar — murmurei, a cabeça baixa.

Ouvi o som da caneta sendo deixada sobre a mesa. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de uma eletricidade estática que arrepiou os pelos do meu braço. Ele se virou lentamente.

— Ora, ora... — Ele disse, recostando-se na cadeira e cruzando os braços musculosos sobre o peito. — Se não é a minha "fugitiva" da manhã.

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