Capítulo 5

Maya Nogueira

Saí daquele consultório como se estivesse caminhando sobre brasas. Cada passo era uma lembrança física da noite anterior; a dor entre minhas pernas era um lembrete constante da minha própria imprudência, mas a dor no peito, aquela que me consumia enquanto eu atravessava o corredor de azulejos claros, era o medo puro.

Eu tinha acabado de ser humilhada pelo homem que me levou ao êxtase horas antes. O Dr. Arthur Strauss não era apenas um médico arrogante; ele era o meu pesadelo encarnado. A forma como ele me olhou, como se eu fosse um prontuário interessante para sua diversão pessoal... eu queria vomitar. Mas eu não podia perder tempo com o meu ego ferido. Minha mãe era a minha prioridade. Minha mãe era a minha vida.

Mancando o mais rápido que conseguia, segui em direção à ala de reumatologia onde minha mãe estava. O hospital parecia um labirinto infinito de desespero. As paredes brancas, que deveriam transmitir paz, pareciam querer me esmagar.

Quando cheguei à porta do consultório que ela estava, parei por um segundo para respirar. O ar estava pesado, com cheiro de éter e medo. Minha mãe estava lá dentro, com o Dr. Mendes, o reumatologista que a acompanhava há anos. Ela é uma mulher forte, mesmo com as mãos deformadas pelo lúpus, mas ver o sorriso cansado dela quando ela me viu através da porta de vidro me quebrou por dentro.

Eu não entrei imediatamente. Fiquei observando. Vi o Dr. Mendes balançar a cabeça, uma expressão de pesar que eu conhecia bem. Meu estômago deu um nó. O que era aquilo? Uma mudança de medicação?

Respirei fundo, ajeitei a postura, escondi a dor física e emocional sob uma máscara de "filha forte" e entrei.

— Mãe? Algum problema? — perguntei, tentando manter a voz estável.

O Dr. Mendes levantou o olhar, tirando os óculos com uma calma que me desesperou. Minha mãe olhou para mim, com os olhos úmidos, mas ela tentou sorrir.

— Maya, querida... o Dr. Mendes estava me explicando sobre a nova política do hospital.

— Política? Que política? — Meu coração começou a martelar contra as costelas, um ritmo frenético e irregular.

O médico suspirou, um som que pareceu durar uma eternidade.

— Maya, você sabe que o Santa Helena tem passado por uma reestruturação severa. - Ele parou e pensou. - Não vou mentir para vocês, e não estou falando nada além de fofocas de corredores, mas... Bom, a uma guerra na diretoria atualmente para que um dos herdeiros do hospital faça a sua parte e seja o novo CEO. No processo, estamos perdendo tempo e recursos. Então, a diretoria decidiu cortar drasticamente os subsídios para a ala de atendimento gratuito, algo como uma tentativa de reter o dinheiro antes dos tempos difíceis. Para mim é um ato para obrigar um dos herdeiros a assumir. Infelizmente, a partir do próximo mês, o convênio social que cobria o tratamento da sua mãe será descontinuado para novos ciclos de infusão biológica.

O mundo parou. Eu senti como se o chão tivesse sido arrancado sob meus pés.

— O quê? — Minha voz saiu como um fio. — O que você está dizendo? Sem a infusão, o lúpus dela vai avançar! Ela precisa disso para não perder o movimento das mãos, para não ter complicações nos rins! O senhor sabe disso!

— Eu sei, Maya. Eu tentei argumentar. Mas as ordens vêm de cima. O novo protocolo de gestão prioriza o atendimento particular e de elite. A ala gratuita está sendo gradualmente fechada. Sua mãe não poderá mais ser tratada gratuitamente aqui.

Um zumbido ensurdecedor começou a crescer nos meus ouvidos. Dinheiro. Tudo era sempre sobre dinheiro. Henrique me chamava de "âncora" por causa disso, e agora, o hospital — o lugar que deveria salvar vidas — estava me dizendo que a vida da minha mãe tinha um preço que eu não podia pagar.

— Quanto custa? — perguntei, sabendo que a resposta destruiria qualquer esperança que me restava.

O valor que ele citou foi uma sentença de morte. Era impossível. O valor do tratamento mensal era mais do que eu ganhava em um ano fazendo bicos. Era inalcançável.

Saí daquela sala minutos depois, carregando minha mãe pelo braço, as palavras do médico ecoando como um martelo na minha cabeça: "Você precisa procurar uma alternativa, Maya. Sinto muito."

Estávamos no corredor agora. Eu precisava ser forte. Eu não podia chorar na frente dela.

— Vai ficar tudo bem, mãe — menti, enquanto ajudava a se sentar na sala de espera para aguardar o ônibus. — Eu vou conseguir o dinheiro. Eu vou dar um jeito.

— Maya, querida, não se sacrifique tanto. Talvez seja hora de aceitar... — ela disse, com a voz embargada.

— Não diga isso! — respondi, quase bruscamente, mas me arrependi no mesmo segundo. — Desculpe, mãe. Eu só... - Uma ideia se instalou na minha mente. - Eu preciso ir ao RH do hospital. Vou ver se há alguma vaga para assistente administrativa, recepcionista, qualquer coisa! Eles precisam de funcionários, não precisam? Mesmo com os cortes. Se eu trabalhar aqui, talvez eu consiga um desconto no tratamento!

Foi um pensamento desesperado. Um lampejo de sanidade em meio ao pânico.

Deixei minha mãe na recepção e corri. Eu não me importava com a dor na minha pélvis, eu não me importava com o Dr. Arthur Strauss, eu não me importava com o fato de eu estar desfeita por dentro. Eu só via o rosto da minha mãe perdendo o movimento das mãos.

Cheguei ao departamento de Recursos Humanos, ofegante. Uma fila de candidatos se estendia pelo corredor. Eles estavam procurando alguém. A crise no país era grande, e o Santa Helena, apesar de tudo, ainda era um dos maiores empregadores da cidade.

— Preciso de uma vaga. Qualquer uma — eu disse para a recepcionista, minha voz carregada de uma urgência que assustou a moça.

Ela me olhou com pena.

— Você tem currículo, moça? Estamos com as vagas de recepção preenchidas. Só temos uma vaga aberta, mas é de extrema confiança. É para ser secretária particular de um dos diretores médicos. O expediente é puxado, exige dedicação total e o chefe é conhecido por ser... bem, difícil.

Segunda vez que ouço essas palavras "bem, difícil".

Secretária particular de um diretor médico. O pânico me gelou a espinha.

Eu não podia me dar ao luxo de escolher. Se eu não conseguisse aquele salário, minha mãe morreria. O orgulho, o medo, a vergonha... tudo isso era luxo que eu não podia ter.

— Eu aceito — falei, sem hesitar. — Eu sou excelente com organização, com horários, com tudo. Eu preciso dessa vaga.

A recepcionista suspirou e me entregou uma ficha.

— Preencha aqui. A entrevista com a chefia é daqui a dez minutos. Boa sorte. Você vai precisar.

Mas já? Era agora ou nunca.

Sentei em uma cadeira plástica e comecei a preencher a ficha, minhas mãos tremendo tanto que a caneta mal formava as letras. Eu estava prestes a me vender. Não por prazer, como na noite passada, mas por algo muito mais profundo. Eu estava me vendendo para o sistema, para um hospital que tinha acabado de me dar um golpe seco no estômago, e possivelmente para o homem que me causou a maior humilhação da minha vida.

Enquanto eu preenchia o campo de "Experiência Profissional", uma lágrima solitária caiu no papel, borrando a tinta. Eu me lembrei do que Henrique disse: "Você é um fardo". Por um momento, senti vontade de desistir. De me jogar em um canto e esperar o fim.

Mas então, lembrei das mãos da minha mãe, tentando segurar a xícara de café de manhã, com dificuldade, mas com tanto amor.

"Eu não sou um fardo", pensei, cerrando os punhos. "Eu sou uma sobrevivente."

Eu faria qualquer coisa, se eu tivesse que ver aquele sorriso cínico todos os dias, se eu tivesse que suportar o peso daquele segredo... eu faria.

O RH do Santa Helena era uma sala fria, com um cheiro de papel velho e esperança em decomposição. Eu estava sentada ali há quase quarenta minutos, as pernas doendo, a mente tentando organizar o caos.

— Candidata Maya Nogueira? — a voz da assistente do RH me tirou do torpor.

A entrevista não foi com o "grande diretor". Foi com uma mulher de óculos de grau que mal levantou o olhar do computador. Ela parecia entediada, como se estivesse apenas cumprindo um protocolo burocrático de uma vaga que ninguém queria.

— A vaga é para secretária executiva da diretoria médica — ela disse, digitando algo freneticamente. — O titular do cargo não é um homem fácil. Ele é genioso, raramente pisa aqui, e exige que a agenda esteja impecável. O foco dele é a cirurgia, então você será, na prática, a guardiã do tempo dele. Sem contato.

Eu senti um alívio imenso correr pelas minhas veias. A diretoria médica era imensa. Havia dezenas de diretores naquele hospital. As chances de eu cruzar o caminho de Arthur Strauss, o cirurgião-estrela que vivia nos centros cirúrgicos de elite, eram mínimas. Era um cargo burocrático, distante do olho do furacão.

— Eu sou extremamente organizada — respondi, tentando manter o tom de voz profissional. — Posso lidar com qualquer exigência.

— Ótimo. Você começa amanhã, às 07:30. O gabinete fica no décimo andar, ala administrativa. O nome do diretor está na porta.

Saí de lá com o contrato assinado, sentindo um peso sair das costas. Secretária executiva. Eu seria apenas mais uma engrenagem naquela máquina gigante. Eu poderia trabalhar, ganhar o meu dinheiro, garantir o tratamento da mamãe e manter a minha distância segura de qualquer coisa que lembrasse a noite no hotel 404.

O trabalho de uma secretária executiva de diretoria deve ser tão corrido, tão burocrático e tão entediante, que eu quase não teria tempo de respirar, muito menos de encontrar aquele homem. O hospital era um prédio de dez andares; eu estaria lá em cima, entre papéis e planilhas, e ele estaria lá embaixo, salvando vidas em seu pedestal de ouro. Nós éramos de mundos diferentes, e agora que eu tinha o emprego, teria a segurança de manter esse abismo entre nós.

Cheguei em casa exausta, mas com uma ponta de otimismo. Minha mãe sorriu ao me ver com a papelada em mãos.

— Você conseguiu, não conseguiu? — ela perguntou, a voz quase um sussurro esperançoso.

Eu respirei fundo, sentindo o gosto amargo do café frio.

— Consegui, mãe. Amanhã cedo, começo. É um cargo importante na diretoria. O salário... é o suficiente. A única coisa é que você ficará mais sozinha, pois não vou ter flexibilidade nos meus horários.

Ela abriu um sorriso. O brilho genuíno nos olhos dela era o que me sustentava.

— Oh, Maya! Isso é maravilhoso! Não se preocupe comigo.

Eu fui dormir sentindo que, finalmente, tinha vencido uma batalha. Eu me sentia segura. O "Dr. Arthur" era apenas um fantasma de uma noite de fraqueza, um pesadelo que ficaria guardado a sete chaves.

- Chega desse homem.

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