Mundo de ficçãoIniciar sessãoO prédio administrativo da alcateia sempre me deu a mesma sensação:
não importava quem você fosse, ali dentro todos viravam números. As paredes eram de concreto claro, frias, lisas demais. Telas embutidas exibiam mapas do território da Luar de Ferro, escalas de patrulha, alertas de fronteira. Lobos iam e vinham em silêncio, botas ecoando no piso polido, vozes baixas, olhares rápidos. Ninguém discutia ali. Ninguém gritava. Era assim que a alcateia resolvia conflitos: sem emoção. Talvez por isso doesse tanto. Caminhei até o balcão central sentindo cada passo pesar mais do que o anterior. Não porque eu estivesse fraca — eu não estava —, mas porque aquele lugar sabia exatamente como nos lembrar de quem mandava e de quem obedecia. A loba dentro de mim se encolheu. Não de medo. De humilhação. A atendente levantou os olhos quando me aproximei. Era jovem, eficiente, com o símbolo da administração preso ao uniforme escuro. O reconhecimento veio quase imediatamente. Vi no microsegundo de pausa, no arquejo contido. Ela me conhecia. Todos conheciam. — Elara — disse, confirmando o nome no tablet à sua frente. — Filha do Beta Bram. Assenti com a cabeça. Não corrigi. Não disse mais nada. Ela inclinou o corpo para frente, abaixando o tom de voz. — Em que posso ajudar? As palavras que ensaiei no caminho até ali quase não saíram. — Preciso… solicitar moradia na casa coletiva. O silêncio foi mínimo. Mas foi suficiente. A atendente piscou uma vez. Depois outra. Seus dedos pararam sobre a tela. — Moradia… coletiva? — repetiu, como se estivesse confirmando que tinha ouvido direito. Assenti novamente. — Sim. Ela olhou para mim com mais atenção agora. Não curiosidade aberta. Não julgamento explícito. Mas algo pior: confusão. — A senhora… — ela se corrigiu rápido — você não reside na casa do Beta? Respirei fundo. O ar parecia mais pesado ali dentro. — Não mais. Nenhuma mentira explícita. Nenhuma verdade completa. A atendente hesitou, depois fez um gesto curto com a mão. — Um momento. Ela se afastou, indo até uma porta lateral. Vi o reflexo do meu próprio rosto na superfície negra das telas: pálido, olhos fundos, maxilar rígido demais. Eu parecia… vazia. A loba rosnou baixo dentro de mim, incomodada com a exposição. Com o fato de estarmos ali, pedindo algo que nunca deveríamos ter precisado pedir. Quando a porta se abriu novamente, um homem mais velho saiu. Um dos anciãos administrativos. Não dos que lideravam batalhas ou decidiam punições públicas. Esse cuidava de números, moradias, deslocamentos internos. Ele me olhou com calma profissional. — Elara. — Não era uma pergunta. — Sim. — Pode me acompanhar? Assenti e segui atrás dele por um corredor lateral. As paredes ali eram ainda mais nuas. Sem telas. Sem mapas. Apenas portas numeradas e sensores de acesso. Entramos em uma sala pequena, funcional. Uma mesa, duas cadeiras, uma tela suspensa na parede. Ele se sentou e indicou a cadeira à frente. Sentei. Ele não perguntou nada de imediato. Apenas ativou a tela, puxando meu registro. Meu nome surgiu em letras claras, seguido de dados que eu conhecia bem demais: função, esquadrão, histórico de missões, avaliações. Filha do Beta. Rastreadora. Nível de aptidão: alto. O ancião franziu o cenho por um instante quase imperceptível. — Você entende que pedidos de moradia coletiva geralmente partem de jovens recém-integrados, ômegas sem vínculo familiar ou lobos em transição de esquadrão. — Entendo. — E ainda assim está solicitando. — Sim. Ele me observou por mais alguns segundos, como se esperasse que eu dissesse algo a mais. Que me explicasse. Que abrisse a ferida ali mesmo. Não fiz. — Posso saber o motivo? — perguntou, por fim. As palavras certas estavam prontas. Ensaiadas. Frias. — Quero meu próprio espaço. Já trabalho há tempo suficiente para me sustentar. Não vejo necessidade de permanecer na casa familiar. Tecnicamente verdade. Emocionalmente… irrelevante. Ele apoiou os cotovelos na mesa. — Houve algum desentendimento? Minha mandíbula travou. — Coisas domésticas — respondi. — Nada que diga respeito à alcateia. Nada que importe, eu quis dizer. O ancião me estudou. Ele não acreditava completamente. Mas também não insistiu. Talvez porque insistir significasse envolver nomes grandes demais. — Muito bem — disse, finalmente. — Temos uma unidade disponível. Ele tocou a tela, deslizando informações. — Casa coletiva do setor norte. Quarto individual. Banheiro compartilhado. Espaço reduzido, mas funcional. — Serve. Ele ergueu uma sobrancelha. — Você não viu ainda. — Serve — repeti. Outro silêncio. — Antes de finalizar — disse ele —, preciso confirmar que essa mudança não interfere nas suas funções atuais. — Não interfere. — O Beta Bram foi informado? O nome caiu como uma lâmina. — Não — respondi. — Mas não é necessário. Sou maior de idade. Meu vínculo com o esquadrão permanece o mesmo. Ele me observou por mais alguns segundos, depois assentiu. — Tecnicamente, você está correta. A tela emitiu um som discreto quando ele confirmou a solicitação. Um selo eletrônico da Luar de Ferro apareceu no canto inferior. Pronto. Era isso. Não houve discurso. Não houve consolo. Não houve drama. A queda da filha do Beta registrada como qualquer outro processo administrativo. — Vou pedir que um auxiliar a acompanhe até a casa coletiva — disse ele, levantando-se. — Seu acesso já foi liberado. — Obrigada. A palavra saiu automática. Vazia. Seguimos pelo corredor novamente. O auxiliar não falou nada. Apenas caminhou à frente, passando por leitores de acesso, portas automáticas, escadas externas. O ar da noite me atingiu com força quando saímos do prédio. A lua estava alta, clara demais para o que eu sentia. A casa coletiva ficava afastada da área central. Um prédio simples, funcional, com entradas numeradas e iluminação branca. Nada acolhedor. Nada hostil. Apenas… neutro. O auxiliar parou diante de uma porta lateral. — Quarto 17 — disse. — Esse é o seu. Passou o cartão pelo leitor e a porta se abriu. — Se precisar de algo, a administração funciona até às vinte e duas. Assenti. Ele se afastou sem olhar para trás. Entrei. O quarto era pequeno. Uma cama simples, um armário estreito, uma mesa encostada na parede. Nenhuma janela grande. Apenas uma abertura alta que deixava a luz da lua entrar em faixas pálidas. Fechei a porta atrás de mim. O silêncio caiu como um peso real. Larguei a mochila no chão e encostei as costas na porta. Minhas pernas cederam um pouco, mas não cheguei a sentar. Respirei fundo. A loba dentro de mim se mexeu inquieta, sentindo a mudança. O afastamento. O território que não era nosso. Você está sozinha agora, ela parecia dizer. Passei a mão pelo rosto, esfregando os olhos com força. Sozinha. Não expulsa ainda. Não rejeitada oficialmente. Mas… deslocada. O nome do meu pai ecoou na minha mente. Bram. Beta da Luar de Ferro. O homem que me ensinou a rastrear, a suportar dor, a obedecer ordens. O homem que não disse uma palavra quando Selene começou a me olhar como um erro. O quarto não cheirava a mim. Não cheirava a nada. Ainda. Caminhei até a cama e me sentei na beirada, olhando para as próprias mãos. Elas não tremiam. Nunca tremiam. Eu não chorei. Mas algo dentro de mim… rachou. Não alto. Não visível. Uma fratura silenciosa, profunda, que mudava tudo. E eu sabia — com uma clareza que doía — que aquele era apenas o começo.






