Mundo de ficçãoIniciar sessãoA luz que invadiu o quarto 12 da pousada não era dourada ou calorosa; era um clarão pálido e difuso, filtrado pela névoa densa que parecia ser a única moradora permanente de Morvath.
Juliette despertou antes mesmo do despertador. O silêncio da cidade era tão profundo que ela conseguia ouvir o som da própria respiração. A ansiedade, um misto de frio no estômago e eletricidade sob a pele, a impulsionou para fora da cama. Hoje não era apenas o dia de conhecer o namorado virtual; era o dia em que sua vida, conforme ela conhecia, começaria de verdade. Ou assim ela acreditava. O banho matinal foi demorado. A água quente de Morvath parecia carregar um cheiro mineral, terroso, que a fazia se sentir estranhamente alerta. Enquanto a espuma do sabonete deslizava por sua pele de porcelana, Juliette repassava mentalmente cada conversa com Edward. Ela precisava estar perfeita. Saindo do banho, ela escolheu um vestido estilo boho rosa, adornado com pequenas flores campestres que pareciam desafiar o cinza da janela. Ao prender o cabelo ruivo em um rabo de cavalo alto, usando uma xuxinha rosa que combinava perfeitamente com o tecido, ela sorriu para o espelho. O contraste do rosa com o fogo de seus cabelos a deixava com um ar etéreo, quase como uma ninfa perdida naquela cidade sombria. Calçou suas botas de salto de cano médio cor nude, conferiu o batom e sentiu-se pronta para enfrentar o mundo — ou a família Carter. Ao descer para o térreo, o ranger das escadas parecia anunciar sua presença para a recepção vazia. Ela se sentou em uma mesa de canto para o café da manhã. O cheiro de panquecas com mel e o suco de laranja gelado eram reconfortantes, mas o ambiente na pousada estava pesado. A pequena televisão de tubo, sempre ligada, exibia o noticiário local com uma tarja vermelha urgente. "A contagem oficial da população de Morvath sofreu uma atualização alarmante nesta manhã. O número de habitantes, que era de 150, caiu para 145 nas últimas 48 horas devido a desaparecimentos não explicados e mortes súbitas sob investigação. As autoridades pedem que evitem as áreas de floresta ao anoitecer." Juliette sentiu um calafrio. Cinco pessoas? Como uma cidade tão pequena perdia tantos habitantes em tão pouco tempo? Ela olhou para a janela, onde a neblina parecia lamber o vidro. Antes que o medo pudesse se instalar, seu celular vibrou. Edward: "Oiii gatinha, como passou a noite? Estou ansioso para te ver hoje. Venha assim que puder." A mensagem foi o antídoto imediato. Ela deu um sorrisinho bobo, digitou um rápido "Logo estarei aí" e ignorou o noticiário. O amor, ela pensava, era o seu escudo. A viagem até a mansão foi uma subida em direção ao desconhecido. O Impala 67 rugia enquanto subia a estrada sinuosa, ladeada por pinheiros gigantescos cujas copas se perdiam nas nuvens. A propriedade dos Carter ficava no ponto mais alto da montanha, isolada de tudo. Quando Juliette avistou o portão de ferro preto, imenso e encimado por uma sigla "C" em ferro batido, ela sentiu que estava entrando em um castelo moderno. Antes mesmo que ela pudesse procurar por um interfone, os portões pesados se abriram misteriosamente, rangendo em um convite silencioso. Ela dirigiu por um caminho de cascalho até uma estrutura vintage que servia de garagem. Ao descer do carro, o ar ali em cima era diferente — mais puro, mais selvagem. Edward estava lá. Ele era exatamente como nas fotos: alto, com 1,70m, magro, com cabelos pretos que caíam displicentes sobre a testa, dando-lhe um ar de menino vulnerável. O sorriso era meigo, os olhos brilhavam com uma devoção quase infantil. Juliette correu para os seus braços, sentindo o perfume familiar de Edward. Eles se beijaram, um encontro doce e suave que deveria ter selado o compromisso deles. Mas, enquanto estava abraçada a ele, Juliette sentiu um arrepio que não vinha do vento. Era a sensação de estar sendo observada por algo muito maior que Edward. Ao se afastar lentamente do abraço, os olhos de Juliette vagaram para além do ombro do namorado. E foi ali que o seu mundo girou. Parado nos degraus da entrada da mansão, emoldurado pela arquitetura antiga e imponente, estava um homem que parecia ter sido esculpido em rocha e desejo. Ambrósio Carter não parecia um "pai de família" comum. Ele aparentava cerca de 50 anos, mas com uma vitalidade que humilhava qualquer jovem. Seus cabelos eram grisalhos, na altura do pescoço; a barba rala delineava uma mandíbula forte e quadrada. Ele vestia uma camisa que parecia pequena demais para seu peito largo, e as veias em seus braços fortes pulsavam com um vigor animal. Com 1,85m de altura, ele dominava o espaço. Mas foram os olhos que paralisaram Juliette. Um azul tão penetrante, tão gélido e ao mesmo tempo tão quente, que parecia atravessar seu vestido boho e ler cada pensamento proibido que ainda nem havia se formado em sua mente. O choque foi tão físico que Juliette sentiu as pernas fraquejarem. Antes que pudesse filtrar o que estava sentindo, um sussurro escapou de seus lábios, baixo, mas carregado de uma luxúria súbita e incontrolável: — Que homem gostoso... — a voz dela foi um suspiro de choque. Edward, ainda inebriado pelo perfume dela e distraído com a própria felicidade, franziu a testa ligeiramente. — O quê? Você disse alguma coisa, Ju? Juliette sentiu o sangue subir para as bochechas, o rosto queimando sob o olhar fixo de Ambrósio, que não desviou o foco dela por um segundo sequer. Ela percebeu, com um pavor excitante, que o canto da boca do sogro se elevou em um micro-sorriso — como se ele a tivesse ouvido perfeitamente. — Nada... nada não — ela gaguejou, desviando o olhar, tentando inutilmente focar em Edward. Mas era tarde demais. O cheiro de Ambrósio — uma mistura de couro, madeira molhada e algo puramente másculo e selvagem — já havia invadido seus sentidos. Pela primeira vez na vida, Juliette Williams sentiu o peso do desejo real. Não o carinho suave que sentia por Edward, mas uma fome carnal, visceral e sombria por um homem que deveria ser proibido. Ela acabava de descobrir que Morvath escondia segredos, mas o segredo mais perigoso estava bem diante dela, vestindo o status de seu sogro.






