Mundo ficciónIniciar sesiónA distância entre o gramado e os degraus da varanda parecia ter encolhido sob o peso da atmosfera que Ambrósio Carter emanava. Juliette sentia as palmas das mãos suarem, um contraste bizarro com o frio cortante que soprava das montanhas de Morvath. Edward, segurando sua mão com uma delicadeza que agora lhe parecia quase irritante, a conduziu até o gigante grisalho.
— Pai, esta é a Juliette. A mulher de quem eu tanto falei — Edward disse, a voz cheia de um orgulho juvenil. — Ju, este é meu pai, Ambrósio Carter. Juliette tentou abrir a boca para uma saudação polida, mas as palavras pareceram travar em sua garganta seca. De perto, Ambrósio era ainda mais devastador. O cheiro dele a atingiu como uma onda: não era perfume de frasco, era o cheiro de floresta depois da chuva, de couro aquecido e um almíscar animal que fazia seu instinto gritar. — É um prazer imenso conhecê-la, Juliette — Ambrósio disse. A voz dele era um barítono profundo que vibrou no peito dela, fazendo-a estremecer visivelmente. — O prazer... é todo meu, Sr. Carter — ela conseguiu balbuciar. Enquanto ele falava, Juliette foi hipnotizada pelo movimento dos lábios dele. Eram lábios firmes, mas que pareciam esconder uma voracidade contida. Ela sentiu uma onda de calor súbita, um incêndio começando no baixo ventre e subindo por sua espinha, ignorando completamente o fato de que Edward ainda segurava sua mão. Ambrósio manteve o olhar fixo no dela, um azul que parecia despir sua alma, antes de dar um passo para o lado, indicando a entrada da mansão. — Por favor, entrem. O frio de Morvath não é gentil com flores delicadas — ele concluiu com uma masculinidade tão acentuada que Juliette sentiu as pernas fraquejarem por um breve segundo. O interior da mansão Carter era um santuário de madeira escura, tetos altos e tapeçarias que pareciam contar histórias de séculos passados. Eles se dirigiram à sala de jantar, onde uma mesa de carvalho maciço, longa o suficiente para vinte pessoas, estava posta apenas para três. Ao se sentar, Juliette entrou em um transe perigoso. Seus olhos, agindo por vontade própria, buscavam Ambrósio em cada movimento. Ela o imaginou sem aquela camisa de botões, as mãos grandes dele — que agora descansavam sobre a mesa — segurando-a pela cintura. "O que eu estou pensando?", ela se repreendeu internamente, o rosto ardendo. "Ele é o pai do Edward. Ele é seu sogro, Juliette! Controle-se!". Ela tentou focar nas flores do seu vestido, no brilho dos talheres de prata, mas a imagem de Ambrósio dominando a cabeceira da mesa era como um ímã que ela não conseguia evitar. Cada vez que ele levava o copo de água aos lábios, ela sentia uma sede desesperada. O silêncio tenso foi interrompido pela entrada de uma mulher. Ela usava um coque perfeitamente alinhado, óculos de grau que lhe conferiam um ar austero, porém gentil, e um uniforme de governanta impecável. — Com licença, Sr. Carter. O jantar está pronto — disse ela com uma vênia discreta. — Obrigado, Katherine. Esta é Juliette, namorada de Edward. Juliette, esta é Katherine, que cuida desta casa com uma lealdade que não tem preço. Katherine sorriu, mas Juliette notou algo nos olhos dela por trás das lentes dos óculos — uma observação aguçada, como se ela soubesse exatamente o tipo de turbulência que a ruiva estava sentindo. Katherine começou a servir a mesa: uma sopa de raízes fumegante e uma carne assada com ervas cujo aroma preenchia o ambiente. Juliette observava a arrumação meticulosa dos pratos, as taças de cristal refletindo a luz dos candelabros, tentando desesperadamente manter a fachada de "namorada perfeita" enquanto o desejo por Ambrósio rugia dentro dela. No meio da refeição, o celular de Edward vibrou com insistência sobre a mesa. Ele olhou o visor e suspirou, parecendo frustrado. — É do escritório de advocacia da capital... aquele caso urgente que eu mencionei. Pai, Ju, me deem apenas cinco minutos? Preciso atender isso no escritório, é confidencial. — Sem problemas, meu filho. O dever sempre em primeiro lugar — Ambrósio respondeu com uma calma soberana. — Vá lá, gato. Eu espero — Juliette forçou um sorriso, embora o pânico de ficar sozinha com Ambrósio começasse a crescer. Assim que a porta do escritório se fechou, o silêncio na sala de jantar tornou-se ensurdecedor. Ambrósio limpou os cantos da boca com o guardanapo de linho e olhou diretamente para ela. — Sinta-se à vontade, Juliette. A casa é sua. Vou subir apenas por um instante para trocar de blusa, derramei uma gota de vinho e isso me incomoda. Katherine cuidará de você se precisar de algo. Ele se levantou, sua estatura de 1,85m fazendo a sala parecer pequena. Juliette ficou parada, o coração martelando contra as costelas. No momento em que ele desapareceu pelas escadas, uma curiosidade mórbida e uma atração magnética a venceram. Como se estivesse em transe, ela se levantou. Seus pés, calçados nas botas nude, não emitiam som sobre o tapete persa. Ela o seguiu. Subiu os degraus de madeira, o coração na boca. A porta do quarto principal estava entreaberta. Juliette se aproximou e espiou pela fresta. O ar sumiu de seus pulmões. Ambrósio estava de costas para a porta, retirando a camisa. A musculatura das costas era um mapa de força; cada fibra muscular se movia sob a pele bronzeada enquanto ele jogava a peça de roupa de lado. Quando ele se virou de lado para pegar uma blusa nova, Juliette teve a visão completa. O torso dele era esculpido, os abdominais definidos como os de um atleta no auge, as veias dos braços saltadas. Ele era um espécime físico impossível para um homem de 50 anos. Mas o que realmente chamou sua atenção foi uma marca na lateral de sua barriga, logo acima do quadril. Era uma cicatriz extensa, profunda, com o formato irregular de algo que parecia ter sido causado por garras ou dentes de um animal colossal. Juliette recuou um passo, mas suas costas encontraram a parede fria do corredor. Sua respiração estava tão ofegante que ela tinha certeza de que ele poderia ouvi-la a quilômetros de distância. O calor que sentira antes agora era um incêndio descontrolado. Ela fechou os olhos, a imagem daquele corpo seminu e daquela cicatriz misteriosa queimada em sua retina. Ela estava em perigo, ela sabia disso. Mas, pela primeira vez na vida, Juliette não queria ser salva.






