Capítulo 5

O jantar foi retomado, mas a atmosfera na sala de jantar da mansão Carter havia mudado drasticamente. O som dos talheres batendo contra a porcelana fina parecia excessivamente alto no silêncio que se instalava entre as mordidas. Juliette mantinha os olhos fixos em seu prato de porcelana, tentando ignorar a presença esmagadora de Ambrósio na cabeceira da mesa. Cada vez que ela levantava o garfo, sentia o olhar azul dele queimando sua pele, como se ele pudesse ver através de seu vestido, lembrando-a do toque proibido.

— Então, Ju — Edward começou, tentando quebrar o gelo com uma voz que soava terrivelmente comum perto do barítono de seu pai. — Como foi a viagem de carro? O Impala aguentou bem as curvas de Morvath?

Juliette forçou um sorriso, embora seu coração ainda estivesse em descompasso.

— Foi... foi tranquila, Edward. A cidade é muito diferente de tudo o que eu já vi. Tem uma beleza... sombria.

— Sombria é a palavra certa — interveio Ambrósio, sua voz cortando o ar como uma lâmina. — Morvath não recebe bem os estranhos, a menos que eles tenham algo de selvagem dentro de si. Não acha, Juliette?

Ela engoliu em seco, sentindo o duplo sentido vibrar em seus ossos.

— Talvez alguns segredos valham a pena o risco, Sr. Carter — ela respondeu, ganhando uma coragem que nem sabia que possuía.

Edward riu, alheio à eletricidade que corria entre os dois.

— Viu, pai? Eu disse que ela era especial.

Enquanto a conversa fluía em diálogos superficiais sobre a economia local e o trabalho de Edward na capital, o tempo lá fora parecia conspirar contra a partida de Juliette. O que começou como uma garoa fina transformou-se em uma tempestade violenta. Raios cortavam o céu cinzento de Morvath, iluminando momentaneamente a floresta densa através das janelas altas, e o vento uivava nas frestas das janelas como uma fera ferida.

Edward olhou para a janela e depois para Juliette, sua expressão mudando para uma preocupação genuína.

— Ju, com essa chuva e essa neblina, descer a montanha no Impala é suicídio. A estrada fica coberta de lama e os deslizamentos são comuns.

Ele olhou para o pai, buscando aprovação. Ambrósio apenas inclinou a cabeça, observando Juliette com uma intensidade predatória.

— Por que você não dorme aqui esta noite? — Edward sugeriu, segurando a mão dela. — A mansão é enorme, temos quartos de hóspedes de sobra. Você fica segura e amanhã, quando o tempo abrir, você volta para a pousada para pegar suas coisas.

Juliette sentiu um arrepio. Ficar naquela casa significava estar a poucos metros de Ambrósio durante toda a noite. Ela olhou para o sogro, esperando ver algum sinal de negação, mas ele apenas deu um gole lento em seu vinho tinto, os olhos nunca deixando os dela.

— Seria um prazer ter uma convidada tão... interessante... sob o meu teto — disse Ambrósio.

Sem conseguir encontrar a própria voz, Juliette apenas assentiu com a cabeça. Sua mente era um caos. Ela pensava no toque das mãos dele em suas coxas e no segredo daquela cicatriz. Estaria ela entrando voluntariamente em uma armadilha?

Após o término da refeição, Katherine apareceu silenciosamente, como uma sombra bem treinada, para recolher os pratos. Seus olhos atrás dos óculos de grau encontraram os de Juliette por um segundo, e houve um brilho de aviso — ou talvez de reconhecimento — que a ruiva não soube interpretar.

— Vou preparar o quarto de hóspedes — anunciou Katherine.

— O quarto ao lado do meu, Katherine — ordenou Ambrósio, levantando-se. — É o mais aquecido da ala leste.

O coração de Juliette deu um solavanco. Ao lado dele. Edward não pareceu notar nada de estranho; para ele, era apenas uma questão de conforto para a namorada. Eles se despediram no corredor. Edward deu um beijo rápido e casto nos lábios dela, prometendo vê-la no café da manhã. Ambrósio apenas fez uma leve reverência de cabeça, um gesto de cavalheiro antigo que escondia o demônio dentro de si.

Ao entrar no quarto, Juliette percebeu que Katherine havia deixado uma muda de roupa sobre a cama de dossel. Era uma camisola de seda branca, longa e delicada, com rendas feitas à mão.

— São roupas da falecida esposa do patrão — Katherine sussurrou antes de sair. — Ele nunca deixou que nada fosse jogado fora.

Vestir aquela roupa foi uma experiência quase vintage. A seda deslizava por sua pele como um carinho frio. Juliette escovou os dentes e se olhou no espelho; com o pijama da falecida Sra. Carter, ela parecia uma aparição, uma noiva fantasmagórica pronta para um sacrifício. Ela se deitou, o cheiro de madeira antiga e chuva impregnando seus sentidos, e finalmente adormeceu sob o som dos trovões.

O sono de Juliette, porém, não foi restaurador. Ela mergulhou em pesadelos vívidos: ela corria por uma floresta de pinheiros, sendo caçada por algo que não conseguia ver, mas que conseguia sentir — um calor imenso e uma respiração pesada em seu pescoço. No sonho, ela não fugia por medo, mas por uma vontade desesperada de ser capturada.

Ela acordou em um solavanco, o corpo coberto por uma fina camada de suor. O quarto estava mergulhado na penumbra, mas um som a fez congelar na cama. Não era o vento. Era um uivo.

Mas não era um uivo comum de um lobo de floresta. Era um som profundo que parecia vibrar dentro de suas próprias costelas, uma nota de autoridade e solidão que cortava a noite de Morvath. Impulsionada por uma curiosidade que desafiava seu instinto de sobrevivência, Juliette levantou-se e caminhou até a janela de vidro duplo.

Lá fora, a chuva havia cedido para uma garoa persistente. No limite entre o jardim da mansão e o início da floresta negra, ela o viu.

Era um lobo, mas a palavra parecia pequena demais para descrevê-lo. Ele era gigantesco, do tamanho de um urso, com uma pelagem negra como o abismo que parecia absorver a pouca luz da lua. Seus ombros eram largos, musculosos, e sua postura exalava um poder antigo. O lobo levantou a cabeça, e por um momento eterno, seus olhos — de um azul gélido e penetrante — encontraram os de Juliette na janela do segundo andar.

Um choque elétrico percorreu o corpo de Juliette. Aquela sensação... aquele magnetismo que a puxava em direção ao perigo... era o mesmo que ela sentiu ao olhar para Ambrósio. Ela não sentiu medo. Sentiu uma conexão familiar, um reconhecimento de alma que a deixou sem fôlego. O lobo negro soltou um último uivo baixo, quase um sussurro para ela, e desapareceu entre as árvores com uma agilidade sobrenatural.

Juliette encostou a testa no vidro frio, o coração martelando. O que Juliette não sabia era que a cicatriz na barriga de Ambrósio e o lobo na floresta faziam parte do mesmo mistério sombrio. E o pior — ou melhor — era que ela desejava o monstro tanto quanto desejava o homem.

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