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Capítulo 3: Voltando Atrás

Zakaria

Eu deveria ter ido embora assim que ela cruzou os braços, me encarando como se eu fosse apenas mais um homem arrogante tentando comprar sua dignidade com dinheiro, eu deveria ter feito o que sempre fazia: virar as costas e seguir em frente.

Era mais fácil assim. Sempre foi difícil ignorar a existência de alguém.

As pessoas ao meu redor raramente me negavam alguma coisa. Não porque eu fosse cruel ou exigisse submissão constante, mas porque poder mudava tudo. Dinheiro mudava tudo. Título mudava tudo. As pessoas tentavam me impressionar com propostas, conversas longas e promessas rasas.

Mas ela não. Ela derrubou champanhe em mim e continuou agindo como se tudo estivesse sob controle. Como se eu fosse apenas um homem qualquer outro ali. E talvez fosse exatamente por isso que eu não conseguia parar de observá-la.

Ela sustentou meu olhar com desafio, mesmo claramente cansada, irritada e preocupada. O coque começava a se desfazer discretamente, alguns fios castanhos caíam ao redor do rosto dela. As expressões de quem não suportava mais continuar em pé, mais ainda continuava lutando, e por Deus. Ela é perigosamente bonita.

Não da maneira artificial que eu via constantemente em eventos luxuosos, cercado de mulheres impecáveis que passavam horas moldando cada detalhe da aparência para agradar homens como eu.

Lara parecia bonita porque era viva. E isso era muito mais raro, porque eu não estou acostumado com naturalidade.

— Você sempre analisa tanto as pessoas ou isso é exclusivo para quem ousou atrapalhar o seu caminho? — ela perguntou de repente, de um jeito sarcástico e divertido ao mesmo tempo.

Percebi tarde demais que estava encarando-a em silêncio havia tempo demais, e aquilo era extremamente incômodo.

Um pequeno sorriso surgiu em meus lábios, enquanto tentava organizar meus pensamentos que estavam começando a se embaralhar.

— Você percebe tudo muito rápido, para alguém que parece não se importar.

— Eu trabalho com público. Eu não me importo, mas eu já aprendi a decorar tudo pelo simples fato de tudo isso ser cotidiano.

Ela não é somente sarcástica, é inteligente. Mais inteligente do que eu imaginei, porém, ela tenta passar despercebida. E eu gostei disso mais do que deveria admitir.

Ao redor, o hotel continuava funcionando normalmente. Funcionários atravessavam corredores apressados, hóspedes riam ao longe, músicos tocavam suavemente no salão principal, mas naquele instante tudo parecia distante.

Porque minha atenção permanece nela. Completamente nela, mesmo que eu saiba que isso é errado. E céus, não tenho noção porque estou agindo dessa forma.

— Você realmente acha que eu quis humilhá-la oferecendo ajuda? — perguntei.

Lara desviou o olhar por um instante antes de responder.

— Não, mas eu não tô com paciência pra ficar dando desculpas porque não quero aceitar.

— Eu só quis… — Tentei amenizar a situação, mas ela continuou com seu desabafo.

— Acho que você está acostumado a um mundo muito diferente do meu. E eu já estou cansada de viver dando explicações.

A resposta deveria ter encerrado o assunto. Mas alguma coisa dentro de mim insistia em continuar ali. Em saber mais, perguntar e ouvir o que ela tinha a dizer.

— E qual é exatamente o seu mundo, senhorita Lara?

Ela soltou uma risada baixa, sem humor.

— Ah, você não vai gostar da resposta, senhor Al-Hadi.

— Eu só tomo decisões após ter visto na prática.

Os olhos dela voltaram aos meus lentamente, me olharam com desdém e sem respostas momentânea, até suspirar fundo e finalmente falar:

— Meu mundo é pegar ônibus lotado depois da meia-noite porque o dinheiro do aplicativo não dá até o fim do mês. É fazer extra sempre que chamam porque a conta não espera, mesmo depois de ser demitida do mesmo local. É fingir que tá tudo bem pra minha mãe não perceber que eu tô desesperada tentando manter a casa funcionando. E por fim, sou eu tentando não enlouquecer quando estou parada, porque isso significa que as coisas estão ruins.

O tom de sua voz soou choroso, mas ela não estava com expressão alguma de tristeza. Talvez fosse culpa do cansaço ou ela estivesse escondendo muito bem.

— E agora — ela continuou — meu mundo inclui ser demitida por derrubar champanhe num homem rico que provavelmente troca de terno mais rápido do que eu dou o próximo suspiro. E sabe de uma coisa? Eu acho que estou cansada o bastante para desistir por hoje.

Ela não é nenhuma mulher ingênua. Tem plena consciência dos seus atos e não se dramatiza por isso, o que eu achei fascinante de sua parte.

Observei-a por alguns segundos antes de falar calmamente:

— Você fala como se riqueza fosse um crime. Como se eu estivesse cometendo um crime por simples existir.

— Não. — Ela inclinou levemente a cabeça. — Mas às vezes parece um privilégio tão distante que nem parece real. Embora você não esteja cometendo crime nenhum, age como se fosse uma pessoa frágil demais.

Aquilo me atingiu mais do que deveria. Não de forma negativa, mas surpreendente. Ninguém nunca falava a verdade na minha cara, nunca contestavam o que eu dizia e eu ficava sem saber o que fazer ou como agir. E eu não conseguia lembrar a última vez que alguém tinha sido genuinamente honesto na minha frente.

Um dos meus seguranças surgiu discretamente no fim do corredor.

— Alteza, os investidores estão aguardando.

— Você deveria ir. Não vai ficar aí perdendo tempo, conversando com uma pessoa sem futuro. Vai lá…

Os olhos dela desceram rapidamente até meu terno antes de voltarem ao meu rosto.

— Pessoas importantes estão esperando. — Quase sorri pelo tom sarcástico de sua voz.

Ela realmente não fazia ideia. No meu mundo, os reis aguardavam minhas decisões. Ministros mudam agendas por minha causa. Empresas inteiras dependiam da minha assinatura para prosseguir com uma simples mudança.

Mas naquele momento, parado naquele corredor de hotel, eu só conseguia pensar que preferia continuar ouvindo aquela garçonete sarcástica falar sobre a vida dela.

Aquilo era um problema. Um enorme problema. Porque eu não queria sair dali.

— Você vai conseguir voltar para casa? — perguntei descontraído.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Olha aqui, Sheik — ela cruzou, encostou o ombro esquerdo na parede e me olhou séria. — Desde quando você é assim tão… digamos, solidário?

— Por favor, me responda, senhorita.

Lara suspirou.

— Eu vou ficar bem. Vou pegar um ônibus e ponto.

— Já passa da meia-noite, não é perigoso?

— E?

Franzi levemente a testa. Ela realmente não percebia o perigo?

— O hotel pode providenciar um carro para levá-la em casa.

Ela soltou uma risada imediata.

— Ah, então você realmente não desiste fácil, ou acredita muito em conto de fadas.

— Não vejo problema em garantir sua segurança.

— Minha segurança sobreviveu vinte e quatro anos sem sheiks bilionários se preocupando com ela. Acho que vai continuar sobrevivendo. Ah, e o hotel não oferece carona para os funcionários. De onde você tirou essa ideia?

Outra vez aquela sensação estranha surgiu dentro de mim. Admiração ou… não sei…

Porque Lara recusava ajuda como alguém que aprendeu cedo demais que depender dos outros quase sempre terminava em decepção.

Antes que eu pudesse responder, um homem atravessou o corredor apressado.

— Lara! Graças a Deus te achei.

Ela virou imediatamente. O homem devia ter pouco mais de trinta anos, vestia uniforme do hotel e parecia nervoso. Muito nervoso para alguém que tentava se controlar.

— O Augusto enlouqueceu de uma vez? — ela perguntou.

— Pior. A filha do senador derrubou vinho numa cliente e agora tão desesperados precisando de alguém no salão principal.

— Mas eu fui dispensada, não posso fazer nada. Eles que se virem.

— Eu sei, mas ninguém consegue controlar aquela área como você. E o Augusto está ocupado tentando impedir uma tragédia diplomática naquele jantar dos empresários. Por favor, Larinha. Me ajuda só mais essa vez?

Quase sorri discretamente. Uma tragédia diplomática, foi uma interessante escolha de palavras.

O rapaz então finalmente pareceu notar minha presença. E empalideceu imediatamente, como se estivesse visto algo sombrio.

— Meu Deus.

Lara fechou os olhos na mesma hora, entediada com antecedência pelo que já sabia.

— Respira, Marcelo. Ele não vai mandar cortar sua cabeça.

Aquilo arrancou uma risada baixa de mim antes que eu pudesse evitar. Elparecia prestes a desmaiar. Será que eu sou tão estranho assim?

— Desculpa, Alteza... eu só... eu não...

— Está tudo bem — interrompi calmamente. — Aqui eu sou apenas Zakaria Al-Hadi, por favor.

Lara observou minha reação com atenção. Como se estivesse tentando entender que tipo de homem eu realmente era, e o problema era que eu também já não tinha tanta certeza disso.

Ela voltou a olhar para Marcelo, antes de fechar a pouco expressão que tinha.

— Então basicamente estão implorando pra eu voltar cinco minutos depois de me demitirem? Ops… eu já sou demitida.

— Lara… por favor, aceita isso por mim. Só mais essa vez.

“Só mais essa vez", então já houveram outras, sem dúvidas.

— E o Augusto? Foi ele quem mandou você me procurar?

— Orgulho ferido, mas o desespero foi maior. Você sabe como ele é. Ele nunca tem tempo pra nada.

Os olhos dela brilharam com satisfação imediata. E eu precisei controlar outra vontade absurda de sorrir, porque aquilo parecia uma piada. Um homem querendo serviços, minutos depois de dispensar uma pessoa pela segunda vez. Chega a ser interessante.

— Interessante — ela murmurou.

Então me olhou novamente. E Deus... aquela mulher tinha olhos perigosos.

— Parece que ainda não vão se livrar de mim hoje, senhor Al-Hadi.

Sustentei o olhar dela por alguns segundos.

— Isso não me incomoda nem um pouco, senhorita Lara.

O silêncio que veio depois pareceu quente demais. Intenso demais. Porque, pela primeira vez em muitos anos, alguma coisa estava escapando do meu controle.

E o pior de tudo… era que eu não tinha certeza se queria impedir, porque eu estava gostando.

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