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Lara
O salto do meu sapato já estava me matando antes mesmo da metade do turno começar, mas reclamar não pagava boleto, então continuei sorrindo como se aquele vestido preto apertado, aquele coque impecável e aquelas quase dez horas em pé fossem exatamente o que eu sonhava para a minha vida. O Hotel Royal Paradise era o tipo de lugar onde tudo brilhava demais. Os lustres gigantes refletiam luz dourada no mármore polido, os garçons caminhavam como se ensaiassem uma coreografia silenciosa e os hóspedes pareciam pertencer a outro mundo, um onde ninguém precisava olhar preço no mercado ou fingir que estava tudo bem quando a geladeira ficava vazia no final do mês. E eu sempre pertenci ao outro lado. Ao lado das contas atrasadas, do ônibus lotado e dos extras desesperados que eu aceitava sempre que o telefone tocava. A verdade era que eu já nem fazia mais parte oficialmente da equipe do hotel. Tinha sido dispensada fazia quase quatro meses, depois de um corte absurdo de funcionários, mas eu conhecia aquele lugar tão bem que continuavam me chamando quando havia eventos importantes demais e garçons de menos. Talvez porque eu sempre trabalhei direito e nunca tive reclamações. Talvez porque eu estou sempre a disposição ou, talvez porque eu simplesmente sou insubstituível — essa última frase soou estranha demais. — Lara, atenção naquela área VIP — Vanessa sussurrou enquanto passava apressada por mim com uma bandeja cheia de taças. — O sheik chegou e não podemos manchar nossa reputação. Revirei os olhos discretamente, imaginando que minha reputação está mais que manchada já. — O tal bilionário árabe? — Sim. E dizem que ele alugou três andares inteiros do hotel. — Rico com força. Espero que ele pague meu INSS. — Tipo podre de rico — ela corrigiu, arregalando os olhos. — Parece que ele vem de Dubai. Segurança pra todo lado, carros blindados, sei lá quantos assessores... Essas pessoas vivem em outro planeta. Pisam no chão porque ainda não aprenderam a voar, com certeza. Soltei uma risada baixa. — Desde que deem gorjeta, podem vir até da lua. Me pagando é o que importa. Vanessa segurou o riso antes de voltar ao trabalho, e eu ajeitei a bandeja nas mãos enquanto caminhava em direção ao salão principal. Aquela noite era um evento absurdamente luxuoso organizado por empresários brasileiros. Tinha político, jogador de futebol, influenciador famoso e empresários que provavelmente ganham em uma hora o que eu não veria nem em dez anos. E, aparentemente, tinha um sheik bilionário hospedado ali. E honestamente? Eu não me importava com nada do que estava acontecendo. Para eles isso era só mais uma noite de passeio. Por que pra mim teria que ser diferente? Homens ricos eram todos iguais. Tinham o mesmo olhar arrogante, o mesmo costume irritante de acharem que dinheiro comprava tudo e a mesma mania insuportável de tratar funcionários como parte da decoração. Então tudo está dentro dos meus conformes. Passei entre os convidados oferecendo champanhe enquanto uma música clássica preenchia o ambiente. O cheiro de perfumes caros quase sufocava o ar, misturado com o aroma delicado das flores espalhadas pelas mesas. Então notei os ares mudando. Seguranças entrando um atrás do outro, jornalistas sendo barrados na porta e as pessoas voltando a atenção para o momento. Homens altos, sérios, vestidos de preto, atentos a cada canto do salão. Atrás deles vieram outros homens igualmente bem vestidos, até que ele apareceu. Por alguns minutos o ambiente mudou. Não foi preciso anunciar que o Sheik havia chegado, porque sua presença ali era forte o bastante para ser o centro das atenções sem que precisasse chamar atenção. Ele era alto. Muito alto. Os cabelos escuros estavam perfeitamente alinhados, a barba curta desenhava um rosto absurdamente bonito e os olhos… Meu Deus. Os olhos eram tão escuros que pareciam esconder alguma coisa perigosa. Ele usava um terno preto impecável, ajustado ao corpo de um jeito quase criminoso, e caminhava calmamente, como alguém acostumado a ser observado constantemente. As pessoas abriam espaço naturalmente para sua passagem, como se fosse tudo ensaiando. E ali estava ele. Rico, poderoso e inacessível. Tentei não reparar muito, porque homem já é um problema. Mas homens Bilionários são mais ainda. Continuei servindo as mesas, tentando ignorar o fato irritante de que meu cérebro insistia em lembrar dos olhos do Árabe. Foi então que aconteceu. Tudo rápido demais. Um dos convidados esbarrou no meu braço no exato momento em que eu me virei. A bandeja inclinou sem aviso e uma das alças escorregou em um momento péssimo. O líquido dourado caiu direto sobre alguém. Meu coração despencou quando percebi o tamanho da gravidade. — Meu Deus! Levantei os olhos imediatamente e congelei completamente. Tanta gente e tinha que ser justamente o Sheik o atingido? Sinceramente, meu dia foi uma merda. A mancha molhava parte do paletó preto caríssimo enquanto algumas gotas escorriam pela camisa branca impecável por baixo do tecido. O salão pareceu silenciar ao redor apenas para observar o tamanho daquele caos. Os seguranças avançaram quase instantaneamente. Recuei por instinto e eu só quis sumir naquele momento. — Senhor— — Está tudo bem — ele interrompeu, com uma voz grave e calma. Mas eu já sentia o desespero subir pela minha garganta. Porque aquele terno provavelmente custava mais do que tudo dentro da minha casa. — Desculpa, desculpa mesmo... foi sem querer — falei rapidamente, colocando a bandeja na mesa mais próxima. — Eu posso limpar. Os olhos dele desceram lentamente até mim e eu pude sentir o poder arder em minha pele. Um tipo de poder silencioso que fazia qualquer pessoa perceber imediatamente quem comandava o ambiente. — Não precisa entrar em pânico — ele disse em português carregado por um leve sotaque árabe. — É apenas um terno. Aquilo me surpreendeu. — Você fala português? — Ergui os olhos, curiosa o bastante pela resposta. Um canto discreto surgiu nos lábios dele, como um quase sorriso. — Um pouco. Comecei a praticar recentemente, minha pronúncia ainda não está impecável. Os seguranças continuavam atentos ao redor, claramente esperando alguma ordem, mas ele apenas permaneceu parado diante de mim enquanto eu pegava rapidamente um guardanapo limpo, enquanto tentava amenizar o caos ali. — Minhas sinceras desculpas, senhor. Não foi minha intenção — murmurei outra vez, começando a limpar cuidadosamente a mancha do paletó. — Eu juro que não costumo derrubar bebida nas pessoas. — Fico aliviado em saber disso. Levantei os olhos imediatamente. — Bom, pelo menos foi champanhe. Poderia ter sido vinho. — Disse sem pensar e quando percebi, já havia falado demais. — Me desculpe. Os olhos dele brilharam de leve, como se tivesse ouvido algo proibido. — Você costuma ver o lado positivo das tragédias ou isso é apenas nervosismo? — É o meu mecanismo de sobrevivência, senhor. Não gosto de admitir, mas eu nunca me senti tão nervosa como me sinto agora. Ele permanecia sereno demais, como se aquilo não fosse nada. Continuei limpando o tecido enquanto sentia os olhos dos outros funcionários queimando em mim à distância. Provavelmente todos esperando eu ser expulsa dali — ou presa, vai saber —, porque os olhares estavam me fuzilando sem fazer esforço de serem discretos. — Qual é o seu nome? — ele perguntou de repente e aquilo me fez dar uma pausa. — Lara, senhor. Ele repetiu lentamente: — Lara. E meu nome soou estranho na voz dele, com aquele sotaque árabe que parecia bonito demais. Proibido demais e, caramba… eu estava começando a perder da realidade — da minha realidade, na verdade. Engoli seco antes de dar um passo para trás e mostrar o feito. — Acho que consegui salvar seu terno. Bom… nem tanto, mas acho que está um pouco pior. Novamente, peço perdão por isso. Não foi minha intenção. Os olhos escuros desceram até minhas mãos antes de voltarem ao meu rosto. — Acho que sim. Obrigada. A voz dele é suave demais para alguém que deveria ser arrogante. Me afastei antes de acontecer mais algum acidente. — Senhor Zakaria — um dos homens atrás dele chamou discretamente. — A sala de reuniões já está pronta. Zakaria… então esse é o nome dele. Combina com ele, em todos os aspectos. Ele continuou me encarando por mais um segundo antes de assentir lentamente. — Espero que o restante da sua noite seja menos desastroso. Foi um prazer conhecê-la, Lara. — Eu também espero. Principalmente por mim e obrigada, senhor. O canto da boca dele se ergueu outra vez antes de se afastar. E eu fiquei parada ali por alguns segundos, observando aquele homem desaparecer entre empresários e seguranças como se tivesse saído diretamente de outro universo. Meu Deus! Eu preciso parar com essa loucura. Parece que estou enfeitiçada, credo. Voltei para a cozinha segurando a bandeja com os cacos de vidros da taça que quebrou, depois de molhar o Sheik. Os demais funcionários estavam apenas rindo em silêncio enquanto eu caminhava. Ótimo, era somente o que me faltava. — Meu Deus do céu — Vanessa apareceu praticamente agarrando meu braço. — Você derrubou champanhe no SHEIK! Tem noção do quão grave isso foi? — É, parece que esse foi mesmo um evento e tanto. — Você tá ferrada, Lara. Eu só te desejo boa sorte. Respirei fundo e talvez estivesse mesmo. Mas o pior não era isso. Alguma coisa dentro de mim dizia que essa não foi a última vez que nos vimos. Zakaria Gosto do Brasil porque é um país barulhento. Vivo e contagiante. Nunca me senti triste aqui, é praticamente impossível ser triste e brasileiro ao mesmo tempo. Passei a maior parte da minha vida cercado por protocolos, silêncio e pessoas cuidadosamente treinadas para jamais ultrapassarem limites diante de mim. Tudo em meu mundo era calculado. Organizado. Controlado. Mas o Brasil parecia respirar caos. Talvez fosse exatamente por isso que eu continuei voltando sempre aqui. Observei o salão luxuoso enquanto os empresários falavam sem parar ao meu redor, tentando impressionar-me com números, contratos e promessas milionárias que honestamente já não significavam quase nada para mim. Dinheiro deixou de ser importante para mim a partir do momento em que eu não soube mais o que fazer. Mas parece que as pessoas não entendem isso. Para elas eu sou apenas um título e um símbolo lucrativo. Chega a ser cansativo. Enquanto tentava me distrair observando as telas raras expostas nas paredes, meu olhar alcançava uma mulher. Uma garçonete, na verdade. Ela estava servindo bebidas com uma naturalidade curiosa. Mas havia algo diferente naquela mulher. Talvez a maneira como caminhava sem parecer impressionada com ninguém ao redor. Mesmo estando cercada por várias pessoas, que certamente, não é do seu círculo social. Talvez o fato de não lançar olhares desesperados tentando chamar minha atenção como tantas outras faziam. Ela parecia... real, e aquilo imediatamente me despertou um interesse que eu não sentia há anos. Uma curiosidade por respostas para as perguntas que eu nem pensei ainda. Então, o belo momento foi inevitável… O champanhe caiu sobre meu terno num movimento rápido, inesperado e quase cômico. Meus seguranças avançaram, as pessoas pararam o que estavam fazendo e eu só tentei amenizar o que acabou de acontecer. Bastou um olhar para meus seguranças recuarem e agir com naturalidade. Porque a expressão no rosto dela era genuinamente desesperada, como se estivesse prestes a colapsar a qualquer momento. E fazia muito tempo que eu não via alguém genuinamente verdadeiro perto de mim, mesmo que desesperado. — Desculpa, desculpa mesmo... foi sem querer. — Ela colocou a bandeja desesperadamente em cima de outra mesa e continuou tentando limpar meu terno. Ela falava rápido. Nervosa. Enquanto tentava limpar o tecido do meu paletó com mãos delicadas e agitadas ao mesmo tempo, foi nesse exato momento que observei seus olhos. Um castanho perfeito, mas sem brilho. Quando ela levantou o rosto para mim, notei algo ainda mais raro: ela não fazia ideia de quem eu realmente era. Talvez saiba que eu sou um homem rico hospedado no hotel, e pensar assim é extremamente libertador. Porque, pela primeira vez naquela noite, alguém olhava para mim sem interesse. Sem ambição. Sem estratégia. Ela apenas parecia preocupada por ter derrubado bebida em um desconhecido, que poderia arruinar sua vida facilmente. Por curiosidade perguntei o nome dela, antes de voltar para minha realidade. E então ela disse: Lara. O nome combinava com ela. Observei-a discretamente enquanto fingia concentração na conversa dos empresários ao meu redor. Mas minha atenção permanece nela, sem que eu consiga controlar. Na forma como sorria educadamente para os convidados, mesmo estando claramente exausta de tudo ali. Na maneira como massageava discretamente os pés quando parava por poucos segundos atrás das colunas, tentando não cair enquanto carregava bandejas equilibradas nas mãos. Na exaustão escondida atrás da postura profissional, sem deixar transparecer qualquer resquício de cansaço. Talvez porque, antes de me tornar o homem que o mundo enxergava hoje, eu também tivesse conhecido obrigações cedo demais. — Senhor Zakaria? Desviei os olhos dela ao ouvir meu assessor. — Sim? — Os membros já estão todos reunidos. Podemos começar? Assenti lentamente, mas antes de sair voltei a olhar para Lara mais uma vez. Ela estava servindo outra mesa, completamente concentrada no trabalho, sem perceber que eu ainda a observava. E, pela primeira vez em semanas, senti algo diferente do vazio habitual.






