Inicio / Romance / De Férias Com O Sheik / Capítulo 2: Segunda Demissão
Capítulo 2: Segunda Demissão

Lara

Eu devia ter percebido que alguma coisa estava errada no instante em que Vanessa apareceu na copa com aquela expressão de velório. Ninguém fazia aquela cara depois de uma boa notícia.

Apoiei as mãos na bancada de inox enquanto tentava recuperar o ar depois de quase quatro horas seguidas carregando bandejas. Meus pés estavam latejando tanto que eu já não sentia direito os dedos, e a única coisa que eu queria era cinco minutos de silêncio antes de voltar para aquele salão lotado de milionários idiotas.

Mas Vanessa entrou apressada demais. Nervosa demais.

— Lara… — O olhar dela era de medo e afobação.

— O quê? O que aconteceu? — perguntei imediatamente.

Ela mordeu o lábio tentando aliviar a tensão, mas não funcionou muito.

— O gerente quer falar com você.

Fechei os olhos por um segundo. Claro! É claro que aquilo não iria ficar assim.

— Ele descobriu sobre o champanhe no terno do Sheik surtou quando soube.

— Por que aquele idiota tinha que ter me escaneado? — Soltei uma risada sem humor enquanto pegava um copo descartável e enchia de água. — Bom, pelo menos vou entrar para a história desse lugar.

— Lara, eu tô falando sério. O Augusto tá surtando desde que aconteceu. Parece que alguém importante reclamou sobre você e…

Meu estômago afundou no mesmo instante porque eu sabia que aquela seria minha última noite ali.

— O sheik reclamou dos meus serviços?

— Não sei. Ninguém sabe quem foi, mas estão todos desesperados. Parece que foi meio que um evento cômico.

Respirei fundo antes de beber a água de uma vez. Ótimo. Simplesmente ótimo, justamente hoje que eu tanto precisava desse dinheiro.

A geladeira lá em casa estava praticamente vazia, minha mãe tinha passado a semana inteira fingindo que não estava preocupada com as contas atrasadas e eu ainda precisava juntar dinheiro para o remédio dela no fim do mês. Esse não é um extra para luxos, é minha última esperança.

— Tá. Tudo bem. — larguei o copo na pia. — Vou lá ouvir o sermão do chefe.

Vanessa segurou meu braço antes que eu saísse.

— Você não fez nada de propósito.

Sorri de lado.

— Tenta explicar isso pra um homem que usa gravata até pra respirar é igual tentar respirar debaixo d’água, Vanessa. Eles não estão nem aí pra gente. Somos pobres e só estamos aqui para servi-los, é assim que pensam.

Saí da copa sentindo o coração acelerar conforme caminhava pelo corredor dos funcionários. O salto fazia barulho contra o piso frio enquanto eu ensaiava mentalmente mil maneiras diferentes de implorar pelo meu emprego temporário, mesmo depois de ser desligada, eu continuo insistindo nos extras aqui. Eu sei, é patético, mas a pobreza humilha a gente de formas criativas.

Quando cheguei à sala do gerente, bati duas vezes na porta antes de girar a maçaneta.

— Entra. Pode entrar.

Augusto nem levantou os olhos dos papéis quando entrei. O ar-condicionado estava tão gelado que contrastava brutalmente com o calor do salão lá fora. Ele continuou escrevendo alguma coisa por alguns segundos antes de finalmente erguer o rosto.

E a expressão dele já me fez querer ir embora imediatamente.

— Lara... Lara... — ele suspirou, tirando os óculos. — Você tem noção do tamanho do problema que criou hoje?

Cruzei os braços automaticamente, tentando parecer menos nervosa do que realmente estava. Mesmo sabendo tudo que ele estava prestes a dizer, eu ainda estava com medo de ouvir.

— Foi um acidente, eu juro. Você sabe que eu nunca faria algo assim de propósito.

— Acidente com um dos hóspedes mais importantes que esse hotel já recebeu, Lara. Ele não é um simples empresário.

— Eu pedi desculpas. Eu limpei e fiz o que pude para ajudá-lo.

— Você derrubou champanhe num sheik bilionário! Tem noção do tamanho da merda que você fez hoje?

— Tecnicamente, o cara esbarrou em mim primeiro. Eu estava servindo, ele deveria ter prestado mais atenção.

— Isso importa agora?

— Pelo jeito, não.

Ele levantou da cadeira e começou a andar pela sala. As janelas fechadas deixava o ar ainda mais sufocante, as cortinas fechadas deixava o ambiente com cara de sermão.

— Você sabe quanto aquele homem movimenta financeiramente? Sabe quantos contratos esse evento envolve? Quantas pessoas importantes estão aqui hoje e quantas viram o que você fez?

— Não. Eu não sei de nada disso porque eu sou apenas a garçonete.

— Pois deveria.

Segurei a vontade de revirar os olhos. Porque gente rica adorava agir como se dinheiro fosse uma entidade divina que todos deveriam venerar, mas na verdade, a realidade é bem nojenta.

— Olha — falei, respirando fundo —, eu realmente sinto muito pelo que aconteceu. Mas eu estava fazendo meu trabalho. Não joguei a bebida nele porque quis, eu esbarrei e eu não tenho culpa se ele não olhar ao redor antes de desfilar.

Augusto ficou em silêncio por alguns segundos, me encarando sem nenhuma emoção. Então ele suspirou, deixando tudo pior.

— Você sempre foi uma boa funcionária, Lara. Nunca nos deu trabalho e sempre foi bem recebida.

Finalmente chegamos na hora mais esperada da noite. Quando ele para de tentar amenizar as coisas e vai direto ao ponto.

— Mas esse hotel precisa manter uma imagem impecável. E sinceramente? Desde que você foi desligada da equipe fixa, esses extras já estavam começando a gerar comentários demais.

Franzi a testa.

— Como assim?

— Você se envolve demais com os hóspedes. Conversa demais. Responde demais e isso tem gerado comentários entre os hóspedes mais reservados.

Quase ri na cara dele, porque aquilo era ridículo.

— Então meu defeito é ter personalidade e ser simpática?

— Seu defeito é esquecer que o funcionário precisa ser discreto.

Aquela frase me atingiu num lugar específico. Porque eu sabia exatamente o que ele queria dizer. Os funcionários não podiam parecer humanos demais naquele lugar, a gente só precisava ser escravo de gente rica e nada mais.

— Entendi — murmurei.

Ele apoiou as mãos na mesa.

— Acho melhor encerrarmos por aqui, Lara. Eu sinto muito.

— Você está me dispensando até dos extras porque eu estava seguindo as ordens de etiquetas que fiz para entrar aqui? Ok…

Augusto desviou o olhar por um instante. Covarde, extremamente covarde.

— Sim.

Fiquei em silêncio.

Porque às vezes o desespero é tão grande que ultrapassa o choro e vira vazio. E naquele momento eu só conseguia pensar na minha mãe perguntando se o pagamento tinha saído.

Tudo por causa de uma taça idiota de champanhe e de um Sheik idiota e cego.

— Certo.

Minha própria voz pareceu distante. Augusto respirou fundo novamente.

— Vou pedir para acertarem o valor da noite com você no financeiro.

Assenti lentamente, então saí dali antes que minha dignidade resolvesse morrer de vez.

O corredor parecia mais longo na volta. Às luzes fortes me davam dor de cabeça e o barulho abafado da festa ecoava ao fundo enquanto eu tentava organizar os pensamentos vazios. Que droga.

Eu precisava daquele dinheiro extra. Precisava muito mesmo. Passei a mão rapidamente pelo rosto antes de voltar para a copa pegar minhas coisas.

Mas parei no meio do caminho ao ouvir vozes próximas do salão principal.

— O senhor deseja subir agora, Alteza?

Alteza? Virei o rosto involuntariamente e o encontrei outra vez.

Zakaria estava perto da entrada VIP, conversando com dois homens de terno enquanto um segurança permanecia logo atrás dele. Mesmo de longe, ele chamava atenção sem esforço algum.

O tipo de homem que parecia pertencer a capas de revista ou filmes caros demais para a minha realidade. Eu estava observando demais, foi quando senti o mundo parar.

E me encarou, meu estômago fez uma coisa estranha, mas sustentei o olhar por apenas dois segundos antes de continuar andando.

Então aquela voz grave surgiu às minhas costas.

— Lara. — Fechei os olhos por um instante antes de me virar, porque ele estava perto demais.

De perto ele é ainda mais alto. Mais elegante e sem dúvidas mais poderosos. Parei no mesmo instante e tentei manter o foco.

— Sim, senhor Al-Hadi.

O canto da boca dele se moveu discretamente.

— Zakaria. — Ele corrigiu antes que eu dissesse mais alguma coisa.

Por que eu estava nervosa? Era só um homem. Um homem absurdamente rico, poderoso e intimidador, mas ainda um homem como qualquer outro — como qualquer outro também é demais da minha parte.

— Está indo embora cedo — ele observou. — Aconteceu alguma coisa?

Soltei uma risada seca.

— Na verdade, fui demitida novamente.

Algo mudou imediatamente na expressão dele, mas eu percebi no mesmo instante a mudança.

— Por causa do acidente?

Segurei firme a alça da minha bolsa e tentei vencer a exaustão.

— Bem-vindo ao mundo real. Pessoas pobres geralmente não podem derrubar champanhe em bilionários sem consequências. Bem-vindo ao meu mundo.

Os olhos dele ficaram fixos em mim por alguns segundos, tentando processar o que eu acabei de dizer.

— Eu não fiz reclamação alguma, senhorita.

— O quê? — Aquilo era estranho, porque… Vanessa não seria capaz de fazer aquilo comigo.

— Não pedi que a dispensassem em momento algum. Também não fiz reclamação alguma, tudo terminou quando você virou as costas e foi embora.

Eu queria muito acreditar que aquilo foi escolha do hotel, mas alguma coisa dentro de mim dizia que havia sido traição.

— Bom... — dei de ombros, tentando parecer indiferente — acho que eles não quiseram correr o risco de eu atacar outro milionário com bebidas caras duramente o resto da noite. Bom… acho que o melhor é sempre evitará tragédias.

E, pela primeira vez, vi Zakaria rir de verdade. Uma risada baixa, rouca e grave, fazendo todos meus sentimentos perderem o foco por um segundo.

Meu Deus. Aquilo devia ser proibido.

— Você é sempre assim? — ele perguntou.

— Assim como?

— Sarcástica mesmo quando está claramente irritada?

— É meu mecanismo de defesa favorito.

Ele me observou em silêncio outra vez, e havia intensidade demais naquele homem. Mas uma intensidade que fazia parecer que ele enxergava coisas que ninguém mais via.

— Quanto o hotel pagaria pelo seu turno? — perguntou de repente.

Franzi a testa imediatamente.

— Não. Por favor! — Uma sobrancelha dele arqueou levemente.

— Não o quê?

— Não vou aceitar dinheiro seu por pena. Eu também não perdi o dia, eles vão me pagar amanhã.

A expressão dele mudou quase imperceptivelmente. Mas ele não pareceu ofendido, estava com as mesmas expressões de sempre.

— Você presume muitas coisas sobre mim, senhorita Lara.

— E você parece acostumado a resolver tudo com dinheiro. — Só depois que falei, foi que lembrei que o cara é podre de rico.

— Normalmente funciona.

— Talvez tenha funcionado sempre porque ninguém tenha coragem de dizer não pra você.

Ele me analisou por alguns segundos longos demais. Assentindo lentamente enquanto observava tudo ao seu redor. Então… ele se aproximou e eu pude sentir. O cheiro de  perfume sofisticado, quente, masculino demais e Deus… aquele homem era a perdição em carne.

— Você não tem medo de mim — ele murmurou com tamanha certeza que quase me assustou.

Levantei o rosto lentamente e suspirei cansada:

— Eu nem conheço você.

Os olhos escuros desceram até minha boca por um breve instante antes de voltarem aos meus olhos. Meu coração disparou tão forte que fiquei irritada comigo mesma por ser tão… bom, por desejá-lo tanto.

— Talvez esse seja exatamente o problema, ou não…  — ele respondeu baixinho, deixando a tensão pairando no ar.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP