Mundo de ficçãoIniciar sessãoLara
Eu definitivamente odiava aquele hotel. Odiava os corredores enormes, o cheiro exagerado de perfume caro, os hóspedes arrogantes e principalmente o fato irritante de que aquele lugar sempre me fazia lembrar exatamente onde eu estava na vida. Do lado de fora do luxo. Mesmo assim, lá estava eu outra vez. Porque o destino claramente adorava rir da minha cara e eu não tinha escolha a não ser suportar calada tudo que a vida me dava. — Você tá com uma expressão assustadora — Vanessa comentou enquanto ajeitava guardanapos sobre a bancada. Continuei encarando a lista de mesas sem responder imediatamente, porque eu estava com ódio o bastante para xingar todo mundo ali. — O Augusto literalmente me demitiu e me recontratou em menos de uma hora. Acho que tenho direito de parecer um pouco homicida, já que não pude recusar porque infelizmente eu preciso da grana. Ela riu baixo, mas sabia exatamente como eu me sentia, porque com ela também nao era muito diferente. — Pelo menos você voltou, fico feliz que… — ela fez uma pausa antes de continuar, como se aquilo fosse o óbvio. — Bom… a gente sabe que o Augusto é um idiota, mas pelo menos você vai conseguir fechar a noite. — É. Porque aparentemente os ricos não conseguem sobreviver sem mim carregando bandeja e servindo eles o tempo todo. E claro que o Augusto é idiota, ele é idolatra de gente idiota. Vanessa se aproximou mais, baixando a voz: — E aparentemente porque o sheik perguntou por você… Minhas mãos pararam automaticamente. Devagar, virei o rosto para ela e, no mesmo instante me arrependi de ter pensando que talvez ela tivesse dito alguma coisa. — O quê? — Depois que você saiu do corredor, ele perguntou ao Marcelo onde você estava e o Augusto ouviu. Meu coração deu uma batida estranha, porque aquilo soava mais que ridículo. — E daí? Eu so sou mais uma garçonete que o atendeu bem. — Daí nada. Só achei interessante o fato dele ter perguntado sobre você. — Ela sorriu e então saiu, me deixando com várias perguntas pairando no ar. Voltei imediatamente a organizar as taças, fingindo indiferença. — Homens ricos ficam entediados fácil. Devem achar divertido brincar com gente comum. — Disse enquanto tentava organizar meus pensamentos tão desconexos. Mas a verdade era que aquela possibilidade me incomodou mais do que deveria, desde o instante em que Zakaria me olhou naquele corredor, alguma coisa parecia fora do lugar dentro de mim. E eu odiava me sentir assim. Odiava homens que mexiam comigo rápido demais, principalmente homens impossíveis e inacessíveis como bilionários. — Lara. — Levantei os olhos imediatamente ao ouvir Augusto se aproximar. Ele parecia tenso, mais do que o normal e aquilo me deixou irritada. — Preciso que você fique responsável pela ala reservada do último andar. Franzi a testa. — A área VIP? — Sim. Consegue fazer isso pra mim? — Achei que eu fosse perigosa demais pra clientes importantes. Ele ignorou completamente minha ironia. Covarde outra vez, pu estava esperando apenas uma oportunidade de me humilhar novamente. — Apenas faça seu trabalho direito essa noite. Sem comentários. Sem brincadeiras. Sem acidentes. Você sempre foi ima funcionária exemplar e dedicada, Lara. — Você fala como se eu tivesse derrubado ácido sulfúrico no homem. Foi só champanhe e ele está bem. — Lara. — Tá bom. Relaxa, eu vou fazer tudo bonitinho. Ele respirou fundo antes de me entregar um cartão magnético dourado, que dava acesso aos elevadores da área VIP. — O acesso é restrito. Só convidados específicos entram lá. Cuidado para nao perder este cartão. Peguei o cartão olhando rapidamente a numeração gravada. Cobertura presidencial, claro. Ricos nunca faziam nada discretamente. Embora que seja uma ex-funcionária fixa, foram pouquíssimas às vezes que adentrei a área VIP, e às vezes em que entrei, nunca tive tanto acesso assim. Subi no elevador de funcionários alguns minutos depois, segurando uma bandeja com bebidas enquanto tentava ignorar a ansiedade estranha crescendo no meu peito. O último andar do hotel parecia outro universo. Silencioso demais. Elegante demais. Luxuoso de um jeito quase absurdo. Os corredores tinham iluminação baixa, obras de arte gigantes nas paredes e um perfume suave no ar que provavelmente custava mais caro do que meu aluguel. Quando as portas douradas do elevador se abriram, dois seguranças imediatamente me analisaram dos pés à cabeça, como eu fosse um ratinho no meio de vários gatos. — Serviço de quarto VIP — falei, mostrando o cartão. Eles liberaram minha passagem sem dizer uma palavra. Respirei fundo antes de atravessar o corredor enorme, mas parei assim que ouvi vozes vindas da sala principal da cobertura. Uma delas era dele. Grave, controlada e doce ao mesmo tempo. E mesmo sem entender exatamente o motivo, meu corpo inteiro reconheceu aquela voz imediatamente. Maldição. — O conselho quer uma resposta definitiva antes do retorno para Dubai, senhor. Outra voz respondeu em inglês. Masculina. Mais velha, mais ordenado. — O anúncio do noivado já foi adiado tempo demais, Alteza. A família da noiva exige uma reposta definitiva. Noivado? Diminuí os passos involuntariamente, como a boa curiosa que habita em mim. — Samira já está sendo pressionada pela família. Todos estão esperando sua decisão oficial sobre o grande casamento. O conselho todo está aguardando por uma resposta oficial. Samira. Por algum motivo, aquele nome me causou um desconforto imediato e aquilo foi ridículo. Eu mal conhecia aquele homem, mas permaneci imóvel mesmo assim, como se aquilo fosse bastante grave. — Eu sei exatamente o que estão esperando, nao preciso que me relembrem o tempo todo — Zakaria respondeu friamente. A voz dele parecia diferente agora. Mais dura, mais distante. Como se estivesse sendo forçado a assumir responsabilidades. — Então qual é o problema? — o homem insistiu. — Samira é perfeita para o cargo. A união fortalece alianças políticas, mantém estabilidade e encerra especulações sobre sucessão. Aquilo me fez franzir levemente a testa. Porque ricos nunca se casavam por amor mesmo, sempre tinha algo mais encolhido e aquilo nem era mais novidade. Era sempre poder, status e políticas, mas nunca amor. — Não preciso que me lembre das minhas obrigações, Kalleb. O silêncio que veio depois pareceu pesado. Então ouvi novamente: — O reino inteiro espera esse casamento, Zakaria Al-Hadi. Não seria conveniente para nenhuma das partes pertencer com algo indeciso por tanto tempo. Quando tempo de espera? Um ano? Dois? Eu nao deveria ter ouvido a conversa, talvez porque, pela primeira vez, eu estivesse enxergando claramente quem ele realmente era. Não apenas um homem rico hospedado num hotel de luxo. Mas alguém que pertencia a um mundo absurdamente distante do meu, e eu tão idiota que estava forçando a barra para ser simpática. Ele é um sheik. Um futuro governante. Um homem prometido para outra mulher. Engoli seco imediatamente antes de finalmente me mover outra vez. Idiota, maldita idiota que eu sou. O que exatamente você esperava? Que um bilionário árabe estivesse solteiro e esperando uma garçonete brasileira aparecer magicamente na vida dele? Patético. Respirei fundo, organizei a postura e bati na porta principal da cobertura. A conversa cessou imediatamente ao ouvirem as batidas. Segundos depois, um homem de terno abriu a porta. E então eu o vi outra vez. Zakaria estava perto das enormes janelas panorâmicas, com Dubai brilhando em seus olhos mesmo estando do outro lado do mundo. Ele vestia apenas a camisa social preta agora, sem o paletó sujo de champanhe, as mangas dobradas até os antebraços fortes, revelando um relógio absurdamente caro no pulso e as veias pulsantes dos seus braços. Ele era bonito demais. Meu Deus. Aquilo devia ser ilegal. Os olhos dele encontraram os meus instantaneamente e alguma coisa mudou na expressão dele. Talvez curiosade por eu nao ter ido embora ainda, ou talvez, estivesse apenas entedidado mesmo. — Serviço de bebidas — falei profissionalmente, entrando. O homem mais velho ao lado dele me observou rapidamente antes de voltar a atenção para Zakaria. O velho com certeza percebeu que eu já estava ali há tempo demais. — Continuaremos essa conversa depois, Zakaria. Zakaria assentiu sem desviar os olhos da porta, porque aquele homem olhava como se enxergasse demais? Ele parecia me julgar de forma muito discreta, mas sem comentários. Coloquei a bandeja sobre a mesa enorme de vidro enquanto sentia o silêncio pesado no ambiente. Assim que terminei de servir as bebidas, virei para sair imediatamente. Mas a voz dele me fez parar no mesmo lugar onde estava. — Senhorita Lara. — Fechei os olhos por meio segundo antes de me virar, porque aquilo nao iria terminar bem. — Sim? O senhor deseja alguma coisa? O outro homem claramente percebeu algo no ar entre nós, eu percebi isso imediatamente também. Droga. Zakaria caminhou lentamente até mim, me deixando completamente envergonhada e sem reação diante todos ali. — Você ouviu a conversa. Não era pergunta, era constatação. Levantei o rosto devagar, tentando soar menso curiosa e então encarei sem nenhum arrependimento. Afinal, eu não tenho o que perder mesmo. — Não foi exatamente discreta, senhor Al-Hadi. Os olhos escuros permaneceram fixos nos meus por segundos longos demais… — E agora está me olhando diferente. — Soltei uma risada baixa, só pra quebrar o clima tenso. — Acho que descobri que você é mais complicado do que parecia. — Sussurrei enquanto deixava a bandeja sobre a mesa. — Complicado? — Noivo. Futuro rei. Bilionário e ainda é simpático. O homem mais velho soltou um som baixo, claramente desconfortável com aquela conversa. Mas Zakaria não desviou os olhos de mim nem por um segundo. — Samira ainda não é minha noiva oficialmente. Coloquei as mãos dentro dos bolso do avental e permaneci ali, muito próxima dele. — O senhor não me deve explicações, senhor Al-Hadi. O silêncio ali foi denso, o clima entre nós ficou pesado outra vez. Porque eu devia odiar aquele homem. Devia lembrar que ele pertencia a um mundo impossível. Mas quanto mais ele me olhava daquele jeito… Mais difícil parecia respirar direito perto dele. Me fazendo parecer Alenquer estou na menor pausa. — Lara... — a voz dele saiu mais baixa dessa vez. — Eu tenho que ir, senhor. Ainda estou em horário de trabalho. Uma sobrancelha dele arqueou lentamente. — Você está me evitando? Dei um passo para trás imediatamente. — Isso que tá acontecendo aqui, não deveria estar acontecendo. Os olhos dele escureceram ainda mais. — E o que exatamente está acontecendo aqui? — Estamos conversando como se nos conhecêssemos há tempos. Eu sou apenas ima funcionária, você é o hóspede mais importante desde hotel e sem dúvidas, nao deveríamos nem mesmo estar conversando agora. O deixei onde estava e prosseguir com os demais serviços, porque aquilo era ridículo. Não iria demorar tanto para tudo acabar e eu finalmente receber e ir embora. Mas cada segundo naquele hotel parecia uma eternidade sem fim.






