Mundo de ficçãoIniciar sessãoEra sexta-feira à noite.
Enquanto Rafael Carboni deixava seu escritório, ajustando o paletó e respirando fundo após mais uma semana intensa, Amelia fechava a porta de casa, pronta para seguir rumo ao trabalho. Durante aqueles dias, haviam trocado inúmeras mensagens — algumas românticas, outras levemente picantes, sempre carregadas de provocação suave e curiosidade. Nada apressado. Nada além do limite. Estavam, acima de tudo, se conhecendo. Amelia chegou ao Nocturne Chill com a tranquilidade de quem dominava aquele espaço. Cumprimentou colegas, seguiu até o camarim e vestiu o figurino da noite. Aquela apresentação seria especial. A casa estaria cheia. Muitos vinham apenas para vê-la dançar — para sentir a energia que só ela conseguia criar no palco. Do outro lado da cidade, Rafael já sabia disso. Assim que entrou no carro, pegou o celular e ligou para Arthur. — Hoje ela dança — disse, direto. — Vamos ao Nocturne comigo? Arthur soltou uma risada travessa do outro lado da linha. — Ah… então é hoje que eu revejo a loira do balcão de petiscos? — provocou. — Claro que eu vou. Combinaram o horário, a mesa, e desligaram. Rafael passou em casa, tomou um banho rápido e escolheu a roupa com mais cuidado do que costumava admitir. Queria estar impecável. Não apenas como surpresa — mas porque, em poucos dias, Amelia havia revirado sua cabeça e mexido com algo que ele achava estar bem protegido: o coração. Antes de seguir para o Nocturne Chill, fez uma última parada. Entrou em uma floricultura discreta e escolheu um buquê de rosas vermelhas e brancas. Forte e delicado ao mesmo tempo. Como ela. Arthur e Rafael chegaram praticamente juntos. Pediram bebidas, riram, conversaram despreocupados. O clima era leve… até que mudou. As luzes do salão se alteraram, o burburinho diminuiu, e todos os olhares se voltaram para o palco. Amelia surgiu sob a iluminação baixa, ao som de uma música sensual. Seu figurino era sexy, elegante, cuidadosamente pensado — provocante sem ser vulgar. Cada movimento carregava confiança, arte, domínio absoluto do espaço. Rafael simplesmente travou. Aquela não era apenas a mulher com quem havia trocado mensagens carinhosas durante a semana. Era a artista. A dançarina. A presença que hipnotizava. Sentiu o calor subir pelo corpo, uma excitação intensa que tentou disfarçar tomando um gole da bebida. Arthur percebeu na hora. — Uau… — murmurou o amigo. — Agora eu entendo. Rafael não respondeu. Seus olhos estavam presos nela. Na forma como Amelia se movia, na segurança do olhar, na maneira como parecia dançar não para o público — mas sobre ele. E, naquele instante, Rafael teve absoluta certeza de duas coisas: ele estava completamente encantado… e aquela noite ainda guardava muito mais do que apenas aplausos. Rafael desviou o olhar do palco apenas por alguns segundos, inclinando-se na direção de Arthur. — Eu acho que estou… sentindo algo de verdade por ela — confessou, em voz baixa. — E isso me deixa um pouco receoso. Arthur o observou com atenção, deixando a brincadeira de lado. — Por causa do trabalho dela? Rafael assentiu lentamente. — Eu sei que ela é profissional, sei quem ela é… mas, ainda assim, fico dividido. Arthur apoiou o cotovelo na mesa e sorriu de forma tranquila. — Rafa, se tem uma coisa que você sempre fez foi controlar tudo. Talvez esteja na hora de só… viver. Se for pra ser, vai ser. E se não for, pelo menos você tentou. Rafael respirou fundo. As palavras do amigo fizeram sentido. Cerca de uma hora depois, sob aplausos longos e sinceros, Amelia encerrou sua apresentação. Antes de deixar o palco, seus olhos encontraram os de Rafael na plateia. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios, seguido de um beijo enviado no ar — sutil, só para ele. Rafael sorriu automaticamente. — Vou vê-la — disse a Arthur, levantando-se. — Já volto. — Vai tranquilo — Arthur respondeu, já se levantando também. — Eu vou ter uma conversinha com a loira da petiscaria. Rafael seguiu pelo corredor até o camarim. Parou diante da porta, respirou fundo e bateu com cuidado. — Pode entrar — veio a voz dela, suave. Quando abriu a porta, Amelia já sorria. Ela sabia que era ele antes mesmo de vê-lo. — Você foi incrível — Rafael disse, aproximando-se. — Hoje… você estava ainda mais intensa. Fiquei extasiado. Amelia sentiu o coração aquecer. — Obrigada — respondeu. — Fico feliz que tenha gostado. Eles se aproximaram naturalmente, trocando um selinho longo, carregado de carinho e desejo contido. Rafael a envolveu em um abraço e, com a voz baixa e rouca, ousou: — Quando você vai dançar assim… apenas pra mim? Amelia sentiu um arrepio percorrer-lhe a pele. Olhou nos olhos dele, sincera. — No momento em que você quiser. O beijo que se seguiu foi intenso, profundo na emoção, cheio de promessas silenciosas — daqueles que não precisam ir além para dizer tudo. Enquanto isso, Arthur conversava com Angeline no balcão. Riram, trocaram impressões sinceras sobre o primeiro encontro — que não havia sido perfeito, mas deixara curiosidade suficiente para ambos concordarem em se ver novamente. Minutos depois, Arthur retornou à mesa. Amelia já havia encerrado seu expediente quando Rafael a convidou: — Quer se juntar a nós? Ela hesitou por um instante, depois sorriu. — Claro. Caminharam juntos até a mesa. Rafael fez a apresentação com naturalidade. — Arthur, essa é a Amelia. — Prazer — Arthur disse, educado. — O prazer é meu — ela respondeu, gentil. Sentaram-se, conversando de forma leve, como se aquela noite estivesse apenas mudando de ritmo — não de intensidade. E, enquanto os risos surgiam e os olhares se cruzavam, ficava cada vez mais claro que o que Rafael e Amelia estavam construindo já ultrapassava a curiosidade inicial. Era cuidado. Era escolha. A noite na casa de show chegou ao fim com despedidas leves. Arthur trocou um último sorriso com Angeline antes de seguir para seu apartamento, enquanto Rafael e Amélia deixavam o Nocturne juntos. As ruas iluminadas da cidade refletiam nos vidros do carro, criando um cenário quase cinematográfico. No caminho, Rafael respirou fundo, reunindo coragem. — Você… gostaria de conhecer minha cobertura? — perguntou, fingindo naturalidade. Amélia sorriu de canto. Ela sabia exatamente qual era a intenção dele, mas gostava da forma respeitosa e cuidadosa com que Rafael conduzia tudo. Gostava de sentir que o interesse era mútuo, equilibrado, no mesmo ritmo. — Eu gostaria sim — respondeu, com voz suave. Antes de seguirem direto para o apartamento, passaram rapidamente pela casa dela. Amélia entrou apenas o suficiente para colocar comida para sua gata, Chloe, que recebeu carinho e um beijo apressado, enquanto observava tudo com aquele olhar curioso felino. Já na cobertura de Rafael, assim que entraram, Amélia pediu licença. — Vou tomar um banho rápido, tudo bem? Ela pegou a bolsa, onde havia levado uma roupa mais confortável, e seguiu para o banheiro. Sozinho por alguns minutos, Rafael sentiu o coração acelerar ao lembrar do que ainda não tinha feito. Desceu até o carro e voltou com o buquê de rosas vermelhas e brancas que havia esquecido no banco traseiro. Quando Amélia saiu do banheiro, os cabelos ainda levemente úmidos e vestindo um simples vestido de cetim que moldava seu corpo com delicadeza, encontrou Rafael à sua espera, segurando o buquê. Ela parou por um instante, surpresa. — Rafael… — disse, encantada. Pegou as flores com cuidado, sentindo o perfume suave, e lhe deu um beijo rápido e carinhoso nos lábios. — Elas são lindas. Obrigada. — Quer água pra elas? — ele perguntou, sorrindo. — Sim, por favor. Não quero que murchem. Depois de acomodarem as rosas, Rafael pegou uma garrafa de vinho e duas taças. — Que tal irmos até a sacada? Amélia concordou. Caminharam juntos até a varanda, onde a cidade se estendia abaixo deles, viva, brilhante, pulsando. Com as taças nas mãos, encostaram-se lado a lado, sentindo a brisa noturna e o silêncio confortável que só acontece quando duas pessoas estão exatamente onde gostariam de estar. A noite ainda prometia.






