Mundo de ficçãoIniciar sessãoO local escolhido por Rafael ficava a poucos minutos dali. Um wine bar discreto, escondido entre prédios antigos, com iluminação baixa, música suave e mesas bem espaçadas — perfeito para quem queria conversar sem pressa. Assim que entraram, foram conduzidos a um canto mais reservado, longe do movimento principal.
Amelia se sentou, observando o ambiente com curiosidade tranquila. — Você escolheu bem — comentou. — É… aconchegante. — Gosto de lugares assim — Rafael respondeu, tirando o blazer com naturalidade. — Onde dá pra ouvir a própria voz. O garçom se aproximou, educado e atento. Rafael pediu um dos melhores vinhos da casa, um tinto encorpado, recomendado para noites longas. Amelia concordou com um leve aceno, confiando na escolha dele. Quando as taças chegaram, brindaram quase instintivamente. — Às boas surpresas — Rafael disse. — Às noites inesperadas — Amelia completou, tocando levemente a taça na dele. O vinho aqueceu o clima e soltou as palavras. — Então… — Rafael começou, apoiando o antebraço na mesa — acho justo começarmos pelo básico. Eu já disse meu nome, mas não minha idade. Tenho trinta anos. Advogado. E você já sabe metade da minha rotina por causa disso. Amelia sorriu. — Vinte e seis — respondeu. — Dançarina. No palco parece simples, mas exige mais disciplina do que as pessoas imaginam. — Deu pra perceber — ele comentou. — Você tem controle. Presença. Ela agradeceu com o olhar, sentindo-se vista de um jeito diferente. — E quando você não está defendendo clientes difíceis? — perguntou. — O que faz para… desligar? Rafael pensou por um instante, girando levemente a taça. — Leio. Bastante. — Técnicos? Jurídicos? — ela brincou. — Romances. Amelia arqueou as sobrancelhas, surpresa. — Romances? — repetiu. — Sério? — Muito sério. — Ok… isso já é raro — ela riu. — Mas deixa eu adivinhar: algo leve, histórias felizes? Rafael soltou uma risada longa, baixa e elegante, daquelas que carregam ironia e charme ao mesmo tempo. — Dramáticos — confessou. — Quanto mais intensos, melhor. Amelia abriu um sorriso genuíno, quase incrédulo. — Eu definitivamente não esperava isso. As aparências enganam mesmo. — Enganam bastante — ele concordou. — E você? O que faz quando não está no palco? — Filmes — respondeu sem hesitar. — Principalmente à noite. Gosto de histórias que me fazem esquecer o mundo por algumas horas. — Então temos algo em comum — Rafael disse, olhando-a com mais atenção. — No fundo, os dois fogem para histórias… só por caminhos diferentes. O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Pelo contrário. Era confortável. Denso de significados não ditos. Entre goles de vinho e sorrisos discretos, Amelia teve a estranha sensação de que aquela conversa simples — sobre idade, trabalho e hobbies — era o início de algo maior do que ambos estavam prontos para admitir. E Rafael, pela primeira vez em muito tempo, não sentiu vontade de olhar o relógio. A conversa seguiu tranquila por mais alguns minutos, como se o tempo tivesse desacelerado apenas para eles. Falaram de pequenas manias, de risadas fáceis, de silêncios confortáveis. Não havia pressa, nem necessidade de impressionar — apenas o prazer simples de estar ali. Quando a última taça foi esvaziada, Rafael fez um sinal discreto ao garçom e se levantou. — Posso te levar para casa? — perguntou, com a mesma naturalidade respeitosa que marcara a noite inteira. — Pode — Amelia respondeu, sem hesitar. O trajeto foi calmo. A cidade já dormia em partes, iluminada por postes espaçados e janelas acesas aqui e ali. Amelia indicou o caminho até uma rua tranquila, onde uma casa simples e modesta se destacava mais pela sensação de lar do que por qualquer ostentação. Rafael estacionou em frente ao portão e desligou o carro. — É aqui — ela disse, soltando o cinto devagar. Houve um breve silêncio antes que Amelia abrisse a bolsa pequena. — Me passa seu número — pediu. — Quero continuar essa conversa… outro dia. Rafael sorriu enquanto digitava o contato no celular dela. — Com prazer. A gente marca algo com calma. Ela guardou o telefone e o encarou. — Obrigada pela noite. Pela gentileza… pelo jeito como você foi comigo. — A voz saiu sincera. — Um verdadeiro cavalheiro. Rafael sentiu o peito aquecer. — Eu que agradeço — respondeu. — Fico lisonjeado em ouvir isso de você. Amelia abriu a porta, mas antes de sair, inclinou-se de volta para dentro do carro. Sem aviso, deixou um beijo calmo e suave na bochecha dele — simples, delicado… e absolutamente inesperado. — Boa noite, Rafael. — Boa noite, Amelia. Ela fechou a porta, atravessou o pequeno caminho até a entrada e entrou em casa sem olhar para trás. Rafael ficou ali por alguns segundos, imóvel. Então riu sozinho — um riso leve, quase bobo — passando a mão pelo rosto como alguém que ainda tenta entender o que acabou de acontecer. Ligou o carro e seguiu em direção ao próprio apartamento, no último andar do edifício onde morava. Enquanto subia, tinha certeza de uma coisa: Aquela noite não terminara ali. Ela apenas havia começado.






