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Capítulo 6 — Tiros Entre os Ciprestes

Dante aproximou-se por trás dela. Sua voz veio baixa, perto o suficiente para fazer os pelos da nuca de Sofia se arrepiarem.

Depende de quantos homens querem matar a filha dele.

Ela fechou os olhos por um instante.

Você sempre sabe como confortar uma mulher.

Conforto não mantém você viva.

E o que mantém?

Dante abriu caminho pelo corredor, indicando que ela seguisse.

Obediência.

Sofia soltou um riso curto.

Então talvez eu esteja condenada.

Dante olhou para ela de lado.

Começo a suspeitar disso.

Eles desceram uma escadaria larga de mármore. A mansão durante o dia era ainda mais impressionante. Sofia viu salas imensas, portas fechadas, corredores laterais, homens discretos com fones no ouvido, pinturas religiosas, esculturas antigas, vasos com flores brancas.

Tudo parecia civilizado.

Quase bonito.

Mas havia tensão sob cada detalhe.

Ao passarem pelo hall principal, uma porta lateral se abriu e Enzo Vitale apareceu.

Sofia ainda não o conhecia, mas soube imediatamente que ele era importante. Os outros homens mudaram de postura quando ele surgiu. Não exatamente medo. Algo mais próximo de deferência.

Dante — disse Enzo. — O carro blindado está pronto. Mandei dois veículos à frente e um atrás.

Dante assentiu.

Ótimo.

O olhar de Enzo pousou em Sofia.

Foi rápido.

Educado.

Mas ela sentiu como se tivesse sido avaliada, pesada e colocada em uma categoria que não lhe favorecia.

Signorina Ricci — ele disse.

O senhor é?

Enzo Vitale. Conselheiro da família Bellucci. Conheci seu pai.

Sofia prendeu a respiração.

Conheceu?

Sim. Antonio era... eficiente.

A pausa antes da palavra foi pequena, mas Sofia ouviu.

Queria dizer outra coisa?

Enzo inclinou a cabeça.

Hoje não é dia para isso.

Hoje é exatamente o dia para isso. Todo mundo parece ter uma opinião sobre meu pai, mas ninguém tem coragem de dizer na minha frente.

Dante se virou lentamente para ela.

Sofia.

Era um aviso.

Ela ignorou.

O senhor acha que ele era traidor também?

Enzo manteve a expressão neutra.

Acho que os mortos às vezes deixam perguntas demais para os vivos.

Isso não é resposta.

É a única que posso oferecer sem mentir.

Sofia sentiu raiva. Não explosiva como na noite anterior, mas funda, dolorida.

Então guarde para si.

O silêncio no hall ficou perigoso.

Um dos homens desviou o olhar.

Enzo não se ofendeu. Pelo contrário, pareceu quase divertido.

Sua filha tem o temperamento dele — disse ele a Dante, como se Sofia não estivesse ali.

Eu não sou filha dele — Dante respondeu, frio.

Sofia sentiu o absurdo da frase, mas não corrigiu. Estava cansada demais para discutir cada veneno.

Dante tocou de leve em suas costas para fazê-la andar.

O toque durou menos de um segundo.

Mesmo assim, Sofia sentiu.

O calor da mão dele atravessou o tecido do vestido e se instalou em sua pele como uma marca. Ela se afastou imediatamente, irritada consigo mesma por ter notado.

Dante também percebeu.

Claro que percebeu.

A porta principal se abriu.

O céu de Roma estava cinzento, mas a chuva havia parado. O ar cheirava a pedra molhada e ciprestes. Três carros pretos esperavam diante da entrada. Homens armados ocupavam posições discretas ao redor.

Sofia parou no topo dos degraus.

Era ridículo.

Era aterrorizante.

Parecia menos um enterro e mais uma operação militar.

Entre no carro — Dante disse.

Eu posso andar sozinha.

Não duvido.

Então pare de me tratar como carga perigosa.

Você é carga perigosa.

Ela o encarou.

Sou uma mulher indo enterrar o pai.

Dante se aproximou um pouco.

Você é uma mulher que carrega documentos que podem iniciar uma guerra entre famílias mafiosas. Aceite isso logo, Sofia. Sua vida antiga acabou ontem à noite.

A frase doeu porque parecia verdadeira.

Sofia desceu os degraus sem responder.

Dante abriu a porta do carro para ela.

Ela hesitou.

Cavalheirismo combina pouco com sequestro.

Entre.

Você sempre fala como se o mundo tivesse obrigação de obedecer.

O mundo? Não. Só as pessoas sob minha proteção.

Vigilância.

Hoje, os dois são a mesma coisa.

Sofia entrou.

Dante sentou-se ao lado dela.

O interior do carro era escuro, luxuoso e silencioso. Vidros blindados. Bancos de couro. Um cheiro sutil de tabaco e perfume masculino. Marco estava no banco da frente, falando baixo com o motorista.

O comboio partiu.

Roma passou pela janela em tons de pedra, ouro antigo e manhã fria. Sofia viu pessoas andando com guarda-chuvas fechados, turistas tirando fotos, uma senhora levando pão em um saco de papel, um casal discutindo na calçada. A vida continuava de forma ofensivamente normal.

Seu pai estava morto.

E a cidade não ligava.

Ela apertou as mãos no colo.

Dante percebeu, mas não disse nada.

Por alguns minutos, o silêncio entre eles foi quase suportável.

Então Sofia perguntou:

Quem era a Mano Nera?

Dante não olhou para ela.

É.

O quê?

Não era. É.

Então existe mesmo.

Sim.

E meu pai estava envolvido?

Ainda não sei.

Mas você acha que sim.

Acho que Antonio sabia mais do que deveria.

Isso não faz dele traidor.

Não faz dele inocente.

Sofia virou o rosto para a janela.

Você fala como se inocência fosse uma fantasia infantil.

No meu mundo, costuma ser.

Talvez seu mundo seja podre.

É.

A honestidade dele a surpreendeu.

Ela olhou para ele.

Dante continuava olhando para frente, o perfil duro iluminado pela luz cinzenta da manhã.

Então por que continua nele? — ela perguntou.

Porque alguém sempre precisa governar o inferno.

Sofia não soube o que fazer com aquela resposta.

Havia arrogância nela.

Mas também havia cansaço.

Meu pai acreditava que você podia ajudar — ela disse.

Seu pai acreditava em muitas coisas perigosas.

Você o respeitava?

Dante ficou em silêncio por tempo demais.

Sim.

O peito de Sofia apertou.

Então por que fala dele como se fosse lixo?

Dante finalmente virou o rosto para ela.

Porque respeitar um homem não impede que ele traia.

E se você estiver errado?

Então terei enterrado um homem honrado sob suspeita.

Parece pouco para você.

Não é pouco.

A voz dele mudou.

Quase imperceptivelmente.

Sofia notou.

Havia algo sob a frieza. Não culpa. Dante Bellucci parecia incapaz de se permitir uma emoção tão vulnerável. Mas havia peso.

Você já perdeu alguém? — ela perguntou antes que pudesse se impedir.

O rosto dele fechou.

Sim.

Quem?

Minha mãe.

A resposta foi tão seca que Sofia quase se arrependeu.

Quase.

Sinto muito.

Dante desviou o olhar.

Não sinta. Não a conheceu.

Não preciso conhecer alguém para entender a dor.

Algumas dores você não entende até que elas escolham você.

Sofia baixou os olhos.

Então acho que agora entendo um pouco.

O carro mergulhou em silêncio.

Dante não respondeu. Mas Sofia sentiu que algo entre eles havia mudado de posição. Nada grande. Nada seguro. Apenas uma rachadura fina no muro.

O cemitério ficava em uma área antiga, cercado por muros de pedra e ciprestes altos. Quando chegaram, o comboio inteiro se moveu como uma coreografia sombria. Homens desceram primeiro. Olharam ao redor. Tocaram comunicadores. Só então Dante saiu e ofereceu a mão a Sofia.

Ela olhou para a mão dele.

Grande.

Firme.

Perigosa.

Não preciso.

Hoje precisa.

Por quê?

Dante se inclinou o suficiente para que apenas ela ouvisse.

Porque se houver um atirador olhando para nós, quero que pareça que você pertence a mim.

Sofia sentiu o coração bater forte.

Eu não pertenço.

Os olhos dele escureceram.

Eu sei.

Mas a forma como disse deixou Sofia sem ar.

Ela aceitou a mão dele.

Foi um erro.

No instante em que os dedos dele se fecharam ao redor dos seus, Sofia sentiu uma segurança indesejada percorrer seu corpo. Odiou aquilo. Odiou mais ainda porque, por um segundo, quis se apoiar nele.

O caixão de Antonio Ricci já estava diante da pequena capela.

Simples.

Escuro.

Coberto por algumas flores brancas.

Sofia parou.

O mundo ficou distante.

Não ouviu mais os passos dos homens. Não ouviu o vento entre os ciprestes. Não ouviu Dante ao seu lado.

Viu apenas o caixão.

Seu pai estava ali.

Não no escritório.

Não na cozinha, reclamando que o café dela era fraco.

Não sentado à mesa com os óculos na ponta do nariz.

Ali.

Dentro de uma caixa.

Algo dentro dela se partiu com um som que ninguém mais ouviu.

Sofia soltou a mão de Dante e caminhou até o caixão. Tocou a madeira fria com os dedos trêmulos.

Papà — sussurrou.

E então chorou.

Não tentou ser forte.

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