DORMINDO COM O INIMIGO
DORMINDO COM O INIMIGO
Por: Fátima Souza
CAPÍTULO 1

O silêncio daquela noite fria não era comum. Era pesado... estranho... como se o próprio ar estivesse prendendo a respiração. Isabelly acordou assustada com o barulho que veio do andar de baixo.

— Mãe…?

A voz da menina ecoou baixinha pelo corredor, mas não houve resposta.

Isabelly tinha apenas dez anos, mas algo dentro dela dizia que alguma coisa estava errada.

A casa, estava quieta, seus pais deveriam estar dormindo àquela hora, sua irmã mais velha também, mas o barulho que escutara antes a fez caminhar para o quarto principal. O piso de madeira rangeu sob seus pés descalços. Entrou no quarto.

— Pai…? Tentou novamente, um pouco mais alto dessa vez.

Nada. A cama estava arrumada, perfeitamente arrumada. Ninguém estava no quarto. Ainda pensativa caminhou para o próximo quarto, o de sua irmã, mas ela também não estava lá. Ela saiu do quarto e desceu as escadas devagar, caminhou mais alguns passos, abraçando o próprio corpo, como se pudesse se proteger de algo que ainda não conseguia ver. Então veio o primeiro som, um estalo seco e depois… um baque. O coração dela começou a bater mais rápido.

— Mamãe…? Agora a voz tremia.

De repente viu uma trilha de gotas de sangue. “alguém estava machucado” pensou. Mas o estalo seguinte a fez para no lugar e logo mais dois estalos surgiram.

Um sussurro, de uma voz desconhecida, soou.

— Ainda falta uma.

A menina pareceu confusa de imediato, mas logo seu corpo reagiu antes da mente. Ela correu. Pequena, rápida, desesperada. Entrou no primeiro lugar que viu: o armário do corredor. Se escondeu entre casacos e caixas. Levou a mão à boca para abafar a respiração. Fizera do jeito que seus pais sempre ensinaram. Mas seu coraçãozinho parecia gritar dentro do peito.

Passos surgiram no corredor. Passos lentos, pesados, controlados. Alguém estava andando pela casa, alguém estava dominando aquele espaço. Isabelly fechou os olhos com força. Queria que aquilo fosse um pesadelo. Queria acordar. Mas o cheiro começou a invadir o ar.  Mesmo sem entender completamente, ela reconheceu. Sangue, era cheiro de sangue. As lágrimas escorreram silenciosas pelo seu rosto pálido. Isabelly queria chamar a mãe. Queria correr até o pai.  Ou abraçar a irmã. Mas algo dentro dela sussurrava: “Fique quieta… ou você morre também.”

Os passos se aproximaram, pararam bem diante do armário. O mundo inteiro parou junto, mas a maçaneta não girou. Houve um silêncio longo e cruel. E então… Os passos se afastaram. Isabelly não se moveu. Nem respirou direito, até que o tempo perdeu o sentido. Pareceu segundos… minutos…

Até que outro som veio. A porta da frente abrindo devagar. A menina, tremendo, se inclinou um pouco… só o suficiente para espiar pela fresta do armário. E foi aí que Isabelly viu. Um homem alto de postura impecável. Vestia um terno escuro, perfeitamente alinhado, como se estivesse saindo de uma reunião… não de um massacre. As mãos… limpas. Os cabelos bem cortados.

“Como alguém podia fazer algo tão horrível… e sair sem uma mancha sequer?” pensava ela.

Ele parou na porta por um segundo. Era como se soubesse, como se sentisse a presença dela. A menina prendeu o ar, os olhos arregalados, cheios de terror.

— Sobreviventes… A voz dele veio baixa, quase um pensamento. — Sempre causam problemas.

Isabelly levou a mão à boca com mais força.

“Não faça barulho.  Não faça barulho. Não faça barulho.” Dizia em pensamentos.

Depois... um passo, dois, três. A porta se fechou e ele foi embora. Mas... o inferno ficou. O silêncio voltou, mas agora não era vazio, era cheio de morte.

A menina ficou ali por muito tempo. Até que as pernas pararam de tremer. Até que o medo virou algo mais profundo… algo frio. Quando finalmente saiu do armário, correu para encontrar os pais. Mas o mundo de Isabelly desmoronou.

No corredor, entre a sala e a área gourmet estava o corpo da mãe ensanguentado e logo a frente o corpo do pai e da irmã. Ela sentiu todo seu corpo tremer. Ficou paralisada por alguns segundos. Depois correu até o telefone e ligou para emergência. Não demorou muito, logo a emergência chegou e a policia também. Seus pais estavam mortos, sua irmã também. E aquele momento… algo dentro de Isabelly também morreu. Mas outra coisa nasceu, algo silencioso, paciente e perigoso.

Isabelly enxugou as lágrimas com as costas da mão, ainda tremendo. E sussurrou, com uma voz que já não era mais de criança:

— Eu vou te encontrar. E quando isso acontecer… Seus olhos, ainda cheios de dor, endureceram. — Você vai implorar para não ter me deixado viva.

Aquela noite terminou. Mas, para Isabelly… Nunca acabou.

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