CAPÍTULO 2

O som seco do disparo ecoou pelo campo de treinamento. Alvo atingido. Bem no centro. Isabelly não piscou. Não comemorou. Não respirou aliviada. Apenas abaixou a arma com precisão milimétrica, como se aquilo fosse… nada.

— Impressionante… como sempre.

A voz masculina veio atrás dela. Isabelly não se virou de imediato. Sabia exatamente quem era.

— Você devia tentar errar de vez em quando. Continuou ele. — Só pra parecer humana.

Isabelly finalmente olhou por cima do ombro. Fria. Controlada. Indecifrável.

— E você devia parar de falar tanto. Respondeu, seca. — Só pra parecer inteligente.

O agente Henrique Motta sorriu de lado.

— Ainda charmosa.

— Ainda inútil.

Silêncio. Ele suspirou, cruzando os braços.

— Reunião em cinco minutos. Caso novo. Crime organizado.

Isabelly já estava caminhando antes mesmo dele terminar a frase. Sem pressa. Sem hesitação. Como alguém que já sabia exatamente o que encontraria.

A sala de briefing estava cheia. Agentes experientes. Olhares atentos. Expectativa. Mas quando Isabelly entrou… o ambiente mudou. Não era respeito. Era algo mais próximo de cautela. Talvez até medo. Isabelly se sentou, cruzando as pernas, postura impecável. Sem trocar olhares. Sem socializar. Sem existir além do necessário. O diretor iniciou:

— Temos movimentação de uma rede de alto nível. Tráfico, lavagem de dinheiro, execuções…

Isabelly observava tudo em silêncio. Analisando. Absorvendo. Calculando.

— Esse grupo atua há anos sem deixar rastros consistentes. Extremamente organizado. Extremamente limpo.

Um leve movimento no olhar dele. Interesse.

— Precisamos de alguém que pense como eles. Que antecipe movimentos.

Pausa. O diretor olhou diretamente para Isabelly.

— Precisamos de você.

Isabelly não respondeu. Não precisava.

***

Dois dias depois, Isabelly estava sozinha na sala de análise. Fotos espalhadas, relatórios, nomes, datas, mortes. Isabelly andava de um lado para o outro, como um predador estudando o território. Parou diante de uma imagem. Um corpo. Execução limpa. Sem bagunça. Sem erro. Sem emoção. Seu olhar mudou. Quase imperceptível. Mas mudou.

— Sempre o mesmo padrão…  Seria ele? Murmurou.

Alguém entrou. Fran Maroto falou assim que a viu.

— Sabia que ia te encontrar aqui.

Isabelly não se virou.

— Então veio perder tempo.

— Vim te avisar.

Isabelly finalmente olhou. Era seu superior direto. Ele estava sério. Mas cansado, parecia preocupado.

— Você está se aproximando demais disso.

— Isso é o meu trabalho.

— Não.  Ele deu um passo à frente. — Isso está se tornando pessoal.

Houve um silêncio pesado.

— Já faz anos. Ele continuou. — Você precisa deixar esse caso...

A voz dela cortou o ar, fria, definitiva.

— Eu não deixo pendências.

— Eu sei que foram eles que mataram sua família. Maroto disse, mais baixo agora. — Mas isso não te dá o direito de...

Ela o interrompeu bruscamente.

— Me dá motivo.

Os olhos de Isabelly cravaram nos dele. Sem emoção, sem dor visível. Mas havia algo ali, algo muito perigoso.

— Olha só chefe, eu não estou pedindo justiça. Ela deu uma pausa — Estou terminando o que começaram.

O Maroto passou a mão no rosto.

— Isso vai te destruir.

Isabelly inclinou levemente a cabeça. Quase curiosa.

— Já tentou, mas não conseguiu.

— Você está fora do caso Isabelly. Disse ele.

Houve um breve silêncio entre eles. Maroto a tirou do caso, mas sabia de uma coisa: aquela mulher na frente dele… Não era mais a criança que sobreviveu. Era algo moldado pela dor. Aperfeiçoado pela obsessão. E movido por um único objetivo. Vingança. E ele a conhecia o suficiente para ter certeza disso.

***

Horas depois, já em seu apartamento, o ambiente era exatamente como Isabelly:

Organizado, minimalista, frio, sem lembranças, sem passado. Exceto por uma coisa. Uma caixa, guardada, escondida, intocável… quase sempre.

Isabelly hesitou por um segundo, mas abriu. Dentro, havia apenas alguns itens. Fotos antigas, um objeto quebrado e um desenho infantil. Era uma casa rabiscada com lápis de cor, uma família de mãos dadas ao lado de uma casa enorme. E uma figura… do lado. Alta, escura e sem rosto.

Isabelly passou os dedos sobre o papel com a respiração controlada. Olhou firme.

— Eu ainda estou aqui… Sussurrou — E eu não esqueci.

Ela fechou a caixa com cuidado. Como se estivesse selando algo, ou preparando. Porque, no fundo… Isabelly sabia, estava cada vez mais perto do assassino. E dessa vez… ele não sairia limpo.

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