Bom, para começar nossa história, me chamo Vitória de Castro, tenho 27 anos e sou cirurgiã geral. Nesse exato momento, estou pisando novamente em solo paulistano — um lugar que eu jurei, por anos, que jamais teria coragem de voltar.
Tenho dois filhos: Gael e Melinda, ou apenas Mel, como costumo chamá-la com todo o carinho. Eles são frutos, digamos assim, de um deslize que cometi no passado. Um deslize do qual, ironicamente, não me arrependo nem por um segundo, pois foi exatamente esse "erro" que me deu os meus filhos, o grande amor da minha vida. Por eles, eu sou capaz de matar e morrer, sem pensar duas vezes.
Sabe por que digo que foi um deslize? Bom... vamos raciocinar com a cabeça de hoje: como é que uma pessoa se entrega de corpo e alma a um completo desconhecido, que nunca viu na vida, sem usar proteção nenhuma? Era praticamente pedir para engravidar ou pegar alguma doença, não é mesmo? Sorte a minha que o resultado disso foi o melhor do mundo. E digo mais: esse não foi o meu único deslize não. Vou contar um pouco de como tudo começou, para vocês entenderem direito como cheguei até aqui.
Quando eu tinha apenas dez anos, minha mãe, sem condições de me criar e sem perspectiva, me entregou aos cuidados de uma tia distante. Ela trabalhava como empregada doméstica na casa de uma família muito rica e influente da cidade. Desde aquele dia, há dezessete anos, não voltei a ver a minha mãe, nem recebi notícias, nem um sinal de vida dela. Naquela mansão, eu fazia de tudo: arrumava quartos, cozinhava, limpava o chão, lavava e passava roupas... trabalhava feito uma condenada, acordando antes do sol nascer e dormindo já de madrugada. Mas eu tinha um objetivo claro na cabeça: juntar dinheiro para pagar os meus estudos, pois desde menina eu sonhava em ser médica, em cuidar de vidas, em ter uma profissão.
Sempre levei uma vida de trabalho árduo: trabalhava durante o dia e estudava à noite, cansada, mas determinada, pois tinha plena consciência de que não queria aquela realidade para mim. Minha tia até que me ajudou no começo, foi uma boa companheira por anos... apesar de, mais tarde, ter me virado completamente as costas quando eu mais precisei de apoio e de família.
Minha vida começou a mudar — ou melhor, a desmoronar de vez — quando eu tinha quinze anos. Foi quando Arthur, um dos filhos dos meus patrões, voltou para morar no Brasil, depois de anos estudando e morando fora do país. Ele era seis anos mais velho que eu, dono de uma beleza exuberante, de um sorriso fácil e uma lábia que fazia qualquer uma cair. Eu, novinha, inexperiente, e já acostumada a sofrer preconceito por ser cheinha, fora dos padrões magros e perfeitos que todos admiravam, fui completamente enfeitiçada por aquela atenção.
A tonta aqui se apaixonou perdidamente. Tivemos um relacionamento de cinco anos, tudo escondido, às escâncaras, longe dos olhos da família. Ele sempre dizia que "era melhor assim por enquanto", que ainda não poderia me assumir publicamente para a família por questões de status e dinheiro, e eu, ingênua e apaixonada, aceitava tudo calada, achando que um dia ele iria me dar o devido valor. Foram anos assim, de migalhas, até que os pais dele descobriram tudo e me colocaram para fora da casa, na calçada, como se eu fosse um lixo. E o pior: me chamaram de interesseira, de aproveitadora, disseram que eu queria dar o famoso "golpe do baú" no filhinho deles, acredita? Me humilharam de todas as formas possíveis, me xingaram, me chamaram até de prostituta.
E aí vocês me perguntam: e ele? O Arthur? Bom... ele foi pior do que todos. Diante da família, me humilhou mais ainda, disse coisas cruéis, mentiu, me fez sentir nojo de mim mesma, como se toda a culpa e toda a sujeira fossem minhas. Ele foi um canalha, um estúpido, uma pessoa desprezível que eu demorei muito tempo para apagar da memória.
Minha tia, que eu achava que era minha família de sangue, também não ficou do meu lado. Jogou tudo na minha cara, disse que eu tinha provocado, que eu tinha me dado ao luxo, e deu a entender que, para ela, os patrões ricos valiam muito mais do que a própria sobrinha que ela criou.
Na época, eu já estava cursando Medicina, quase na metade do caminho, cansada, mas firme. Depois de todo aquele pesadelo, Lavínia — minha única amiga de verdade, a irmã que a vida me deu — me convidou para ir morar com ela no Rio de Janeiro. Consegui transferir minha matrícula para uma faculdade de lá, pois tudo o que eu mais queria era colocar quilômetros de distância entre mim e São Paulo, esquecer tudo de ruim que havia passado e, principalmente, apagar a existência daquelas pessoas que me fizeram tanto mal.
Uma noite, poucos dias antes da viagem, Lavínia me encheu a cabeça para irmos a um baile funk em uma comunidade carioca. Aceitei, pois seria a nossa despedida da cidade, uma forma de colocar um ponto final no sofrimento. Curtimos a noite toda, dançamos, rimos, tentamos esquecer os problemas... mas por volta das três da manhã, o clima mudou completamente e começou um tiroteio intenso. Pânico geral. Acabei me perdendo de Lavínia no meio da multidão correndo, não conhecia absolutamente nada naquele lugar, vielas e becos sem saída, e saí correndo em desespero, sem rumo, com o coração na boca.
Estava apavorada, vi gente cair ao meu lado, ouvia gritos e os tiros não paravam de estourar perto de mim. Foi então que, ao entrar em um beco escuro para me esconder, bati de frente com uma montanha de músculos. Ele devia ter uns 1,90m de altura, corpo definido, imponente, uma presença que tomava todo o espaço. Fiquei parada, sem reação, olhando para cima, completamente em transe, sentindo o perigo e uma atração estranha ao mesmo tempo. Só voltei a mim quando ouvi uma voz grossa, grave e rouca dizer:
— Cê é louca, muleque? Quer morrer mesmo, correndo feito doida no meio do fogo cruzado? — e em seguida ele me puxou pelo braço com força, me arrastando para dentro de um barraco pequeno ali perto, trancando a porta.
Foi uma sensação estranha, inexplicável. Quando ele me tocou, mesmo daquele jeito bruto e apressado, tentando me fazer ficar quieta e segura, senti um arrepio que percorreu todo o meu corpo, me causando sensações que eu nunca tinha sentido em toda a minha vida, nem nos cinco anos ao lado de Arthur. E foi ali, dentro daquele barraco apertado, no meio de uma invasão policial e de muito medo, que eu vivi um dos melhores momentos da minha vida, com um completo desconhecido. A única coisa que sei sobre ele é o seu primeiro nome: Guilherme. Loiro, dos olhos azuis brilhantes e penetrantes, alto, forte, com uma cara de mal, de quem ninguém encosta... uma imagem que ficou gravada nos meus olhos, e que me faz suspirar e chorar até hoje.
Quando consegui sair da favela, já passava do meio-dia, com o corpo dolorido, mas a alma estranhamente em paz. Peguei minhas coisas e fui direto para o Rio de Janeiro, recomeçar. Dois meses depois, descobri que estava grávida. E eu tinha certeza absoluta: meus filhos eram filhos de Guilherme. Como eu tinha um mês que não tinha contato com Arthur, e com ele sempre nos protegíamos — nunca transamos sem camisinha e eu ainda tomava anticoncepcional direto. Na época, tinha cerca de quinze dias que eu tinha parado de tomar o remédio por puro esquecimento e correria da faculdade, mas com Arthur não tinha acontecido nada. Já com Guilherme... bastou ele chegar perto, ouvir a voz dele no meu ouvido, que eu esqueci até o meu próprio nome e todas as regras do mundo.
Ah, e antes de me expulsarem da mansão, os pais de Arthur me obrigaram a fazer vários tipos de exames, para terem certeza absoluta que eu não estava grávida do filho deles, para não terem herdeiros indesejados. O que o dinheiro não faz, não é mesmo? Fizeram exames que eu nem sabia que existiam, me viraram do avesso, só para garantir que eu não levaria nada deles.
O ponto é que, aqueles filhos da puta, depois de toda a humilhação, depositaram uma boa quantia na minha conta. Estavam com medo que eu os processasse ou que criasse confusão na vida perfeita deles. Foram cem mil reais. E foi exatamente com esse dinheiro que paguei o restante da minha faculdade, comprei o que precisava e consegui levar a minha gravidez adiante com dignidade, pois seria impossível estudar, trabalhar e ainda cuidar de um bebê sozinha. E aí vocês me perguntam: e você aceitou o dinheiro deles, depois de tudo o que fizeram? E eu respondo sem vergonha nenhuma: sim, aceitei, e ainda achei foi pouco. Cem mil reais é muito aquém de todo o sofrimento, de toda a dor e de todas as humilhações que eles me fizeram passar.
Esse é um pouquinho do meu passado, de onde eu vim e o que eu já enfrentei. Agora, vamos voltar ao presente, e ao motivo pelo qual estou aqui novamente, enfrentando os meus fantasmas.