Mundo ficciónIniciar sesión--Mãezinha, olha o Gael! — Mel me chama, toda irritada, apontando para o irmão que fazia careta para ela.
— O que foi, amor? — pergunto, me agachando um pouco e olhando para ele. — Não te fez nada, não é mesmo, moleque? Para de implicar com a sua irmã. — Ih, vocês dois nem começam a brigar, viu? Estamos em um lugar novo, se comportem — aviso, olhando sério para os dois, mas já sorrindo por dentro com a cena. Melinda é toda extrovertida, faz amizade com qualquer um em dois minutos, fala pelos cotovelos e está sempre sorrindo, puxando conversa com todo mundo. Já o Gael é o oposto: é bem na dele, sério, todo fechado, observa tudo calado e não se abre com ninguém fácil. Ele lembra muito o pai, não só na aparência — loiro, olhos claros, traços fortes e marcantes — mas também no jeito reservado, quieto e observador. Na verdade, os dois são a cara do pai. Não puxaram nada da mamãe aqui, infelizmente ou felizmente. — Mãezinha, cadê a dinda? — Gael pergunta, já com aquele jeito de quem está perdendo a paciência de esperar em pé. — Tenha calma, meu amor. Ela já tá chegando, deve ter pego trânsito ou demorou para estacionar — tento acalmá-lo, alisando seus cabelos, mas ele me olha com uma cara de tédio que só ele sabe fazer. Mel, por outro lado, não tá nem aí, se entretém com qualquer coisa, seja uma formiga andando no chão ou um avião passando alto no céu. — Olha ela, mãezinha! — Mel aponta para a entrada, pulando de alegria. Ergo o olhar e vejo Lavínia vindo em nossa direção, com aquela animação de sempre, correndo e acenando. Quando ela chega perto, os meus bebês simplesmente se jogam nos braços dela, como se não se vissem há anos, tamanha a saudade. — Que demora, dinda! — Gael reclama, ainda emburrado, mas com os olhos brilhando de felicidade. — O Gael tava quase explodindo de tanta ansiedade, dinda, ficou todo emburrado — conta Mel, rindo da cara do irmão. — Desculpa, meus amores, a dinda se atrasou um pouquinho, mas já estou aqui e não vou mais sair do lado de vocês! — ela faz uma carinha de pidona, daquelas que ninguém resiste, enchendo os dois de beijos. Lavínia é a pessoa que mais estraga os meus filhos no mundo. Por causa dela, eles são assim tão dramáticos, manhosos e mimados. Mas eu não ligo, porque ela é família, a única que realmente importa. — Eu desculpo, dinda, porque tava com muita saudade — Gael diz, baixinho, abraçando o pescoço dela, e meu coração enche de amor ao ver a cena. — A dinda também tava morrendo de saudade de vocês, meus bebês lindos! Mel vem correndo até mim, e eu me abaixo para ficar da altura dela, segurando os seus bracinhos. — Mãe, tô com fome! — ela avisa, fazendo biquinho e passando a mão na barriga. — Lavínia, depois você mata a saudade deles direito, vamos logo que estamos todos com fome! — chamo, já pegando as malas que estavam ao lado. Só assim para essa maluca largar as crianças. Se deixar por conta dela, passaríamos o dia inteiro ali, ela enchendo eles de perguntas, querendo saber de cada detalhe da vida, da escola, das brincadeiras. Ela vem até mim de braços abertos, com aquele sorriso enorme no rosto. — Ô meu amor, vem cá me dar um abraço apertado! Também tava com saudade de você, minha rapariga. Que bom que voltou, que bom que está aqui! — Bicha falsa, sabia que você tava era com saudade de mim — brinco, rindo, e retribuo o abraço forte, sentindo o conforto que só ela me dá. Lavínia e os meus filhos são a minha única família de verdade. Faço tudo por eles, daria a minha vida para vê-los bem, protegidos e felizes. Logo em seguida, saímos da área de desembarque e seguimos a maluca, que caminha animada em direção a um carro preto estacionado um pouco mais afastado, em uma área mais vazia. — Olha, o carro tá bem ali! — ela aponta, toda orgulhosa. — Esse carro aí, dinda, é seu? — Gael pergunta, todo curioso, olhando para o veículo grande, novo e bonito. — Ih, muleque, a rica aqui é a sua mãe, eu não tenho carro não! Esse é de um amigo que me ajudou, um amigo da comunidade onde eu tô morando — ela explica, piscando para ele. — Que amigo, Lavínia? Tá aqui há dois meses e já tá com essa intimidade toda de pegar carro emprestado? — questiono, desconfiada, cruzando os braços e olhando firme para ela. Conheço muito bem as escolhas da minha amiga. — Não começa, Vitória... — Não tô dizendo nada, só perguntei, né? — Depois te conto tudo, menina. Não te falei nada antes porque sabia exatamente qual seria a sua reação, só isso. Só dei uma encarada bem séria pra ela, aquela cara de mãe que ninguém ousa contrariar. Conheço muito bem Lavínia: quando ela entra em um relacionamento ou faz uma amizade nova, ela se entrega de corpo e alma, se apega rápido demais e, na maioria das vezes, depois sofre horrores. Para vocês terem ideia: ela já namorou um cara que conheceu em uma festa, e em menos de uma semana já se declarava para ele como se fossem almas gêmeas. O mesmo cara, um mês depois, a abandonou sem dar explicações, sumiu do mapa. Ela passou oito dias trancada no quarto, chorando, perdeu o emprego e quase perdeu a saúde na época de tanto sofrer. Passou um tempo sozinha, mas depois já estava lá de novo, quebrando a cara outra vez. Os homens não a levam a sério, ela se doa por completo e acaba sempre machucada. Não gosto de vê-la desse jeito, porque ela é linda, trabalhadora, inteligente... não sei por que insiste em se rastejar por quem não vale a pena. Ao chegarmos perto do carro, vejo um homem parado encostado na porta do motorista. Alto, moreno, pele escura, corpo atlético e largo, todo trajado de preto, com correntes grossas no pescoço e um olhar que já entrega: pinta de bandido, daqueles que ninguém quer encontrar na rua à noite. Onde essa maluca foi se meter, meu Deus? penso, já sentindo a ansiedade bater forte no peito. — Olha, LK! Essa é minha amiga Vitória, que te falei tanto, a mãe dos meninos. Vitória, esse é o LK, um amigo de lá da comunidade, quem me ajudou com tudo — ela apresenta, toda sorridente e à vontade. — Bom dia, LK — cumprimento, educada, mas mantendo distância e cuidado. — Fala aí, mina. Tudo de boa? Seja bem-vinda — ele responde, me olhando de cima a baixo com uma carinha de cafajeste que não vale um centavo. Sinto um calafrio estranho com aquele olhar. — Foi ele quem arrumou a casa para nós, Vitória. E também ajudou com a mudança e tudo mais, ele é muito gente boa — ela completa, olhando para o tal do LK com admiração. — Ah, então muito obrigada pela ajuda, LK. Fico agradecida de coração — falo, sincera, afinal, ele ajudou a minha amiga. — Já é, precisava não. A comunidade é daora, o lugar é tranquilo, todo mundo se ajuda, vocês vão gostar de lá, com certeza. E esses menozinhos aí? São teus? — ele pergunta, apontando com a cabeça para as crianças que brincavam perto. — São meus bebês, sim. Esse é o Gael, e essa é a Melinda. Crianças, falem com o moço, educadamente — peço. — Oi, tio! Eu sou a Mel, prazer! — ela já chega toda falante, sorrindo e acenando com a mão. Essa menina não tem medo de ninguém, puxou a personalidade forte da mãe. — E o menozinho aí, não fala não? — LK pergunta, olhando fixamente para Gael, que o encara bem serinho, todo emburrado, com aquela cara de poucos amigos que chega até ser engraçada de tão idêntica ao pai. — Ele é assim mesmo, não liga. É fechado na dele, observa tudo, mas quando pega amizade, vira o maior tagarela e brincalhão — explico, puxando Gael para mais perto de mim. — Cê é louco, esse daí parece meu parça, o Grego. Mesma cara de emburrado, mesma postura de quem manda. É a cara do dono do morro, pode ter certeza — ele fala rindo. — Vamos logo, neguinha, não posso demorar muito não, tenho coisa pra resolver lá em cima. Ele fala para Lavínia, em seguida pega todas as nossas malas com facilidade impressionante e coloca no porta-malas, como se fossem penas. O trajeto até a comunidade levou cerca de quarenta minutos. Lavínia falou o caminho inteiro, contando tudo o que havia de bom, bonito e útil no lugar, as ruas, o comércio, a segurança. Pelo que entendi das suas explicações e das falas do LK, o tal do Grego é o dono do morro, e LK é o seu braço direito, o fiel escudeiro, quem resolve tudo. Para vocês terem ideia de onde essa maluca foi se meter... eu vou matar essa menina, com certeza, de tanto susto que ela me dá. Chegamos à comunidade e LK nos levou direto a um restaurante simples, mas que ele garantiu ter a melhor comida da cidade, um tempero caseiro que é sucesso. Meus bebês já reclamavam de fome há horas, e a minha amiga não preparou nada em casa, alegando que não teve tempo de organizar as coisas. Se eu não a conhecesse há anos, até acreditaria nela, mas conheço bem a sua preguiça e correria. Preferi vir morar aqui justamente porque o meu novo emprego é em um hospital público localizado dentro da região. Fica muito melhor para mim, mais perto, e mais seguro para as crianças do que ficar andando por bairros distantes de madrugada, como costumo sair de plantão na emergência. Estávamos todos sentados, comendo bem, conversando alto e rindo, até que o LK acena para alguém que chega na porta do estabelecimento e grita, alto e claro: — Grego! Diga aí, parça, vem cá dar um alô! Na mesma hora, ouço uma voz grave, rouca, forte e inconfundível responder de lá, com aquele tom que eu reconheceria em qualquer lugar: — Fala aí, LK. Tudo em ordem por aqui? Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo, dos pés a cabeça, um choque térmico que me deixou gelada. Conheço essa voz. Conheço cada tom, cada pausa, cada vibração dela. Não ouso olhar para trás. Na verdade, sinto que perdi todas as minhas forças nesse exato momento. Queria poder cavar um buraco no chão e me enterrar viva, agora. — Senta aqui com a gente, irmão! Deixa eu te apresentar a amiga da neguinha, que acabou de chegar de viagem, veio morar aqui agora — LK chama, todo solícito, arrastando uma cadeira. O homem se aproxima devagar, passando por entre as mesas, e Lavínia, sem noção nenhuma e toda alegre, vira-se para mim e fala alto, sorrindo: — Vitória, esse é o Grego, amigo do LK e o dono do morro, o chefe de tudo e todos daqui! Pronto. Foi o suficiente para me fazer tremer inteira, as mãos suaram frio. Como assim, dono do morro? Porra, um traficante! Meu Deus, eu vou morrer, eu vou desmaiar aqui mesmo, na frente dos meus filhos. — Vitória? Tô falando com você, menina, tá ouvindo? — Lavínia me chama, mexendo no meu ombro, estranhando o meu silêncio e a minha cara de pânico. — Vitória, você tá bem, amiga? Ficou pálida de repente, parece que viu um fantasma... — Me... me des... desculpa, é que... foi uma viagem muito cansativa, acho que a fome também. Muito prazer, Grego, né? — tentei soar forte e natural, mas tenho certeza que falhei miseravelmente. Minha voz saiu quase um sussurro, fraca. — Ih, mina, precisa ficar com medo não, não mordo ninguém não, pode ficar tranquila — ele diz, com aquele tom de voz que mexe comigo até hoje, parando exatamente ao meu lado. Levanto o rosto devagar, com o coração disparado, e quando os meus olhos encontram os dele, o mundo ao meu redor para de girar. Ele me analisa por um tempo longo, um olhar penetrante, que vai do meu rosto até as minhas mãos trêmulas, e volta para os meus olhos novamente, como se estivesse vasculhando a minha alma. E eu, internamente, faço uma oração pedindo a Deus, a todos os santos e anjos, que ele não me reconheça, que ele não lembre daquela noite. — Te conheço de algum lugar? — ele pergunta, franzindo a testa, ainda me olhando fixamente, como se tentasse desvendar um enigma. Soltei um leve suspiro, quase de alívio misturado com desespero, desviando o olhar rápido para as crianças. — Acho que não... deve ser a primeira vez que nos vemos, senhor Grego.






