Mundo ficciónIniciar sesiónFaína Stepanov
Não queria que terminasse, mas quando o meu orgasmo explodiu, ele deixou fluir o seu próprio prazer e preencheu o preservativo com a sua porra.
Estava ofegante, mas precisava terminar aqui e lutar com os meus demônios sozinha assim que terminasse os negócios que tinha para resolver aqui. Quando nos vestimos em silêncio, ele pegou meu rosto entre as mãos. Senti como as suas palmas eram ásperas e cheias de calos, parecendo as de quem trabalha com aço ou cordas.
— Eu vou te encontrar de novo — ele disse e eu sorri.
— Vai tentar. — Respondi claramente.
Foi um erro e deveria ter sumido depois dessa noite, isso era o que eu sempre fazia.
Mas havia algo naquele olhar, é como se ele me conhecesse de algum lugar e eu simplesmente não conseguia ligar o rosto dele a essa sensação de conhecê-lo.
Hugo me olhava como se visse não a assassina fria e mercenária que sou. Ele via uma mulher totalmente diferente da que já matou com as próprias mãos mais vezes do que consegue contar. Incrivelmente, ele me via como humana, algo que tenho certeza de que já não sou mais.
E isso foi a coisa mais aterrorizante que já me aconteceu.
Agora, parada em frente ao prédio de Elena, dando o meu último trago no cigarro, observo a noite de Verona pesando sobre meus ombros e eu me pergunto: o que estou fazendo?
O teatro romano fica do outro lado da cidade. Conheço bem o lugar que tem as paredes de pedra que guardam os ecos de tragédias antigas. É um cenário apropriado para o que está por vir.
Apago o cigarro na sola da bota e começo a andar naquela direção.
A cada passo, sinto o aperto no peito. Não é medo, porque essas sensações, conheço muito bem. Tão bem que já a domestiquei e a transformei em combustível. O que estou sentindo é outra coisa, como se estivesse ansiosa para ser devorada por ele novamente.
Sinto o mesmo frio na espinha que senti na primeira vez que puxei um gatilho contra um homem vivo.
Ando rápido e cheguei ao teatro vinte minutos antes. Ergo o olhar e vejo que a lua está alta no céu e as sombras das colunas romanas se alongam como dedos acusadores em minha direção. Não há ninguém por perto, ouço apenas o vento batendo contra o meu rosto e o cheiro de terra molhada subindo do chão.
Caminho até uma das pilastras e me encosto enquanto espero por ele.
Meus sentidos estão em alerta máximo. Estou com a minha audição com foco total e cada ruído, por menor que seja, como o farfalhar de uma folha ou o guincho distante de um morcego, me parece uma ameaça.
Então sinto a sua presença.
Não ouço seus passos e tão pouco vejo sua silhueta. Apenas consigo sentir a sua presença. A mudança na pressão do ar e um calafrio que não vem do vento.
— Você veio. — Ele disse.
A voz dele surge da escuridão e me viro lentamente.
Hugo está a três metros de distância. A luz da lua estava sobre o seu rosto, revelando os ângulos duros que formam o seu rosto. A barba ruiva mal feita e os olhos azuis que mais parecem cinza prateado nesta claridade.
Ele está usando uma jaqueta de couro preta e uma camisa escura com as mangas dobradas até os cotovelos. Nos braços, vejo cicatrizes antigas e algumas delas reconheço como uma incisão de faca.
— Você não é uma mulher tão fácil de encontrar, Stepanov — ele diz, e seu sotaque escocês apara as palavras como navalhas.
— Eu não quero ser encontrada. — Digo, sustentando o seu olhar.
— Então, por que respondeu minha mensagem?
A pergunta fica entre nós como uma lâmina em equilíbrio. Eu não tenho uma resposta pronta para a sua pergunta e isso me enfurece.
— O que você quer de mim? — Minha voz sai mais baixa do que pretendia, o que me torna mais vulnerável.
Hugo dá um passo à frente e depois outro.
— Quero saber a verdade. — ele disse, olhando fixamente em meu rosto.
— A verdade sobre o quê?
— Sobre quem você realmente é. — Sorrio e nego com a cabeça.
Ele para a um braço de distância. Posso sentir o calor irradiando de seu corpo, o cheiro de couro e uísque.
— E se você não estiver preparado para ouvir? — desafio.
— Sempre estou pronto, não importa o que me dirá.
Nossos olhos se mantêm fixos um no outro e por um segundo o mundo inteiro desaparece. Não há a linda Verona, nem essa noite e muito menos o meu passado. Apenas nós, dois predadores circulando um ao outro antes de dar o bote.
— Você está com medo — ele observa e há um tom de surpresa na voz.
— Você está enganado.
— Não estou. — Ele levanta a mão e toca meu rosto.
Sinto a mesma aspereza ao roçar minha bochecha, e eu não me afasto.
— Seu coração está acelerado. Suas pupilas estão dilatadas. Você não está com medo de mim, Faína. Se não é de mim, é de algo que eu posso despertar em você.
A verdade dói como um tiro em meu peito.
Agarro o pulso dele, apertando com força suficiente para deixar meus dedos marcados.
— Você não me conhece. — Digo de cabeça erguida.
— Me dê uma chance para conhecê-la.
O pedido é simples e mesmo sendo tão simples, é devastador para a minha alma.
Ninguém nunca me pediu uma chance. Todos aqueles homens sempre queriam meu corpo e meu silêncio. Diferente de todas as mulheres com quem já me envolvi, elas, sim, me pediam uma chance.
Uma que nunca poderia dar por ser filha de Oskar Stepanov, o Lobo de Deus, aquele que age nessa terra como um dos cavaleiros do Apocalipse, matando seus desafetos.
— Por que você se importa? — sussurrei.
Hugo se inclina na minha frente e, quando a sua testa toca a minha, seus olhos ficam tão perto que posso ver as minhas próprias falhas refletidas neles.
— Porque quando eu te vi naquele bar, pela primeira vez, eu me senti vivo.
O beijo que ele me dá não é como o de Elena. Não é uma reivindicação, muito menos de posse. Parece muito mais uma revelação.
Sua boca encontra a minha com uma fome contida, como se ele estivesse se segurando para não me devorar inteira ali mesmo. Uma vez que nunca me entrego, sinto meus joelhos amolecerem.
Minhas mãos sobem para seus cabelos ruivos e os puxei com força, arrancando um gemido dele que ecoa nas pedras antigas.
— Aqui não — ele murmura contra meus lábios. — Tem um lugar preparado para você.
— Não me importo que me foda aqui… — Digo e ele se afasta.
Vejo em seus olhos um brilho que vi poucas vezes na vida. E uma delas é sempre que meu pai Oskar olha para a minha mãe Rebeka.
— Mas eu me importo.
Ele me afasta suavemente e a perda do contato traz uma enorme frustração. Quero sentir o toque dele em minha pele que está queimando de tesão.
— Você merece mais do que uma foda contra uma parede romana! — ele diz, a frase é tão absurda e tão fora do personagem, que quase rio.
— Você não sabe o que eu mereço. — Retruco.
Ele pega minha mão. Seus dedos entrelaçam os meus e, por um segundo, sou apenas uma simples mulher segurando a mão de um homem que, quem visse, acreditaria que somos um casal.
— Venha comigo.
Eu deveria dizer não.
Deveria sacar a faca que carrego na bota e enfiá-la no pescoço dele, depois desaparecer na noite como sempre faço.
Mas meus pés se movem na mesma direção na qual ele me leva. Passei a seguir Hugo Furquim para dentro da escuridão do teatro romano, onde ainda podia ver em suas paredes parte das tragédias que estavam sendo retratadas nas paredes de pedra.
— Para onde estamos indo? — pergunto, sentindo um pouco de ansiedade.
— Para um lugar onde ninguém vai nos encontrar.
A resposta deveria me aterrorizar. Mas em vez disso, apaga o alerta vermelho no fundo da minha mente.
Porque, enquanto caminhamos por corredores escuros e passagens secretas que ele parece conhecer bem demais, uma pergunta começa a se formar em meus lábios:
Como ele sabe tanto sobre Verona?
E como ele sabia que estaria hoje aqui?
E, acima de tudo…
Por que seus passos não fazem barulho, como os de alguém que não foi treinado para não ser ouvido?
A porta de madeira range ao se abrir, revelando uma sala subterrânea iluminada por velas. E no centro dela há uma cama de ferro, coberta por peles de carneiro.
— Isso aqui é bonito — digo, tentando manter a frieza em minha voz.
— Achei que você gostaria.
Hugo se vira para mim, e é então que eu vejo.
A tatuagem no pescoço dele, parcialmente escondida pela gola da camisa. Uma variação do símbolo que conheço bem demais.
Porque tenho a versão oficial desse símbolo tatuado nas costas que ele viu enquanto me fodia no banheiro daquele banheiro. A porra da tatuagem que não vi porque ele não havia retirado a camisa de gola alta naquela noite.
Ele tem uma versão da tatuagem da First. Meus olhos se focam em seu pescoço.
— Quem é você? — minha voz é um sussurro mortal.
Hugo sorri. E pela primeira vez, aquele sorriso não é mais tão acolhedor ou carregado de tesão como estava sentindo antes.
— Eu sou a resposta para a pergunta que você tem medo de fazer a si mesma, Faína.
Ele dá um passo em minha direção. Enquanto eu dou um para trás, me afastando mais dele.
— Você não está aqui por acaso, está?
— Nunca estive.
O ar fica pesado. As velas tremem como se um vento invisível tivesse soprado sobre elas.
— Você foi enviado?
— Não, é o que está pensando, Faína.
— Está aqui para me matar?
Ele balança a cabeça, negando lentamente.
— Só se for de prazer, minha intenção é trazer você de volta.
O meu coração dispara no meu peito. Sinto as minhas mãos suarem. E a faca em minha bota parece chamar por mim.
— E se eu recusar ao que quer me propor?
Hugo para de se aproximar e sua expressão muda. O desejo ainda está ali, posso vê-la, mas agora está misturado com algo mais sombrio.
Algo que se parece com dever, mas qual dever?
— Então eu não tenho escolha.
Ele tira a jaqueta devagar e vejo o coldre preso ao seu peito. A arma dentro dele brilha à luz das velas.
— Lamento, Faína.
— Você não lamenta, porra nenhuma.
— Sim, eu lamento por você ter sofrido da forma como aconteceu.
— Eu era uma criança quando fui tirada da minha família. — A lembrança dói e sinto as lágrimas começando a se formar em meus olhos.
— Você sabe que isso não importa para eles.
Ele se aproxima mais um passo, e eu finalmente puxo a faca. A lâmina reflete o rosto dele, metade de anjo e outra metade era de algo que eu ainda não consigo nomear.
— Você vai ter que me matar — eu digo.
— Não faremos isso. — Ele dá mais um passo e algo em seus olhos faz com que não o ataque. — Estava lá naquela noite, meu pai quis comprar você…
Meus olhos se abrem ainda mais e minha respiração se acelera a um nível que sei que, se não me controlar, posso ter hiperóxia. Hugo se aproxima a ponto de retirar a adaga da minha mão.
— Meu pai queria comprar o máximo de garotas que pudesse naquele dia. Mas havia alguém muito interessado em você e infelizmente ele não conseguiu te salvar naquela noite.
— Eu… eu… — as lágrimas me vencem.
— Eu sei, Faína! — Ele me puxa para seu peito e me sinto pequena na sua frente. — Chore, pequena loba, não vou deixar que nunca mais alguém toque em você.
E assim começou a nossa história. Talvez eu o tivesse conhecido muitos anos antes, quem sabe eu não seria a mulher quebrada que sou hoje e não estaria fugindo de relacionamento como o Diabo foge da cruz.







