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Faína Stepanov
O quarto ainda cheira a nós duas. A seda negra dos lençóis amassa sob meu corpo e a respiração de Elena, que está quente e lenta, roça minha nuca. Eu deveria estar saciada pelo prazer. Em vez disso, sinto um vazio que nem o orgasmo mais violento consegue preencher.
Elena dorme com um braço jogado sobre minha cintura, ela é possessiva até no sono. A luz da cidade desenha sombras fantasmagóricas no teto e começo a observar o vai e vem do peito dela. Cada inspiração é um lembrete: eu estou aqui, mas não pertenço a este lugar.
— Você nunca dorme depois… — a voz dela surge como um murmúrio rouco, e eu sinto seus olhos se abrirem contra minha nuca.
— Dormir é um luxo para pessoas que não têm fantasmas.
Ela se ergue no cotovelo. O cabelo loiro escorre sobre o ombro e seus olhos azuis como gelo derretido me escaneiam com uma intimidade que já deveria ter me feito fugir.
— Você deveria tentar confiar em alguém um dia.
Não é um pedido. É um diagnóstico que ela insiste em fazer sempre que nos encontramos.
— Confiar é mais perigoso do que qualquer arma. — Minha própria risada soa oca.
E desvio o olhar para a janela. Lá fora, está Verona, que brilha como uma ferida aberta em minha lembrança.
— O que está passando na sua cabeça agora? — Elena toca meu queixo, forçando meu rosto de volta para ela.
Por um segundo, hesito e isso é algo que nunca faço. A mentira está sempre pronta na ponta da língua, afiada como uma das minhas navalhas. Mas o rosto dele invade minha mente sem pedir licença. Com cabelos ruivos que parecem o fogo quando ele está perto de se extinguir. De olhos claros demais, como se vissem através da minha pele. E aquela voz. Deus, aquela voz calma, irritantemente calma, que dizia meu nome como se fosse uma das sete maravilhas do mundo.
Logo eu, uma mulher quebrada da pior forma possível.
— Quem é ele? — Elena percebe.
É claro que percebe. Ela conhece os lugares onde eu me esqueço de esconder as rachaduras.
— Ele? — Franzi o cenho, tentando esconder a verdade dela.
— O homem que está nos seus pensamentos. — Solto um suspiro baixo.
— Um problema. — A palavra sai mais áspera do que pretendia.
— Você não costuma ter problemas com homens. — Ela sorri, mas o sorriso não alcança os olhos. — Até onde eu sei, você os usa, quebra e some da vida deles.
— Ele não é como os outros. — Minha voz falha no final da frase.
Uma falha minúscula, mas Elena a capta como um maldito cão farejador.
— Isso parece perigoso.
— Sim, e muito.
Ela se aproxima. Seus dedos deslizam pela minha mandíbula, e eu permito que me toque. Porque, por um instante, o toque dela me mantém aqui no presente. Consegue me lembrar que eu sou feita de carne e osso, não apenas das cinzas que carrego.
— Ele acha que sabe quem eu sou. — A confissão escapa como veneno de uma ferida.
— E isso te incomoda? — Os olhos dela estão fixos em meu rosto.
— Muito.
— Talvez porque ele esteja certo.
Seguro a mão dela antes que ela desça para meu pescoço. Meus dedos envolvem os dela com uma força brusca, sinto o pulso dela acelerar contra a minha palma. Paro por um segundo e descubro que não é o dela. E sim, o meu.
Maldito seja.
— Eu não sou a pessoa que ele pensa.
Elena inclina a cabeça. O gesto é tão familiar que dói. É o mesmo que ela faz quando desmonta uma mentira minha, peça por peça até que a verdade nua e crua esteja ali na minha frente.
— Então, por que ele ainda está na sua cabeça?
O silêncio que se segue é um abismo enorme. Eu poderia mentir para ela e diria que é apenas orgulho ferido, ou a inconveniência por um estranho ter chegado perto demais. Mas Elena merece mais do que isso. E, no fundo, mereço sentir o peso da verdade.
— Porque ele me olhou como se já tivesse me visto antes. — A frase saiu baixa, quase inaudível. — E não era desejo que havia em seus olhos. Era um tipo de reconhecimento.
Ela não responde. Apenas me observa, e nesse olhar há algo pior que julgamento: há compreensão e com isso eu não sei lidar.
Mas algo muda quando Elena se aproxima lentamente e me beija.
Não é o beijo preguiçoso de antes, cheio de saciedade e carinho. É um beijo de reivindicação. Ela morde meu lábio inferior e o choque de dor me arranca um gemido que ecoa no quarto vazio. Suas mãos já estão no meu corpo, não como quem pede permissão, mas como quem toma posse daquilo que deseja.
— Quero que você esqueça o nome dele… — ela sussurra contra minha boca, a exigência me aquece por dentro como o gosto da vodka queimando a minha garganta.
— Já esqueci. — Digo uma mentira deliciosa.
Elena ri, é um som grave e escuro. Suas mãos empurram meu corpo de volta contra os lençóis. A seda negra gruda na minha pele suada e o contraste entre o frio do tecido e o calor da boca dela no meu pescoço me faz arquear as costas querendo mais.
— Você é uma péssima mentirosa, Faína. — Ela morde a junção do meu ombro e eu afundo os dedos em seus cabelos loiros, puxando com força para longe do meu corpo.
— E você é uma péssima distração.
Mas ela prova que está errada.
As mãos de Elena descem pelo meu ventre com uma lentidão cruel e prendo a respiração quando seus dedos encontram o ponto exato onde eu ainda estou sensível pela nossa primeira rodada da noite. Elena conhece meu corpo melhor do que eu mesma. Ela sabe onde apertar, onde arranhar e onde sussurrar obscenidades em italiano baixinho, só para me ver perder o controle.
— Você está molhada pensando nele! — me acusa, mas há um sorriso em sua voz. — Pode não acreditar, mas isso me excita.
— Não estou pensando em ninguém. — A negação é inútil, porque meu corpo me trai a cada segundo.
Elena insiste e o mundo se reduz ao movimento dos quadris dela roçando contra os meus. Uso um pouco de força e a viro com um movimento brusco, assumindo o controle e vejo seus olhos brilharem de surpresa e tesão. Coloco uma perna entre as dela e começo a esfregar a minha coxa contra a sua abertura até sentir o seu clitóris duro em minha pele. Apoio melhor sobre a cama com uma mão perto da sua cintura e a outra segurando o seu quadril enquanto me esfrego em sua pele a procura do meu próprio prazer.
Acelero os meus movimentos como se quisesse provar alguma coisa. Não para ela, mas para mim mesma ou simplesmente para o fantasma daquele escocês que insiste em ficar no canto da minha mente e que, por diversão da minha mente, consigo ver ele materializado no canto do quarto me observando enquanto fodo com Elena.
— É isso aí — Elena arfa, e suas unhas cravam minhas coxas. — Mostra para ele quem manda.
Eu não respondo às provocações dela. Apenas me movimento mais rápido, sentindo um frenesi em meu corpo. Continuo me movendo contra ela até que não haja mais nenhum pensamento, apenas nossas peles causando atrito uma contra a outra, a mistura do meu suor com o dela e o som úmido de nossas bucetas, querendo se encontrar.
Quando o orgasmo vem, é como uma fratura. O prazer me rasga por dentro e, por um segundo, tudo o que vejo é branco. Ouço Elena gemer meu nome e depois apenas o silêncio.
Com um pouco de esforço, consigo acalmar minha respiração com o rosto enterrado no travesseiro ao lado do rosto de Elena, que acaricia minhas costas, traçando círculos preguiçosos entre minhas omoplatas.
— Agora dorme! — ela ordena e a sua voz já está pesada de sono.
Mesmo assim, não consigo e finjo estar dormindo. Fecho os olhos e regulo minha respiração para imitar a dela. Leva quinze minutos até que seu braço afrouxe ao meu redor e seu suspiro se torne um pouco mais profundo.
Então me levanto.
O chão do quarto está frio sob meus pés descalços. Recolho a calcinha do chão, as calças de couro da cadeira e a camisa preta amassada perto da porta. Depois que estou vestida, sou outra pessoa ao reconhecer no espelho a pessoa com a máscara de volta ao lugar.
No criado-mudo de Elena, entre um batom usado e um vidro de perfume, está meu telefone. Vejo a tela acender e, quando toco no ícone das mensagens, o nome dele surge.
Hugo.
O nome dele está ali, na lista de contatos, por uma simples pressão que não soube dizer não na época. Mas talvez tenha sido porque acreditei em uma promessa que eu nunca deveria ter feito. A última mensagem é dele. Foi lida, mas nunca respondida.
Hugo: Eu sei onde você vai estar amanhã.
Não era uma pergunta. Ele estava afirmando e, por algum motivo, isso me apavorou.
Eu deveria bloqueá-lo. Uma vez que não posso trocar de número sem que cause mais perguntas do que simplesmente dizer a verdade sobre Hugo.
Mas meus dedos não obedecem. Em vez disso, eles digitam:
Faína:
Prove.E aperto enviar antes que minha razão retome o controle, porque ela sempre retorna. Termino de me arrumar e sinto o telefone vibrar mais uma vez. Meu coração dispara e eu odeio cada batida.
Hugo: Teatro romano. Amanhã, meia-noite, e não se atrase, Stepanov.
Filho da puta, ainda por cima tem que provar que é mandão.
Olho para a cama. Elena se virou de costas para mim, os cabelos loiros estão espalhados no travesseiro escuro. Ela parece um anjo caído em meu céu de trevas. Ou talvez seja apenas uma mulher que cometeu o erro de me amar.
— Você vai sentir minha falta? — pergunto em um sussurro.
Mas ela não responde e acho que é melhor assim.
Saio do quarto sem fazer barulho. Desço as escadas da casa dela e ouço os degraus rangendo sob meus pés. Quando chego no pequeno saguão do prédio, está vazio. O porteiro nem levanta os olhos do jornal quando passo, o que é ótimo.
Lá fora, Verona está úmida e quente, mesmo à meia-noite. As pedras das ruas brilham como se tivesse chovido, mas o céu está limpo, acredito que seja apenas a cidade soando seus segredos.
Enquanto caminho, puxo um cigarro e o acendo. Puxo um trago e seguro a fumaça para controlar um pouco mais a minha ansiedade. Quando liberei a fumaça, ela sobe em espirais indolentes e a observo se dissolver na escuridão da noite.
Hugo Furquim.
O nome dele ecoa na minha cabeça como um tiro em uma catedral vazia.
Nós nos encontramos há um pouco mais de três semanas, estava entrando num bar sujo em Milão. Ele estava sentado sozinho, bebendo uísque como se fosse água e soube imediatamente que ele não era como os outros homens que cruzam meu caminho.
— Você está perdida? — foi a primeira coisa que ele disse quando parei ao seu lado.
— Sempre. — eu respondi e aquilo deveria ter sido um aviso.
Mas ele sorriu. Era um sorriso torto e cheio de cicatrizes invisíveis.
— Eu também.
Naquele dia, transamos no banheiro imundo do bar, com as paredes cobertas de grafites e o chão grudento de cerveja derramada. Não foi nada romântico. Foi brutal, selvagem e exatamente como eu precisava. Ele me dobrou sobre a pia, arrancou minha calcinha com força, mas sem ser violento. Estava na cara que ele estava tão cheio de tesão quanto eu estava.
Ele me fodeu como se estivesse tentando extrair minha alma de dentro de mim mesma e devolvê-la para o lugar onde deveria estar desde os meus doze anos.
— Você é uma mulher perigosa — ele murmurou contra minha orelha, enquanto me agarrava à borda da pia de porcelana.
— Você não faz ideia. — Consigo dizer ofegante.
Ele riu e aquele som rouco vibrou no meu peito. Sentia as suas estocadas irem até o fundo da minha buceta e diferente da dor que sempre lembrava dos malditos dias que passei nas mãos dos japoneses. Estava gostando, sentia o prazer aumentando cada vez mais e mais.







