Dois

Alice Collins

Fico olhando para a porta fechada, com meu peito apertado e lágrimas nos olhos, tentando entender como, de repente, passei de uma joia rara, como Adélia disse, para uma bijuteria sem valor que nenhum homem desse lugar quer gastar seu dinheiro comigo.

Oh, meu Deus.

Esse é o único lugar onde eu poderia conseguir o dinheiro para a cirurgia. Ou talvez minha virgindade nunca tenha sido tão valiosa assim. Adélia só disse aquilo para me animar. Afinal, é o trabalho dela conseguir garotas novas para o clube.

Eu deixei claro que, se o valor que ganhasse fosse menor que o valor da cirurgia, que é oitenta e cinco mil dólares, eu não me entregaria ao comprador. Ela concordou imediatamente. Até rio por eu considerar a possibilidade de não conseguir tal valor, quando achava que ganharia muito mais que isso.

Ela estava enganada, no entanto.

E agora que fui rejeitada, ela não se deu ao trabalho de vir me dizer isso pessoalmente. Mandou o segurança.

Tudo bem. Não é culpa dela que ninguém me quis.

Mas pelo menos não vou ficar no prejuízo com os gastos que tive com os exames, cabeleireiro, manicure, lingerie, e com o vestido tão revelador que não usaria nem pra balada. Isso é,se algum um dia fosse em uma. Isso porquê, ele mostra demais.

Mal cobre minha bunda e seios. Não é algo com que me sinto confortável. Mas Adélia sugeriu o modelo e aprovou logo de primeira quando enviei uma foto vestida nele. E só esse maldito vestido, me custou oitenta dólares. O vestido que eu teria que usar depois que saísse do palco pra ir sabe lá pra onde com o cliente.

Somando todos os gastos, dá um total de quatrocentos e cinquenta e cinco dólares. Um dinheiro que não poderia gastar.

Mas eu vou ser ressarcida. Pelo menos é o que diz no contrato que assinei.

Nele diz que, se o clube cancelasse meu leilão, por qualquer eventualidade, eu seria ressarcida financeiramente pelos gastos que tive para participar dele.

Quero receber esse dinheiro antes de sair daqui.

Pego minha bolsa no armário e, então, meu celular, e ligo para Adélia. Mas só chama.

Ótimo. Agora que fui descartada, ela me ignora.

Enxugo as lágrimas e vou me vestir. Mas, assim que pego minha calça jeans e o top do armário — a roupa com que vim para o clube e que usaria para ir para casa —, uma garrafa com um líquido rosa cai no chão. O cheiro de álcool se espalha pelo vestiário.

Olho para baixo e prendo a respiração.

Minha calça está ensopada e manchada de rosa.

Droga.

Alguma das daquelas mulheres confundiu o espaço do armário, e enfiou a garrafa nas minhas coisas.

Ótimo. Agora vou ter que ir para casa com esse vestido indecente ou passar pelo constrangimento de alguém pensar que estou menstruada.

Enrolo a calça e o top e os coloco na bolsa. Em seguida, visto o vestido.

E só então abro a porta. Ou pelo menos, essa era a minha intenção, se o segurança não estivesse segurando a maçaneta pelo lado de fora.

Que diabos.

— Ei, eu quero sair.

— Você está vestida?

Franzo a testa.

Que estranho.

Ele não teve problemas com as outras mulheres de lingerie. Tanto que ouvia comentários engraçadinhos dele sobre o corpo e a lingerie delas toda vez que cada uma delas deixava o vestiário. Mas comigo está sendo um cavalheiro?

Deve ter sido ordem do clube. Já que não vou mais ao leilão, querem preservar o último resquício de dignidade que me resta, evitando que um dos seus seguranças me veja seminua.

Muito bondade da parte deles, depois de colocar fotos minhas só de lingerie no site exclusivo deles, para serem vistas por todos seus clientes pervertidos.

Estou sendo sarcástica, é claro.

— Então, está vestida? — Ele repete a pergunta.

— Sim, estou vestida. Agora, será que pode me deixar sair?

Ele solta a maçaneta e ouço seus passos se afastando. Saio para encontrar outro segurança, diferente daquele que veio buscar as outras mulheres.

Este também está vestido de maneira diferente. Em vez da jaqueta simples que todos os seguranças que vi por aqui usavam, ele veste um elegante terno preto, impecavelmente ajustado ao corpo alto ,forte e de ombros largos.

Acho que eles têm um segurança exclusivo para escoltar as rejeitadas até a saída.

Ele me olha com a testa franzida.

— Está tudo bem, srta. Collins?

Dou uma risada amarga.

— Acabei de ser rejeitada num clube de sexo, minha única chance de conseguir dinheiro para pagar a cirurgia da minha irmã , então, o que você acha?

— Desculpe, mas…

— Tudo bem, eu sinto muito. Não quis parecer rude.

Você não tem culpa de nada. Ninguém tem. Eu só queria saber se… Você pode me levar até Adélia? Tentei ligar, mas ela não atendeu. Quero saber se ela pode me devolver o dinheiro que gastei para participar do leilão.

Sua testa se franze ainda mais.

— Srta. Collins, não foi rejeitada. Por que pensou que foi? É por isso que está chorando? — ele pergunta.

— O quê? — É minha vez de franzir a testa, confusa pra caramba.

— Mas você disse para eu me vestir. Todas as outras mulheres saíram daqui de lingerie, como fomos orientadas a fazer.

— Porque o cliente pediu que fosse vestida.

Arregalo os olhos.

— Cliente? Mas... eu nem pisei no palco do leilão.

— Ele quer fazer uma proposta, srta. Collins. Adélia não te falou que isso poderia acontecer? E que, pelas regras do clube, não se pode recusar um pedido do cliente? Está no contrato que assinou. No contrato diz que, se um cliente quiser negociar com você antes do leilão, ele pode. Se você não aceitar a oferta dele, pode recusar e voltar a ficar disponível para o leilão.

Um enorme alívio me atinge, que é impossível não sorrir.

Oh, meu Deus. Ainda vou conseguir o dinheiro.

Antes dessa noite, eu nunca tinha entendido de verdade o que significava viver numa montanha-russa de emoções. Há poucos minutos, estava apavorada com a ideia de entregar minha virgindade a um estranho. Depois, chorei achando que tinha sido rejeitada e que perderia minha única chance de conseguir o dinheiro para a cirurgia da minha irmã. Agora, descubro que tudo não passou de um mal-entendido e que ainda posso conseguir o dinheiro sem sequer precisar ficar exposta naquele palco.

Puta merda. É muita adrenalina.

— Então, srta. Collins? — O segurança pergunta.

— Adélia deve ter me dito, eu que não me lembro. E quanto ao contrato, eu li. — Sorrio sem graça. — Mas parece que não com tanta atenção como deveria. E onde vamos nos encontrar para negociarmos?

— No escritório do dono — o segurança diz.

— Adélia vai estar presente?

— Não, será apenas vocês dois.

Oh, meu Deus. Vou ficar sozinha com o homem. E se ele for perigoso e quiser tomar minha virgindade sem me pagar primeiro?

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