Mundo ficciónIniciar sesiónEla sempre sonhou em encontrar um doutor para chamar de seu. Mas foi um estudante de Direito quem a convenceu a acreditar no amor. Depois de um relacionamento intenso e de uma tragédia que destruiu todos os seus planos, Camila retorna a Itajubá decidida apenas a reconstruir a própria vida. Ao aceitar um emprego no consultório de Leonardo, o médico que um dia despertou seu coração e que ela deixou para trás, ela descobre que o tempo mudou muita coisa. Ele já não é o homem inconsequente de antes, e ela também não é mais a jovem impulsiva que fugiu em busca de um recomeço. Entre antigos sentimentos, novas oportunidades e feridas que insistem em permanecer abertas, Camila e Leonardo terão que descobrir se o destino realmente lhes reservou uma segunda chance. Porque, às vezes, o amor da nossa vida não é o primeiro a chegar, mas aquele que espera o momento certo para nos encontrar.
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Eu estava encolhida no sofá, vestindo meu conjunto de moletom favorito e com uma manta cobrindo as pernas, enquanto navegava distraidamente pelo catálogo da N*****x. Ouvi a porta do banheiro se abrir. — Você ainda não se arrumou? Levantei os olhos e encontrei Davi ajustando os punhos da camisa azul-marinho que eu mesma havia passado naquela manhã. Suspirei, puxando a coberta um pouco mais para cima. — Acho que não vou. Ele franziu a testa, desacelerando os passos. — Como assim, não vai? Desliguei a televisão e me virei completamente para ele, encarando aquele terno impecável que parecia não combinar em nada com o meu desejo de paz. — Não estou com vontade de sair hoje. Davi deu uma risada baixa, balançando a cabeça como se eu estivesse fazendo uma piada. — Amor, a confraternização é importante. O pessoal do escritório inteiro vai estar lá. Sorri de canto, tentando puxá-lo para o meu lado. — E daí? A gente trabalha a semana toda. Faz tempo que não temos uma noite só nossa. A gente podia pedir uma pizza, comprar chocolate, colocar um filme qualquer e passar a noite debaixo da manta. Ele terminou de ajustar o relógio no pulso. — Você anda dizendo que eu só penso no trabalho. Hoje eu resolvi sair um pouco e você quer ficar em casa. Levantei do sofá e caminhei até ele, descalça, sentindo o piso frio sob os pés. — Eu não quero só ficar em casa, Davi... Eu quero ficar com você. Por um segundo, vi sua expressão amolecer. Achei que ele fosse desistir. Mas ele apenas respirou fundo e pegou a chave do carro sobre o aparador. — Camila, eu já confirmei presença. O pessoal está esperando a gente. Baixei os olhos. Desde o começo da tarde havia uma sensação estranha e sufocante dentro de mim. Um aperto no peito. Uma inquietação que não passava. — Davi... Minha voz saiu quase como um sussurro. Ele voltou a me olhar. — O que foi? Passei as mãos pelos braços, tentando afastar o arrepio que percorria minha pele. — Desde mais cedo estou sentindo uma coisa ruim. Como se... como se a gente não devesse sair de casa hoje. Ele sorriu, aproximou-se e segurou meu rosto entre as mãos. — Você está impressionada, amor. É só cansaço. Beijou minha testa. — Vamos aproveitar a noite. A gente trabalha demais. Forcei um sorriso. Talvez ele tivesse razão. Mas, quando fechei a porta do apartamento atrás de nós, aquele aperto no peito só aumentou. O caminho até a pub foi silencioso. A chuva fina deixava o asfalto brilhando sob as luzes dos postes. Eu observava as gotas escorrendo pelo vidro da janela, incapaz de afastar aquela sensação de que alguma coisa estava errada. Davi cantarolava baixinho a música que tocava no rádio. Parou o carro em um sinal vermelho, a poucos quarteirões da pub. Sorriu para mim. — Está vendo? Daqui a pouco você esquece essa sensação e vai se divertir. Tentei responder, mas as palavras morreram antes de saírem. Um forte impacto contra o vidro da janela do motorista nos fez virar a cabeça ao mesmo tempo. Um homem usando capacete batia com violência no vidro. Na mão, uma arma. — Perdeu! Passa o relógio, a aliança e o celular! Agora! Meu corpo inteiro congelou. — Davi... Ele levantou as mãos lentamente. — Calma... Eu vou entregar. Suas mãos tremiam enquanto tentava retirar o relógio do pulso. O assaltante ficou ainda mais nervoso. — Mais rápido! — Estou tentando... Tudo aconteceu em uma fração de segundo. O disparo rompeu o silêncio da noite. O estampido pareceu explodir dentro do carro. Vi o corpo de Davi ser lançado contra o banco. A mão dele foi imediatamente ao tórax. O sangue começou a escorrer entre seus dedos. — Davi! Meu grito saiu desesperado. O assaltante correu para a moto que o aguardava alguns metros atrás e desapareceu sob a chuva. Nem percebi. Meu mundo inteiro estava dentro daquele carro. Soltei o cinto e me inclinei sobre ele. — Amor... olha para mim... por favor... Suas mãos já não conseguiam conter o sangue que encharcava a camisa azul-marinho. Respirava com dificuldade. Cada inspiração parecia uma luta. Segurei seu rosto entre as minhas mãos. As lágrimas caíam sem que eu percebesse. — Não... não faz isso comigo... Ele sorriu de um jeito tão pequeno que quase não existiu. Levantou a mão com dificuldade e acariciou meu rosto. — Me... desculpa... Balancei a cabeça freneticamente. — Não. Não fala isso. Ele fechou os olhos por um segundo, como se reunir forças para continuar fosse a tarefa mais difícil do mundo. — Você... não queria vir... Meu peito se despedaçou. — Não importa... fica comigo... por favor... Sua respiração ficou ainda mais fraca. Os dedos procuraram os meus. Entrelaçaram nossas mãos. — Eu... te amo... As palavras saíram em um fio de voz. — Eu também te amo. Muito. Então não vai embora... por favor... não vai... Seus dedos apertaram os meus pela última vez. Depois... Foram perdendo a força. Seu olhar permaneceu preso ao meu até desaparecer lentamente. A buzina do carro ecoava sem parar. A chuva castigava o para-brisa. E eu permaneci ali, abraçada ao homem que amava, coberta pelo sangue dele, implorando por um milagre que nunca aconteceu.Camila A minha noite inteira tinha sido consumida por aquela lembrança. Enquanto ele estava por aí, eu tinha ficado acordada até tarde, rolando na cama, relendo mentalmente cada segundo daquele beijo na borda da piscina. A sensação dos lábios dele nos meus, o calor das mãos do Leonardo na minha cintura... Eu havia me pego sorrindo sozinha no escuro do meu quarto, sentindo-me quase como uma adolescente boba, culpando a mim mesma por dar tanta importância a um único gesto.E, enquanto eu gastava meus pensamentos idealizando aquilo, ele estava passando a noite com outra.A imagem daquela mulher — com o vestido chamativo, o cabelo escuro meio despenteado e a postura escandalosa — invadiu minha mente de novo. Ela não tinha a menor classe, mas exibia a marca clara de quem havia compartilhado a cama dele até o amanhecer. A cortina da ilusão caiu com força diante dos meus olhos.Eu fui só mais uma distração para ele.O tapa estalado e a discussão na recepção foram o choque de realidade q
LeonardoAssim que o som dos passos da Camila desapareceu no topo da escada, encostei no carro tentando colocar minha cabeça no lugar. A pele do meu rosto ainda formigava. Aquele beijo tinha sido um terremoto.Rogério veio na minha direção, balançando a cabeça e abrindo um sorriso sacana.— Não acredito que você tá ficando com a minha cunhada, cara! Se a Liz descobre, ela te mata!Soltei uma risada abafada, tentando disfarçar a bagunça emocional no meu peito.— Não aconteceu nada demais, Rogério... Foi só um beijo.— Um beijo?! — ele debochou. — Um beijo só deixa o cara com essa cara de bobo? Menos, Leonardo. Bem menos!— É melhor eu ir embora — falei, pegando as chaves.— Vai mesmo, cuida da sua vida que o horário já avançou — brincou ele, me acompanhando até o portão.Liguei o motor e acelerei pela rua silenciosa. Minha mente não saía da borda daquela piscina. Nunca imaginei que a Camila me olhava diferente, ou que me via como homem, pensei, encarando o asfalto molhado. Eu s
Camila Ele estava encostado perto da área da piscina, segurando uma garrafa de cerveja. Aproximei-me trazendo o meu prato — com apenas um pedaço pequeno de carne, uma colher de arroz e uma porção discreta de legumes —, além de uma cerveja gelada na outra mão.— Boa noite, chefinho — provoquei com um sorriso de canto.Ele balançou a cabeça, rindo fraco.— Aqui não, Camila. Pode tirar o "chefinho", pode tirar o "doutor", pode tirar o "senhor", pelo amor de Deus. Aqui eu sou apenas o Leo.Dei uma risada, sentando-me na borda da piscina e molhando os pés na água morna.— Eu sei, eu sei.Ele olhou para a quantidade pequena de comida no meu prato e depois deu um gole na cerveja.— Você só come isso? — perguntou, curioso.— Depois da cirurgia cardíaca, há anos, nunca mais voltei a comer como antes — expliquei com serenidade, dando um gole na minha cerveja. — Preciso cuidar muito bem da minha saúde. É sempre um pouquinho de cada coisa, tudo bem regrado.— É, eu sei... — ele responde
Camila Dois anos antesO despertador toca às seis da manhã, arrancando-me de um sono profundo.Por alguns segundos, permaneço deitada, olhando para o teto branco do quarto, tentando convencer meu corpo de que levantar cedo faz parte da rotina. E faz. Minha vida em Itajubá é assim: correr contra o relógio todos os dias.Estico a mão e desligo o despertador antes que ele toque novamente. Levanto-me devagar e caminho até a janela. O movimento da rua começa aos poucos — pessoas indo trabalhar, carros passando, a cidade despertando para mais um dia.Respiro fundo. Eu gosto dessa sensação. Da ideia de que estou construindo minha própria história.O apartamento onde moro não é exatamente meu. Ele pertence ao meu cunhado, mas ele me deixou ficar aqui enquanto sigo minha vida em Itajubá. É um lugar tranquilo, confortável e, principalmente, meu refúgio depois dos dias cansativos. Vivo sozinha. Às vezes o silêncio pesa um pouco, mas também aprendi a gostar dele.Depois de preparar um caf
Último capítulo