três

Alice

Não. Não posso permitir que o medo me domine de novo. E, além disso, tenho um spray de pimenta na bolsa e meu celular. Se perceber que corro esse perigo, borrifo o spray nos olhos dele, me tranco no banheiro e peço ajuda. Até mesmo à polícia, se Adélia não for me socorrer.

Está tudo sob controle.

— Antes de irmos, preciso te passar algumas instruções que o senhor Kingston pediu.

— Claro, quais?

— Se encontrarmos alguém no caminho até o escritório, se esse alguém te fizer perguntas, qualquer que seja, deixe que eu as responda. E não questione minhas respostas, está bem?

Franzo a testa para o pedido estranho.

— Tudo bem, mas posso saber pelo menos o porquê disso?

— Não tenho permissão para falar sobre isso. Só que ele é muito reservado com a vida pessoal.

Entendi. Ele não quer que ninguém saiba que está prestes a comprar uma virgindade.

— Tudo bem. Podemos ir agora? — pergunto.

O celular dele toca.

Ele atende.

Após alguns segundos ouvindo, ele pergunta:

— E se ela não tiver um ? Ok. Entendido.

Meu coração acelera.

Se eu não tiver, o quê?

Só falta ele estar exigindo um tipo de lingerie específico, diferente da que estou vestindo.

— Você trouxe um casaco? — ele pergunta.

— O que?

A expressão de queixo queixo caído me quer bem agora. Eu estava esperando um pedido indecente e então veio isso. Um casaco. Por que ele quer que eu vista um?

— Casaco. Você tem um ? Se tiver,vista por favor. Foi um pedido do senhor Kingston.

— Não, eu não tenho um casaco.

Por quê ele quer que eu vista um casaco? — Franzi a testa. O que era isso agora? —eu devia questionar as ordens do cliente,

uma vez que ele se tornou a minha melhor opção de sair daqui com o dinheiro que preciso, no entanto, a curiosidade de saber o motivo do porquê quer que eu coloque um casaco, fala mais alto.

— Algo sobre seu vestido ser muito revelador.

Não consigo evitar uma risada incrédula.

— Tá brincando, né?

— Não, srta Collins. Não estou brincando.

Saberá o porquê disso quando estiver com ele. Aqui. — Ele tira o paletó e me entrega. — Por favor, vista.

Peguei o paletó e vesti, quase desaparecendo de tão largo e comprido que ficou, batendo na minha canela. Tive que fazer cinco dobradas na manga pra conseguir ter a mão livre.

Bem, foi ele quem pediu então, acho que o fato de eu estar ridícula, não é nenhum problema pra ele.

— Só por curiosidade,...Como ele sabe que meu vestido é revelador, se é diferente do que usei nas fotos?

— Ele viu pela câmera. Foi ordem dele também que você não saísse do vestiário sem estar vestida.

— Posso saber…porquê?

— Ele não queria que nenhum homem desse lugar, a viesse só de lingerie. Ele não disse, mas acho que é o mesmo com o vestido.

Meu pai eterno. O homem já se sentia meu dono?

— Acho que é um pouco tarde pra isso já que fotos minhas com um vestido muito parecido com esse foram para o site do clube. — zombo. Caramba. Isso é muito estranho. Será que é algum tipo de fetiche?

— Não foram. — Ele diz.

— O que? Como assim, não foram ?

— Não é nada, Srta Collins. Melhor irmos logo. — Seguiu na frente, ignorando a descrença no meu rosto.

Por que as minhas fotos não foram pro site ? Foi esse senhor Kingston quem pediu para não ir ou Adélia esqueceu de colocá-las ?

A cada minuto que passa, esse homem se revela mais e mais estranho.

Respiro fundo e me apresso para o elevador.

No elevador, ele aperta o botão do quarto andar.

Quando chegamos no andar onde o meu pesadelo real se encontrava, o segurança me guiou por um corredor com portas dos dois lados até parar em frente de uma delas.

Ele bateu antes de girar a maçaneta e abri-la.

"Você consegue. "Você consegue.

— Você pode entrar. — disse ele. — Mas antes, preciso do meu paletó de volta.— diz com um leve curvar de lábios.

— Ah, claro. — Tirei o paletó e entreguei para ele. — Obrigada.

— Não por isso.

Respirando fundo, forcei minhas pernas trêmulas a se moverem para dentro da sala com pouca luz e muito mais gelado que o corredor que estremeci. Ou talvez fosse o meu medo que estava provocando aquela sensação de frio repentino.

Meu coração dispara e se não bastasse, minhas pernas começaram a tremer, e meus pés a oscilar no equilíbrio do meu sapato de salto médio.

Médio. imagine se não fosse?

Droga. A última coisa de que preciso, e me espatifar nessa sala, na frente desse homem

é destruir o último vestígio de dignidade que me resta

O som suave clique da porta se fechando atrás de mim,me fez estremecer ainda mais.

Enfim na toca do lobo.

Como se estivesse em câmera lenta, ergui a cabeça e observei o escritório elegantemente decorado atrás do homem que me queria a todo custo.

Ele estava de frente para uma parede de vidro, com uma das mãos no bolso do elegante terno preto e um copo de bebida na outra. A luz suave que entrava pelas janelas refletia discretamente sobre o ambiente, tornando tudo ainda mais sofisticado, mas ao mesmo tempo, intimidador. Principalmente o homem parado lá.

Em nenhum momento, desde que tomei essa decisão, permiti-me pensar em como seriam os homens que disputariam minha virgindade no leilão. Disse a mim mesma que isso não importava. O que importava era o dinheiro.

E continua não importando.

Mas, se eu tivesse me permitido imaginar, jamais teria imaginado alguém assim.

Não mesmo.

Se ele não tivesse um metro e noventa de altura, chegaria bem perto disso. Os ombros largos e os músculos dos braços se destacavam sob o terno preto sob medida. O cabelo, de um tom escuro quase negro, era cortado curto, conferindo-lhe um ar ainda mais imponente.

Agora, só faltava conhecer seu rosto.

— Boa noite, Alice —ele diz num tom baixo,mas poderosamente profundo que sinto os pelos dos meus braços se arrepiar.

E então, ele vira para mim.

Pisco os olhos, apenas para ter certeza de que estou realmente vendo o homem à minha frente e não imaginando.

Não, estou imaginando. Ele é real.

Puta. merda.

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