Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlice
Li em algum lugar que, quando somos expostos a situações de muita tensão ou medo, nossa mente pode entrar em pane. Do tipo em que você fica perdida, confusa, incapaz de compreender os acontecimentos ou até mesmo as palavras que alguém está dizendo. Eu tive muito de todas essas coisas nas últimas semanas. Então, acho que finalmente minha mente entrou em pane. Sim, porque é impossível que esse homem tenha acabado de dizer que quer que eu seja sua esposa. — Diga alguma coisa, Alice. É a primeira vez que ele me chama pelo meu nome. E, por algum motivo, ouvir meu nome naquela voz grave faz meu estômago se contrair. Ele se coloca atrás de mim. Antes que eu consiga me afastar, o paletó dele já está envolvendo meus ombros, cobrindo-me inteira com o tecido escuro e o perfume intenso que parece ter ficado impregnado nele. Em seguida, ele volta para a minha frente e segura levemente meu queixo. Meu corpo inteiro fica rígido. — Olhe para mim, Alice. Eu obedeço. Levanto os olhos devagar e encaro os dele. — Você está pálida — resmunga. Ótimo. Parece que estou a dois segundos de desmaiar. — Tudo bem. Venha, precisa se sentar um pouco. Ele segura meu ombro, mas me afasto imediatamente. Não preciso de um homem maluco, que acabei de conhecer, me segurando enquanto tento processar a informação de que ele quer que eu, uma estranha, me case com ele. Talvez seja só uma brincadeira idiota. — Eu estou bem. E, sim, preciso me sentar um pouco. Mas mantenha distância, por favor. Digo isso com firmeza e, ignorando a expressão carrancuda que surge em seu rosto, vou até o sofá e me sento. Ele parece prestes a protestar, mas apenas solta um suspiro e se afasta. Caminha até um pequeno bar no canto da sala. É um armário de madeira elegante, cercado por uma ilha do mesmo material, com alguns bancos ao redor. Ele abre uma das portas, pega uma garrafa de água, abre-a e vem até mim. Estende-me a garrafa. Pego-a. — Obrigada. Com um leve aceno de cabeça, ele se senta no sofá de frente para mim. Assim que o líquido gelado toca minha boca, percebo o quanto estava com sede e nem sequer havia me lembrado disso. Bebo quase metade da garrafa de uma vez. Pego os olhos dele entrecerrados sobre mim. Algo que percebi que ele faz toda vez que digo alguma coisa de que não gosta. — O que foi? — pergunto. — Quando foi a última vez que você comeu hoje ? Fico tão surpresa com a pergunta que não respondo de imediato. Essa era a última coisa que eu esperava que ele dissesse depois daquela cara de mal-humorado. — Responda, Alice. — Minha palidez não tem nada a ver com fome, senhor Kingston. Não se preocupe com isso. Mas agradeço pela consideração de qualquer maneira. —minto. Porquê talvez seja um pouco fome , porquê agora que ele mencionou comida, meu estômago vazio decide protestar baixinho. Talvez ele tenha reclamado antes, mas comida era a última coisa em que eu conseguia pensar até agora. E o simples fato de eu estar prestando atenção à fome significa que, de alguma maneira muito estranha, por sinal, estou começando a me sentir confortável na presença desse homem. O que é preocupante. Muito preocupante. — Então... — respiro fundo, tentando organizar meus pensamentos. — Você estava mesmo falando sério sobre casamento? Tipo... de verdade? — Sim,eu falei sério. Quero que seja minha esposa.—Ele inspira profundamente, e percebo sua mandíbula se contrair, como se o assunto fosse desconfortável. — Quer dizer... — continua, sua voz baixa e áspera. — Eu não quero uma esposa. Eu preciso de uma. O que é bem diferente. — Desculpa, estou confusa aqui. Se não quer se casar, por que está se obrigando a isso? É algo relacionado a uma herança?—Deixo escapar uma risada. — Caramba, parece que fui transportada para dentro de um daqueles romances clichês em que um cara podre de rico é obrigado a se casar para salvar a própria herança. Mas, entre todas as mulheres do seu círculo social que poderia escolher, ele faz a proposta justamente para a mocinha pobre, ingênua, virgem e ferrada. Balanço a cabeça. — A diferença é que eu não sou a mocinha ingênua... e você está mais para vilão do que para mocinho. Droga. Eu disse mesmo a última frase em voz alta? Que ele parece um vilão? É. Parece que vai ser difícil eu não irritar o homem. — Acabou? Ele sustenta meu olhar, completamente impassível, os lábios cerrados. — Eu acertei sobre a herança? — pergunto. — Sim, é sobre herança. —ele diz secamente. —Ele respira fundo e passa bruscamente uma mão pelo cabelo escuro. — Mas, pelo amor de Deus, controle sua mente impulsiva antes que comece a criar teorias malucas — diz, impaciente, enquanto seus olhos oceânicos profundos me encaram com severidade. — Se não quer ouvir minhas teorias malucas, senhor Kingston, pode, por gentileza, responder algumas perguntas antes de continuar explicando sua proposta de casamento? Por favor? — peço, num tom gentil. — Justo. Faça suas perguntas — diz, a contragosto. — Para começar... por que eu? — Por que não? — Simples. Você é um homem aparentemente muito rico e influente e... Por pouco deixo escapar lindo, sexy e atraente. — E? — Ele franze as sobrancelhas. — Elegante — digo. Apesar de ele realmente ser elegante, essa seria a última coisa que eu diria sobre ele. Mas é melhor do que admitir que o acho lindo, sexy e atraente. — Elegante? — repete, divertido, com um pequeno sorriso curvando o canto dos lábios. E... caramba. O homem consegue ficar ainda mais sexy com um sorriso minúsculo. Preciso bloquear isso. — Sim. É isso aí. Mas o que quero dizer é que, com certeza, você tem muitas outras opções de mulheres que aceitariam ser sua esposa sem hesitar.—Faço uma pausa.— Então, por que eu? Uma pobre virgem que você conheceu em um clube de sexo? Engulo em seco. — Como disse, isso parece coisa de livros de romance clichês. Só que isso não é ficção, é real. Então, me desculpe por não conseguir evitar criar teorias malucas. Ele me encara fixo e intensamente e, apesar de não haver nada além de gelo em seus profundos olhos oceânicos, meu rosto queima. Desvio os olhos para o meu colo. — Então? — pergunto. — Porque, das dez mulheres que meu assessor selecionou para ocupar o papel de minha esposa, você foi a décima primeira. E, apesar de eu ter hesitado em te contratar devido à nossa diferença de idade, algo que considerei um problema, você foi a única, de todas elas, que possuía todas as outras qualificações indispensáveis para ocupar essa função. Eu pisco. Depois, arregalo os olhos. Oh. Meu. Deus. Ele realmente quer me contratar para ser sua esposa. Como um trabalho. — Espera aí… — Dez... candidatas? Você fez um processo seletivo para encontrar uma esposa? — Fiz uma pequena careta, sem conseguir esconder minha incredulidade. Percebo um pequeno contrair dos lábios dele num sorriso, que certamente é pela minha careta de descrença. — Não, Alice. Eu não abri um processo seletivo. Um processo seletivo pressupõe candidatos cientes da vaga e interessados em ocupá-la. Nenhuma delas sabia que poderia ser uma opção. Você, por exemplo, tornou-se uma possibilidade antes mesmo de ser selecionada, sem sequer ter conhecimento disso. — ele diz, impassível, como se estivéssemos discutindo uma contratação e não a escolha de uma esposa. Mesmo que não seja uma esposa de verdade. — Certo. Isso é muito estranho. Mas ainda não respondeu à minha pergunta. Que qualificações são essas que me tornaram tão sortuda? — É difícil evitar a ironia. — E tem mais. — Contínuo. —Como sabe que eu possuo tais qualificações, se só me conheceu...—Travo ao me lembrar do que o segurança disse. Que minhas fotos não haviam sido colocadas no site. — Você já sabia sobre mim antes dessa noite, não é? — Não só sabia como investiguei sua vida. — A resposta vem tão simples, tão tranquila, que chego a pensar que talvez eu tenha entendido errado. — Você fez… o quê?






