UMA LINDA MULHER

Eu não tive escolha.

Lívia praticamente me arrastou para o carro na saída do shopping, ignorando minhas tentativas de argumentar que eu podia muito bem ir para casa, tomar um banho, dormir na minha cama e lidar com tudo sozinha.

— Você não vai ficar sozinha hoje. — ela decretou, como se fosse uma lei federal. — E muito menos naquela casa que fede a homem inútil e puta barata. — o que não era mentira, certamente vou ter que trocar aquele colchão ou não durmo mais naquela cama.

E assim, sem cerimônia, ela me fez dirigir para a casa dos nossos pais.

A casa onde eu cresci dos dois anos em diante, onde ela nasceu e nossa mãe ainda guardava fotos horrorosas de nós com lama até o último fio de cabelo por brincar no quintal nos dias de chuva, e também as piores fases da adolescência bem estampadas nas paredes, com franjas mal cortadas e aparelho nos dentes.

Quando entramos, minha mãe apareceu na sala, uma mulher baixinha e um pouquinho acima do peso, de pele clara e cabelos ondulados castanho-escuros, nem parecida comigo, num geral, eu só era um pouco mais alta, não dispunha dos mesmos olhos verdes que ela, tendo que aceitar meu comum castanho-claro, e tenho esse fundo avermelhado no castanho do meu cabelo que é uma vaga lembrança do cabelo ruivo do meu pai. Dona Antônia, com um pano de prato nos ombros, estava ali a postos, prontinha para ver quem chegou.

— Ué, meninas? Que surpresa boa! Esther, meu amor, você tá… — ela parou, me observando com aquele olhar clínico de mãe que detecta sofrimento a quilômetros. — …cansada.

— Ela vai dormir aqui. — Lívia respondeu antes que eu pudesse abrir a boca. — Amanhã eu explico.

Minha mãe franziu a testa, mas assentiu, ela sabia que, quando Lívia entrava no modo “comandante”, era melhor não discutir.

Meu padrasto, o pai da Lívia e, diga-se de passagem, bem parecido com ela, era alto e tinha um bom porte físico, negro da cor do chocolate meio amargo, com os mesmos olhos castanho-escuros dela, boca carnuda e bem desenhada, rosto redodo e, bom, o cabelo eu não poderia comparar, já que ele é careca, acenou do sofá nos cumprimentando.

— Oi, Esther. Quer alguma coisa, filha? — ele sempre fora assim gentil e muito solicito.

— Um cérebro novo, Miguel. — murmurei.

Ele riu, achando que era piada, mas não era.

Lívia me puxou pelo braço escada acima, até o quarto dela, fazendo os dois rirem. Lá, abriu o guarda-roupa e puxou uma toalha e um pijama que jogou em cima de mim.

— Banho. Agora. Depois cama. Amanhã a gente resolve sua vida.

— Eu não preciso que resolvam minha vida — resmunguei.

— Precisa sim — ela respondeu, empurrando-me para o banheiro. — E eu sou a pessoa perfeita pra isso.

Eu não tinha forças para discutir mais, então, tomei banho, coloquei o pijama, deitei e, pela primeira vez em muito tempo, dormi antes das nove e meia. Teria sido perfeito se não houvesse acordado desse sono longo e delicioso com alguém puxando minhas cobertas.

— Acorda, Bela Adormecida! — Lívia sussurrou no meu ouvido. — A festa vai começar.

Abri um olho.

— Que horas são? — grunhi, meio dormindo.

— Cinco.

— Cinco da manhã? — gemi. — Você tá doida?

— Não. Só animada. Agora levanta. — ela me puxou e cutucou até que levantasse a muito contragosto, me arrastou até a penteadeira como se eu fosse um saco de batatas e me ajudou a sentar, ainda meio dormindo, e assim, ela começou a trabalhar.

E quando eu digo trabalhar, quero dizer que ela realmente leva a sério.

— Seus cabelos são lindos, mas você trata eles como se fossem um inimigo — ela reclamou, passando os dedos pelos meus fios castanho-avermelhados ondulados, finos, volumosos e revoltosos.

— Eles são um inimigo — murmurei.

— Não hoje! Chega de gel cola, maninha! — ela levanta um braço, como se comemorasse uma conquista enorme e não resistir a rir.

Lív aplicou finalizador, óleo, creme, e depois veio com o difusor do secador, secando o que para mim parecia uma meleca, mas acabou moldando cada onda com precisão cirúrgica.

Quando terminou, jogou meu cabelo para o lado, criando um caimento sedutor que eu jamais teria sequer pensado em fazer sozinha.

— Pronto. Agora, maquiagem. — a encarei um pouco temerosa, já que agora eu era, aparentemente, um projeto de vida da minha irmãzinha.

— Lívia, eu não vou usar base. — sabia que fazer ela desistir da maquiagem seria impossível, então, poderia ao menos estabelecer limites.

— Eu sei. Você é fresca. — ela revirou os olhos.

— Eu não sou fresca.

— É sim — ela disse, passando rímel nos meus cílios. — Mas eu te amo mesmo assim.

Ela aplicou um pouco de blush, um gloss avermelhado e recuou para me observar.

— Perfeita! — o sorriso já não saia mais da sua boca. — Vamos para a roupa.

Eu deveria ter fugido nesse momento, mas não o fiz. Talvez tenha sido esse o meu maior erro, pois ela logo me entregou uma saia tubinho preta até os joelhos, uma blusa vermelha de mangas curtas com decote em U, e um lenço para amarrar no pescoço.

— Lívia… isso é demais. Vermelho? Qual é!

— Relaxa, vermelho é a cor da sedução, maninha, vai ficar ótimo.

— Eu não vou seduzir ninguém. — resmunguei.

— Claro que não — ela disse, com um sorriso malicioso. — Só vai fazer seu chefe engasgar com o próprio café.

— LÍVIA! — o homem é lindo, uma perdição, mas é meu chefe e isso nunca funcionaria.

— Brincadeira — ela riu. — Mais ou menos.

Por fim, quando terminei de me vestir, ela me entregou um par de saltos altos pretos.

— Não. — Cruzei os braços. — Meus saltos baixos estão ali no canto.

— E vão continuar ali. Calça esse!

— Lívia…

— Esther, eu te vi ontem destruída. Hoje você vai levantar a cabeça e dar a volta por cima e, acredite ou não, saltos deixam qualquer mulher poderosa.

Bufei, mas acabei calçando o bendito salto. Ela me encarou, vendo sua obra de arte, enfim, pronta, e me levou para frente do espelho.

Arquejei de susto, tocando meu rosto e o cabelo, pois estava realmente bonita. Não parecia mais uma workaholic maluca e extremamente focada, parecia apenas uma mulher desejável e confiante.

E isso me assustou mais do que qualquer coisa.

Às sete da manhã, eu já estava hiperventilando dentro do carro, me controlando para não prender o cabelo, não tirar o lenço, não trocar de roupa.

Lívia sabia exatamente o que estava fazendo ao me liberar só nesse horário. Eu não teria tempo de sabotar nada indo para casa, ou me atrasaria como nunca antes.

— Você tá incrível — ela disse do lado de fora do carro. — Vai lá e mostra pro mundo a mulher incrível que você é.

Engoli seco.

— Eu não quero chamar atenção, Lív, ser a mulher invisível até que não é ruim.

— Esther, você merece se sentir linda e poderosa, mesmo que seja apenas por um dia. — assenti, respirando fundo, tentando manter a respiração num compasso firme.

Saí com o carro antes que ela me fizesse um discurso motivacional completo.

...

Quando entrei no prédio, faltando quinze minutos para as oito, o segurança quase não me cumprimentou.

— Bom dia, João! — eu disse, sorrindo.

— Bom dia, Esther — ele disse, só depois que ouviu minha voz. — Nossa… você tá… diferente.

— É — respondi, sem saber o que dizer. — Um pouco.

No elevador, todos me olharam, mas, diferente de ontem, estavam alguns confusos, outros admirados e haviam os sem respeito que me lançavam olhares lascivos.

Isso me deixou extremamente desconfortável, mas respirei fundo. Eu posso lidar com isso, afinal, já dei conta de coisas muito piores.

Quando cheguei ao 38º andar, caminhei normalmente entre meus colegas, fingindo que não percebia os olhares, os sussurros, as sobrancelhas levantadas, até que cheguei à minha mesa, coloquei a bolsa no chão ao lado dela e já ia me sentar, quando ouvi meu nome.

— Esther. — um sussurro, naquela voz tão sedutora que eu ouvia quase todas as manhãs.

Virei devagar e lá estava ele, Adrian Blackstone, parado na porta de seu escritório me olhando como se eu fosse algo a ser estudado.

Os olhos dele, aqueles lindos olhos quase pretos, pareceram escurecer ainda mais, mesmo refletido as luzes fluorescentes do escritório.

E então ele ordenou, baixo, rouco:

— Entre aqui. Agora!

E meu coração quase pulou do peito.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App