Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu sempre fui metódica ao ponto de irritar até a mim mesma, com o cabelo sempre preso no mesmo coque impecável, as roupas sempre alinhadas, passadas, com as cores mais neutras que eu encontrasse, mantendo a postura sempre reta e a expressão sempre controlada.
E nesse bendito dia… eu estava um verdadeiro bagulho! Literalmente, toda torta e mal arrumada. Meu coque estava frouxo, com uma mecha rebelde escapando pela lateral. Minha blusa toda amassada, e eu tinha certeza de que minha expressão oscilava entre “cansada” e “posso morder alguém”. E, claro, todo mundo percebeu, porque hoje era o dia perfeito para deixar de ser invisível! Maldito Eduardo! Quando entrei no elevador para ir almoçar, três pessoas me olharam como se eu tivesse chegado com um unicórnio debaixo do braço. No corredor, duas estagiárias cochicharam me olhando descaradamente e, na copa, o analista do financeiro quase derrubou o café quando me viu. Eu tentei ignorar com todas as minhas forças, mas cada olhar parecia cutucar uma parte diferente da minha paciência que já estava em falta. É só porque você não está perfeita hoje, eu repetia mentalmente. Eles não estão acostumados. Você sempre foi impecável. Invisível, mas impecável. E talvez fosse isso que mais me incomodava, eu, de fato, só chamava atenção quando algo estava errado. Passei a manhã inteira tentando focar no trabalho, mas minha mente insistia em voltar para as palavras de Adrian: “Bem-vinda de volta, Esther... à sua vida. A verdadeira.” Aquilo ecoava dentro da minha mente como se fosse uma caverna com eco. Será que meu casamento me prendia a esse ponto? Eu me abandonei? Deixei de viver? Escondi as frustrações atrás da rotina, da organização, da previsibilidade? Eu não queria responder. Sabia as respostas, o que me irritava profundamente, porque, no fundo, eu já sabia que há um bom tempo nosso casamento não era o mesmo, mas achava que estava tudo sob controle, que era normal nos afastarmos um pouco, todo o romance dar uma esfriada, apenas resultado da rotina exaustiva, mas não era. Só queria saber o que tanto ele queria conversar, se já ia pedir o divórcio e viver a vida com outra, porque negar tudo quando eu o peguei no flagra? Reflexo? Fez no automático? Bom, é uma teoria. O dia passou como um borrão, trabalhei no automático, sem render nem um terço do que me era de costume, sem conseguir me concentrar o mínimo que fosse em qualquer tarefa. Às quatro da tarde, eu finalmente cedi e liguei para minha irmã. Minha melhor amiga. — Oi, Lív — falei assim que ela atendeu. — O que aconteceu? — ela perguntou imediatamente. — Sua voz tá estranha. Eu suspirei. Lívia sempre foi uma antena parabólica emocional, parecia captar tudo mesmo a distância, ou só me conhecia muito bem mesmo, o que é mais possível. — Preciso te ver — admiti. — Hoje, se você puder — Shopping? — ela sugeriu. — Aquele perto da sua empresa? — Pode ser. — respirei, aliviada. — Ótimo. Eu tô saindo da faculdade agora. Me encontra lá quando sair do trabalho. — Tá. — E, Esther… — ela disse, com a voz mais suave. — Seja o que for, damos um jeito, o.k.? — O.k. — respondi e desliguei antes que começasse a chorar. Às seis em ponto, eu estava no shopping. Até tinha tentado ajeitar melhor o cabelo e esticar um pouco a blusa para parecer menos… destruída, mas não estava nem perto do meu normal e Lívia com certeza notaria. Eu só preciso desabafar e ela é a única pessoa no mundo com quem eu consigo ser completamente honesta. Ela me encontrou perto da praça de alimentação, acenando como se eu estivesse a quilômetros de distância e não pudesse ver seu lindo cabelo cacheado, suas pulseiras brilhantes em contraste com a pele escura e sua silhueta de amazona de longe — Meu Deus, Esther! — ela exclamou, chegando perto. — O que aconteceu com o seu cabelo? Eu revirei os olhos. — Oi pra você também. — Desculpa, mas… você tá parecendo uma pessoa normal. É assustador. Nem passou aquele gel cola nojento no cabelo. — Como você é gentil, maninha. — murmurei, sem humor. Ela me puxou pela mão. — Vamos comer. Ninguém consegue sofrer de estômago vazio. — ela sorriu, pois essa era a parte em que ela realmente ficava feliz. Cada uma foi para um lado da praça. Eu escolhi comida italiana — massa, molho, carboidratos que abraçam a alma. Lívia voltou com um lanche enorme, batatas fritas e um milkshake que parecia gritar infarto. — Você só é magra de ruim — comentei, olhando para o prato dela. — E você é amarga de fome — ela rebateu, dando uma mordida gigantesca em seu lanche enquanto eu a chutava por debaixo da mesa. — Agora fala. — ela grunhiu. — O que aconteceu? Respirei fundo. Uma, duas três vezes, pensando em como contar. — Eu peguei o Eduardo me traindo. — não tinha um jeito leve de contar, no fim das contas. Ela congelou. Literalmente parou com o lanche a dois centímetros da boca. — O quê? — gritou e as pessoas em volta olharam como se ela fosse maluca. — Com outra mulher. No nosso quarto. — Falei baixo, sem querer chamar mais atenção. Lívia piscou e pigarreou, percebendo o estardalhaço que fez, e revirando os olhos para os que ainda a olhavam curiosos, depois, largou o lanche como se fosse radioativo. — Eu vou matar ele. — ela bateu com as mãos nas próprias pernas. — Entra na fila — respondi, rindo pela primeira vez no dia. E então, sem mais rodeios, contei tudo a ela, cada detalhe. A porta encostada, o gemido, a cena digna dos sites adultos, a risada que me escapou como se eu estivesse quebrando por dentro, como o expulsei e até como fui para o trabalho parecendo uma versão zumbi de mim mesma. Lívia ouviu tudo em silêncio, o que era raro. Quando terminei, ela respirou fundo e disse: — Esther… você passou anos sendo a esposa perfeita. A funcionária perfeita. A mulher perfeita. E por quê? Pra ser traída por um idiota que nem sabe dobrar uma toalha? — ela ergue as mãos, parecendo indignada. — O pior é que não sei o que fazer agora. — admiti. — Agora? — ela repetiu. — Agora você vive, ué. Aquela frase pareceu coçar o fundo da minha mente. — O Adrian disse algo parecido. — murmurei, sem pensar. Lívia arregalou os olhos. — O quê? O gostoso do seu chefe falou o quê? — ela se aproximou como se estivesse morrendo de curiosidade, arregalando os olhos castanho-escuros com um sorriso travesso no rosto. — Lívia… — me encolhi na cadeira, revirando os olhos. — Não, não, não! — ela levantou o dedo. — Você vai repetir. Palavra por palavra. Suspirei. — Ele disse: “Bem-vinda de volta à sua vida. A verdadeira.” — eu disse tentando imitar o tom de voz galanteador dele. Lívia abriu um sorriso tão grande que certamente seria possível ver até com ela de costas. — Ele te quer! Esse homem quer o seu corpinho, irmã! Quer que você vá viver a vida loucamente nos braços dele. — ela gargalha e eu rio, sacudindo a cabeça em negativa. — Ah, para, Lívia! Pelo amor! — Esther… — ela disse, inclinando-se para frente. — Eu acho que você não percebeu, mas sua vida acabou de começar. Eu suspirei e olhei para o meu prato vazio, com restos de molho, o garfo caído ao lado, para minhas mãos tremendo levemente, e pela primeira vez em muito tempo eu percebi que podia respirar realmente, relaxar um pouco, senti algo parecido com liberdade, um alívio. Quando terminamos de comer, Lívia me abraçou forte. — Você não tá sozinha — ela disse. — E eu vou te ajudar a reconstruir tudo. Nem que eu tenha que te arrastar pelos cabelos. — Por favor, não me faça mudar todo meu guarda-roupas para peças cor-de-rosa agora. — respondi, e nós duas rimos. Caminhamos um pouco em silêncio, até que ela me olhou com carinho e apertando de leve meu braço, disse: — Você vai ficar bem, Esther. Melhor do que bem. Você vai ficar incrível. E, pela primeira vez naquele dia, eu acreditei.






