Mundo de ficçãoIniciar sessãoAdmito, quando ouvi meu nome na voz dele, senti um arrepio percorrer minha espinha. Não sabia dizer se a sensação era boa ou ruim, era elétrico, diferente.
Virei devagar, tentando parecer calma, mas meu coração estava batendo tão forte que eu tinha certeza de que qualquer pessoa a dois metros ouviria. Adrian estava parado na porta do escritório, a mão segurando o batente como se precisasse se apoiar. E os olhos dele… Eu nunca tinha recebido um olhar aqueles antes, era como se ele estivesse vendo algo que desejava, mas não deveria. Algo que o surpreendia e incomodava ao mesmo tempo. — Entre aqui. Agora!— ele ordenou e entrou em sua sala. Sua voz naquele tom, tão baixa e rouca, fazia algo em minha cabeça gritar perigo. Engoli seco e caminhei até o escritório dele, sentindo cada passo sem firmeza, como se estivesse atravessando um campo minado. Quando parei a pouco mais de um metro dele, percebi que ele estava respirando rápido demais, ou talvez, farejando? Hiperventilando? Era difícil dizer. — O que houve? — perguntei, tentando manter a compostura e não gaguejar. Ele não respondeu de imediato, apenas me observou de cima a baixo, dos meus cabelos soltos, caindo em ondas sobre o ombro, ao lenço no pescoço, passando pela blusa vermelha, a saia, chegando nos saltos e voltando para os meus olhos. — Você está diferente — ele disse, cada palavra saindo como se estivesse escolhendo com cuidado. — Muito diferente. — Minha irmã... — murmurei, sem saber por que estava me justificando, afinal. — ela me arrumou hoje. Ele inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse analisando uma obra de arte ou um objeto não identificado. — Ela fez um bom trabalho. — disse por fim, sorrindo de lado, e me olhando por inteiro de novo o que fez meu rosto esquentar, parecia um predador analisando a presa, de repente, me senti acuada, mesmo que extremamente voltada a possibilidade de me jogar sobre ele e arrancar toda a roupa nossos corpos e... Sacudo a cabeça, tentando voltar a realidade, percebendo que ele me olhava com curiosidade enquanto me perdia em fantasias eróticas com ele. — Eu não fiz isso para… — parei, percebendo o rumo da frase. — Não fiz isso para chamar a atenção de ninguém, sabe? — ainda não entendia porque estava me justificando tanto, ele é meu chefe, mas não é como se eu estivesse andando pelada por aí, mas era como se algo me impelisse a isso, a falar mais e mais. — Não? — ele deu um passo à frente. — Tem certeza? Meu coração deu um salto tão forte que quase saiu pela boca. — Absoluta — respondi, firme. — Depois de ontem, eu só precisava que aquele episódio fosse completamente esquecido. Ele sorriu. Um sorriso lento, quase predatório. — Ótima ideia, certamente ninguém vai se lembrar nem de ontem e nem do seu cabelo cheio de gel depois disso. Antes que eu pudesse perguntar o que todo mundo tinha contra meu gel, alguém pigarreou atrás de nós. Virei e vi um homem que eu nunca tinha visto pessoalmente, mas reconhecia de fotos internas e reuniões por vídeo. Marcus Hale, o braço direito do Adrian, o homem que todos na empresa temiam mais do que o próprio CEO. Era alto, postura militar, cabelo escuro cortado rente a cabeça, expressão séria. Ele parecia o tipo de pessoa que nunca sorria. Nunca relaxava, era difícil até vê-lo piscar pelo que diziam. — Senhor Blackstone, — Marcus disse, com a voz firme. — precisamos revisar os documentos da fusão antes da reunião das nove. Adrian não tirou os olhos de mim. — Depois. — o encarei confusa. Marcus franziu o cenho. Um movimento mínimo, mas suficiente para mostrar que aquilo era incomum, e eu sabia que era, afinal, eu era tão maluca com meu trabalho e eficiência porque Adrian sempre exigira muito dos funcionários e nunca perdia um compromisso. — Senhor, é importante. — Eu disse depois — Adrian repetiu, sem desviar o olhar. Marcus me observou, então, não como os outros funcionários tinham feito, sem surpresa, afinal, ele nem me conhecia, mas também nada de admiração ou malícia. Ele estava apenas me analisando, como se estivesse tentando entender por que eu, uma simples secretária, estava provocando aquela reação quase obsessiva no CEO. Se ele encontrasse a resposta, eu aceitaria recebê-la com prazer. — Bom dia, senhorita Duarte. — ele disse, formal. — Bom dia. — respondi, tentando não parecer incomodada por estar ali, aparentemente atrapalhando o que quer que ele desejasse resolver. Ele continuou me encarando por um segundo a mais do que era necessário e voltou-se para Adrian. — Estarei na sala de reuniões. — avisou, antes de sair. Quando ele se afastou, senti o ar ficar menos denso, como se a presença dele causasse certa pressão no ambiente. Quando já não era mais possível vê-lo, Adrian finalmente respirou fundo. — Ignore o Marcus — disse. — Ele é… — ele refletiu por um momento — rígido. — Ele parece… intenso. — pigarreei. — Ele é, — Adrian concordou. — mas tanto é confiável. Havia algo na forma como ele disse aquilo sugeria que Marcus provavelmente era um grande e confiável amigo, havia certo carinho em sua voz, era muito raro ouvi-lo falar assim de alguém. — Esther — Adrian chamou, voltando a focar em mim. — Você está bem? — ele já me observava de um jeito mais habitual agora, parecendo até preocupado. A pergunta me pegou de surpresa. — Sim. Quer dizer… estou tentando ficar. — falei, sincera. Ele assentiu, como se realmente entendesse. Se não fôssemos chefe e funcionária, poderíamos ser bons amigos, mas nunca permiti muita proximidade, afinal, eu era casada e isso poderia gerar muitos boatos. — Se precisar de algo… qualquer coisa… me avise. A forma como ele disse “qualquer coisa” fez meu estômago dar cambalhotas com algo que eu não queria nomear. — Obrigada, senhor Blackstone. — tentei ao máximo me manter educada, mas distante. Ele estreitou os olhos. — Adrian. — O quê? — Me chame de Adrian. Meu coração parou. — Eu não acho que seja adequado, Senhor. — tentei, mas sabia o quanto ele era um homem teimoso. — Eu sou seu superior e digo que é, sim, adequado. — ele afirmou, com um sorriso que parecia perigoso demais para ser legalizado. — E quero ouvir você dizer. — Adrian — murmurei, quase sem voz, sabendo que já era uma luta perdida e teria de ceder mais cedo ou mais tarde. Os olhos dele escureceram de novo, mas um brilho vermelho pareceu passar por eles por um momento, como ontem. — Perfeito. Antes que eu pudesse pensar mais sobre o assunto, ele deu um passo para trás. — Agora vá trabalhar — ordenou, voltando ao tom profissional, indo até sua mesa. — Antes que eu esqueça que estamos no escritório. — ele me lançou um sorrisinho de canto. Saí rápido, quase tropeçando nos saltos altos de Lívia, e só então percebi algo: o corredor estava silencioso. Levantei a cabeça todos os funcionários estavam olhando para mim. Quando perceberam que eu havia notado, desviaram o olhar rapidamente, fingindo voltar a trabalhar. Meu rosto queimou de vergonha, mas respirei fundo, endireitei a postura e caminhei até minha mesa como se nada tivesse acontecido. No entanto, dentro de mim, muita coisa estava acontecendo, e eu sabia que aquele dia seria muito longo. E que Adrian Blackstone, independente das minhas intenções ou da falta delas, já não me via mais da mesma forma.






