Mundo de ficçãoIniciar sessãoO jantar na mansão Lancaster parecia menos um encontro familiar e mais uma reunião diplomática entre inimigos prestes a iniciar uma guerra. A mesa comprida de madeira escura comportava pessoas demais e calor humano de menos.
Noah permaneceu em silêncio enquanto empregados serviam vinho e pratos sofisticados com precisão quase mecânica. O ambiente inteiro era elegante em excesso, cuidadosamente perfeito, exatamente como Arthur Lancaster gostava.
Seu pai estava sentado na cabeceira da mesa, imponente como sempre. O cabelo grisalho impecavelmente alinhado, o relógio caro brilhando discretamente no pulso e a postura de alguém acostumado a controlar tudo ao redor apenas com a própria presença.
— Ouvi dizer que finalmente resolveu lidar com o testamento do seu avô — Arthur comentou casualmente enquanto cortava a carne.
Noah sequer ergueu os olhos.
— Damian fala demais.
— Damian é inteligente o suficiente para entender o impacto que isso teria na empresa se você falhasse.
Claro, sempre voltava para os negócios.
Imagem.
Controle.
Legado.
Arthur apoiou os talheres no prato.
— Quem é a mulher?
— Isso importa?
— Tudo importa quando envolve o nome Lancaster.
Noah tomou um gole de vinho antes de responder.
— Tiffany Rossi.
Por um instante raro, Arthur pareceu realmente surpreso. Então algo parecido com desprezo atravessou sua expressão.
— A filha de Marco Rossi?
Noah sentiu o maxilar endurecer.
— Sim.
Arthur soltou uma risada baixa e fria.
— Interessante. O pai destruiu a própria empresa tentando acompanhar homens maiores do que ele… e agora a filha aceita se vender para sobreviver.
A frase atravessou Noah de maneira inesperada, incômoda. Porque havia crueldade nela, mas também porque parte dele reconhecia o quanto aquela situação realmente parecia feia vista de fora.
Um casamento comprado.
Uma mulher desesperada.
Um contrato.
Ele afastou o pensamento imediatamente.
— Não estou interessado em opiniões morais sobre isso.
Arthur observou o filho por alguns segundos, longos demais.
— Não. Você nunca esteve.
O comentário carregava mais significado do que aparentava.
Uma provocação antiga.
Uma acusação silenciosa.
Noah conhecia aquele jogo desde criança, seu pai sempre encontrava formas sutis de lembrar que emoções eram fraquezas perigosas. E talvez tivesse conseguido ensinar aquilo bem demais.
— Só tome cuidado — Arthur continuou calmamente. — Mulheres desesperadas costumam se tornar problemas imprevisíveis.
Noah ergueu os olhos lentamente.
— Eu sei exatamente o que estou fazendo.
Mas a verdade era que já não tinha tanta certeza disso.
Na manhã seguinte, Tiffany recebeu os documentos enviados por Damian Keller. O envelope preto parecia pesado demais em suas mãos.
Ela ficou vários minutos apenas observando o nome gravado em letras discretas: CONTRATO MATRIMONIAL.
Seu estômago embrulhou instantaneamente.
Sophia, sentada no sofá do apartamento, arrancou uma folha da mão dela antes que pudesse impedir.
— Meu Deus… isso parece um pacto demoníaco escrito por advogados milionários.
Tiffany afundou na cadeira da cozinha.
— Talvez seja exatamente isso.
Sophia continuou lendo.
— “As partes comprometem-se a manter imagem pública compatível com união legítima…” Nossa. Isso é assustadoramente formal.
— Ele é assustadoramente formal.
A amiga largou os papéis sobre a mesa.
— Você não precisa fazer isso.
— Preciso.
A resposta saiu rápida demais, automática demais.
Sophia suavizou a expressão.
— Tiff…
— Eu não tenho opções.
E aquela era a pior parte porque Noah Lancaster sabia disso. Cada cláusula do contrato parecia construída sobre a consciência cruel de que ela estava encurralada.
Moradia.
Dinheiro.
Tratamento médico.
Proteção financeira total.
Em troca: um casamento sem amor, sem intimidade emocional, sem liberdade verdadeira.
Tiffany passou os dedos pelos próprios cabelos, sentindo a pressão crescer lentamente dentro do peito.
— Ele age como se sentimentos fossem inconvenientes administrativos.
Sophia observou a amiga em silêncio por alguns segundos.
— E o que você sente quando pensa nele?
A pergunta a pegou desprevenida.
Irritação.
Orgulho ferido.
Desconforto.
Mas também algo mais difícil de admitir, Noah Lancaster parecia o tipo de homem que escondia rachaduras profundas atrás do controle absoluto. E pessoas quebradas reconheciam outras pessoas quebradas, talvez fosse isso que mais a assustava.
O celular vibrou sobre a mesa, era uma mensagem de Damian.
“O senhor Lancaster gostaria de discutir pessoalmente os termos finais do acordo.”
Sophia soltou uma risada desacreditada.
— “Termos finais.” Ele realmente fala como uma fusão empresarial.
Tiffany fechou os olhos por um instante, e então pegou a bolsa.
— Se eu aceitar isso… preciso fazer direito.
— E se você acabar se machucando?
Ela permaneceu em silêncio, porque aquela possibilidade já parecia inevitável.







