Inicio / Romance / Cláusulas do Destino / CAPÍTULO 4 - Selando o próprio destino
CAPÍTULO 4 - Selando o próprio destino

O escritório de Noah Lancaster parecia ainda mais frio à noite.

As luzes da cidade brilhavam além das paredes de vidro, transformando Manhattan em um mar distante de ouro e sombras, mas nada naquele lugar transmitia calor. Nem os móveis impecáveis. Nem o silêncio sofisticado. Nem o homem parado diante da janela, observando a chuva cair sobre a cidade como se pertencesse a outro mundo.

Tiffany parou na entrada por alguns segundos antes de fechar a porta atrás de si.

Dessa vez, não havia recepcionistas.

Nem advogados.

Nem distrações.

Apenas os dois.

Noah virou-se lentamente ao perceber sua presença. O terno escuro perfeitamente alinhado, a expressão controlada e os olhos cinzentos imediatamente fixos nela criavam a sensação desconfortável de estar entrando em território perigoso. Ela odiava o efeito que ele causava no ambiente, ainda mais em si mesma.

— Senhorita Rossi — ele a cumprimentou em tom calmo.

— Você sempre fala como se estivesse iniciando uma reunião corporativa?

— Geralmente estou iniciando uma.

Ela soltou uma respiração contida, aproximando-se da mesa onde o contrato aguardava aberto. Aquilo parecia surreal, um pedaço de papel capaz de mudar completamente sua vida ou destruí-la.

Noah observou discretamente a tensão em seus ombros. Ela parecia cansada não só fisicamente como emocionalmente. Como alguém que passara tempo demais lutando sozinha. E, pela primeira vez desde que idealizara aquele acordo, ele sentiu algo perigosamente próximo de culpa. A sensação o irritou imediatamente.

— Damian explicou as cláusulas principais? — perguntou.

Tiffany cruzou os braços.

— Explicou. Casamento por um ano. Aparência pública impecável. Nenhum envolvimento emocional. Nada de escândalos. Nada de filhos. Nada de amor.

Ela pronunciou a última palavra com ironia amarga.

Noah sustentou o olhar dela sem reagir.

— Isso é um problema?

— Você fala sobre sentimentos como se estivesse proibindo animais de estimação em um apartamento.

— Emoções complicam acordos.

— Não. Pessoas complicam acordos.

Algo silencioso passou pelo olhar dele naquele instante, algo rápido demais para ser identificado. Mas Tiffany percebeu, e isso a deixou ainda mais desconfortável.

Ela puxou uma cadeira e sentou-se devagar diante do contrato com páginas pareciam intermináveis.

Cláusulas frias.

Objetivas.

Distantes.

Cada linha reforçava a realidade cruel daquela situação: ela estava prestes a vender um ano da própria vida porque não conseguia salvar a própria família sozinha.

A humilhação queimou lentamente em seu peito, e Noah notou quando ela desviou o olhar para esconder a emoção.

— Ainda pode ir embora — disse calmamente.

Tiffany ergueu os olhos imediatamente.

— Isso é consciência pesada?

— Isso é lógica. Um acordo só funciona se ambas as partes aceitarem os termos livremente.

Ela soltou uma risada curta e sem humor.

— “Livremente.” Interessante escolha de palavra para alguém que sabe exatamente o quanto estou desesperada.

O silêncio pairou entre eles porque ela tinha razão.

Noah aproximou-se da mesa lentamente.

— Eu não criei os problemas da sua vida, senhorita Rossi.

— Não. Você só apareceu oferecendo uma solução conveniente demais.

— E isso a incomoda porque....?

— Porque homens como você sempre acham que dinheiro compra tudo.

A frase saiu mais forte do que ela pretendia.

Mais pessoal.

Mais ferida.

Noah ficou imóvel por alguns segundos e então respondeu em voz baixa:

— Dinheiro não compra tudo.

Havia algo diferente naquele tom, algo obscuro que remetia ao passado. Mas desapareceu rápido demais para que ela pudesse compreender.

Ele puxou outra cadeira e sentou-se à frente dela. Pela primeira vez desde que se conheceram, a distância entre os dois pareceu pequena demais. Perigosa demais.

— Você me odeia — Noah observou.

Tiffany quase respondeu imediatamente, mas hesitou. Porque ódio talvez fosse simples demais para definir aquilo. Ela o via como tudo aquilo que desprezava: controle, frieza e poder usados como arma.

E ainda assim... havia momentos em que enxergava rachaduras na máscara dele. Momentos pequenos e involuntários. O problema era que pessoas quebradas costumavam reconhecer dor umas nas outras.

— Eu acho você arrogante — respondeu por fim.

Noah aceitou a resposta sem reação.

— Justo.

— Acho que você transformou emoções em algo tão descartável que nem percebe mais quando machuca os outros.

Dessa vez, algo endureceu em seu olhar. Não era raiva, era defesa.

— E eu acho você orgulhosa demais para admitir quando precisa de ajuda.

O golpe acertou em cheio e Tiffany desviou os olhos instantaneamente. Porque aquela era exatamente a sua maior vergonha...Precisar, depender e fracassar.

Ela respirou fundo antes de perguntar:

— Por que eu?

Noah permaneceu em silêncio por um momento.

A resposta lógica seria simples: ela era adequada, discreta, inteligente, e não parecia interessada em fama.

Mas aquilo não explicava completamente, não explicava por que continuava lembrando do olhar dela no hotel. Nem por que asua presença bagunçava um equilíbrio emocional que ele passara anos construindo.

— Porque você não parece impressionada comigo — respondeu por fim.

A sinceridade inesperada a pegou desprevenida, Tiffany arqueou uma sobrancelha.

— Isso foi quase humano.

Por incrível que parecesse, Noah quase sorriu outra vez.

Quase.

Ela percebeu, e algo estranho apertou seu peito.

O problema era aquele: os pequenos momentos.

As brechas involuntárias.

Porque era mais fácil odiá-lo quando ele parecia completamente incapaz de sentir qualquer coisa.

Noah empurrou a caneta sobre a mesa.

— Se aceitar, sua família estará protegida imediatamente.

A realidade voltou como um choque frio.

Hospital.

Dívidas.

Cobranças.

A expressão cansada da mãe, os sonhos abandonados. Tudo pesou sobre ela ao mesmo tempo. Tiffany encarou o contrato em silêncio, e a assinatura parecia distante, definitiva, irreversível.

Helena tinha razão, algumas escolhas mudavam quem você era depois.

Tiffany sentiu o coração acelerar lentamente enquanto pegava a caneta.

Noah observava cada movimento sem demonstrar emoção, mas havia tensão escondida sob sua aparente calma. Porque aquilo também mudaria sua vida, mais do que estava disposto a admitir.

— Uma última pergunta — Tiffany disse antes de assinar.

— Qual?

Ela ergueu os olhos diretamente para ele.

— Você já amou alguém de verdade?

O silêncio que veio depois pareceu longo demais, e os olhos cinzentos dela sustentaram os dele sem hesitação.

Então Noah respondeu:

— Amor é uma fraqueza perigosa.

A forma automática como disse aquilo causou algo dentro dela, uma tristeza inesperada. Porque ninguém aprendia a falar daquele jeito sem ter sido destruído primeiro.

Tiffany assinou o contrato antes que pudesse mudar de ideia. O som da caneta riscando o papel pareceu alto demais dentro da sala silenciosa.

Noah observou a assinatura surgir lentamente na última página. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu uma estranha sensação de perda antes mesmo de possuir alguma coisa.

Ela largou a caneta sobre a mesa.

— Pronto. Sua cláusula está resolvida.

Mas não havia vitória em sua voz, apenas cansaço.

Noah assinou logo abaixo do nome dela com movimentos firmes e precisos e o acordo estava oficialmente selado.

Um ano, apenas um ano. Era isso que ambos continuavam repetindo para si mesmos. Como se fosse simples, como se pessoas não fossem capazes de destruir umas às outras em menos tempo do que isso.

Tiffany levantou-se devagar.

— Então é isso?

Noah também se levantou e a proximidade repentina trouxe novamente aquela tensão estranha entre os dois... Elétrica, desconfortável e intensa demais para dois desconhecidos.

— Não — ele respondeu calmamente. — Agora começa a parte difícil.

Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos, e pela primeira vez desde que se conheceram, sentiu algo perigoso atravessar a irritação. Não era confiança, mas curiosidade. O tipo de curiosidade que costumava anteceder desastres.

Do lado de fora, a chuva continuava caindo sobre Manhattan. Como se a cidade inteira ignorasse que, naquele exato instante, duas pessoas emocionalmente destruídas acabavam de assinar o início da própria ruína.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP