Parte 40...AuroraNem acreditei quando passei em frente de uma galeria e vi o cartaz preso na vitrine. Um espaço para alugar e bem em frente da praça. Entrei rápido e uma mulher me atendeu com educação e não sei o que houve, mas acho que ela foi com a minha cara e acreditou em mim.Expliquei que tinha me mudado há poucos dias para a casa que era de minha avó e quando disse o nome dela, pra minha sorte, os pais dela conheciam minha avó e isso facilitou que ela me desse o aluguel, mesmo sem estar com os documentos da casa em mãos.Eu tinha saído para ver se havia algo, mas não esperei encontrar tão rápido. Ainda estava com a ideia no encontro com Arturo. Isso me deixou bem empolgada.— Nossa, muito obrigada pela confiança. Volto à tarde com os documentos da casa, mas ainda estão em nome dela.— Não tem problema, pode ser assim mesmo, mas aconselho você a fazer a troca logo, já que pretende morar aqui.— Sim, com certeza vou fazer isso. É que ainda estou na fase de finalizar a reforma.
Parte 41...AuroraEu nem sei o que sentir sobre isso. Que confusão. Apertei a lateral da cabeça, sentindo latejar e meus dedos ficaram sujos de sangue.— Deixe eu te ajudar com isso.— Não! - estiquei a mão — Pode parar por aí. Você mentiu pra mim.— Eu não menti.— Ah, não? E aquele papo de amar outra pessoa e não querer se casar comigo?— Não era mentira, mas eu mudei de ideia.— Pelo amor de Deus! - olhei para Alma segurando Samuel — Se quer ajudar, então comece por eles, que foram as vítimas de verdade. - saí para a cozinha pegar gelo.— Aurora, deixe eu te ajudar - ele veio atrás de mim — Escute o que tenho a dizer.— Para quê? - passei para a parte de trás, na lavanderia e enfiei a cabeça embaixo da torneira, fazendo careta de dor — Eu quase achei que você poderia ter decência, mas estava enganada, só queria me enrolar.— Não foi assim... Eu realmente tinha sete dias para convencer você a voltar comigo e se casar, mas fui honesto quando contei que eu amo outra pessoa.Eu olhei
Parte 42...Aurora— E se eu te der um beijo? - repetiu quando eu não disse nada.Arturo estava perto. Cínico, confiante. Como se a ideia de selar um acordo com um toque na minha boca fosse lógica de máfia. É, talvez fosse. A lógica dos mafiosos não é lá muito adequada. Vai mais de interesses e conveniência.— Tenta - retruquei, seca. — Só tenta pra você ver o que pode acontecer.Ele abriu um meio sorriso. Inclinou o corpo em minha direção. Estava prestes a dizer alguma outra idiotice quando a porta os passos vieram firmes e olhei na direção da porta que escancarou com violência.— Mas que porra tá acontecendo aqui?Domenico. Suado, tenso, olhos faiscando. Ele olhou pra mim, depois pra Arturo, e o sorriso que veio não tinha nenhum humor.— Claro. Devia ter imaginado. Você já correu para outro - apertou os olhos me encarando.— Domenico, não é o que você pensa... Meu coração estava batendo forte. Ele apareceu muito antes do que pensei quando li sua mensagem.— Não me faz de otário, Au
Parte 43...DomenicoEu não acredito que depois de viajar tantas horas, ela tenha me feito uma sacanagem dessa. Como assim o bostinha do Arturo já estava com ela aqui? E todo o papo de que não ficava com outro além de mim?Passei a mão pelo cabelo com irritação, mas acho que bem mais decepção. Achei que tinha agido errado com ela, mas pelo visto não fui tão errado assim. Aurora já estava planejando outras coisas com outro.E isso me doeu muito. Mais do que imaginei. E o pior é que eu acreditei nela, no que me disse sobre ter mais coisas que eu não sabia. Achei que ela estava sendo pressionada pelo pai.— Inferno!Parei o carro no estacionamento do hotel. Não posso voltar para casa agora. Não tenho disposição de fazer o caminho de volta e agora nem vou encontrar horário da balsa.Fiz meu formulário de entrada. Não coloquei quanto tempo vou ficar aqui. Sei lá. De repente, depois que eu dormir, possa voltar lá para falar com ela e entender melhor que porra ela quer de verdade.Fiquei ess
Parte 44...AuroraEu me segurei no lugar. Me recuso a fugir de novo. Não aqui. Dessa vez eu vou revidar.— Ah... Mas você vai aprender a ter de novo. Não se preocupe - enrolou o cinto na mão e veio em minha direção, muito perto — Você agora vai fazer o que eu quero. Vai voltar comigo e vai se casar como foi feito o acordo. — Não vou! - estremeci.— Vai. Você vai, nem que seja morta, mas eu vou fazer você me pagar todos esses anos de raiva e frustração.— Por que simplesmente não me deixa em paz? - abri os braços — Se sempre quis que eu saísse de casa, aí está sua chance.— Agora não. Agora você vai fazer o que eu mando - avançou para mim.Eu entendi que dessa vez ele estava mais possesso do que das outras vezes e isso representava perigo pra mim.Recuei depressa, saindo de sua frente e tentei correr para trás do sofá, mas ele me puxou pelo cabelo com força e senti logo a dor do machucado anterior. Fechei os olhos e mordi o lábio para não gritar.— Eu deveria ter te matado antes, sua
Parte 45...DomenicoDeus meu! O ódio que eu senti foi forte e imediato, assim que entrei na casa e vi a pior cena que meus olhos podiam ver. Aurora no chão, machucada, sendo agredida pelo próprio pai. Aquilo me fez ferver o sangue. Não sei como não atirei logo naquele desgraçado. Meu coração batia tão forte que eu podia sentir a pulsação em minha têmpora.— Domenico... - a voz dela estava fraca e chorosa — Não faça isso, por favor!— Ele estava te machucando.— Mas não é por ele - segurou meu braço — Ele não vale que você tenha problemas.— Vá embora - eu peguei o velho e o empurrei para fora, quase fazendo com que caísse de novo — E não volte aqui, senão eu te mato!— Você é um idiota - ele limpou o sangue da boca com o braço — Vai se arrepender de defender essa aí. Vagabunda e...— Cale a porra da boca, Teodoro - dessa vez foi Arturo quem falou — Você ficou maluco? — E por que você está enrolando para levar essa suja de volta? Seu pai e eu temos o acordo de pé ainda.— Sim, eu se
Parte 46...DomenicoEla assentiu com um movimento quase imperceptível, os olhos marejados, a pele fria. Quando ergui a blusa devagar, senti o mundo desabar debaixo dos meus pés.A pele dela estava marcada com crueldade. Vergões vermelhos e roxos serpenteavam pelas costelas, pela lateral da barriga. Uma linha mais funda, aberta pela fivela, ainda sangrava devagar. Respirei fundo. Me controlei. Mas por dentro, eu já estava em chamas.— Filho da puta... - murmurei, quase num sussurro.Ela não respondeu. Apenas fechou os olhos enquanto eu a ajudava a tirar o resto da roupa com cuidado, como se cada peça fosse feita de vidro, que furava a carne dela. Quando vi o hematoma na lateral do rosto, o corte ainda fresco na testa, precisei virar o rosto por um segundo para não socar a parede. Mas ela me puxou de volta com um olhar. Um olhar que dizia "não me abandone agora."— Está tudo bem - menti, puxando o ar com força pelo nariz. — Eu estou aqui.Liguei o chuveiro. Esperei a água esquentar e
Parte 1...Aurora Deluca - Nove anos de idadeEu me assustei e abri os olhos depressa, olhando de um lado para outro na escuridão do meu quarto. Só a luz do banheiro iluminava um pouco com a porta aberta. Sentei. Ouvi um barulho e depois entendi que era um choro. Meu coração deu uma batida forte. Eu sabia de quem era o choro.Era minha mãe. De novo.E isso só significava uma coisa. Meu pai estava em casa. E aos nove anos, eu já não me sentia feliz quando ele chegava.Eu amo meu pai, mas ele não é uma pessoa fácil. Ou boa. Tenho medo dele, sempre tive. Ele não gosta de mim e eu sinto isso. Eu sei que tenho só nove anos, mas minha mãe sempre me diz que sou muito esperta e inteligente.E por isso eu sei que ele não gosta de mim. Não sei porque, não me lembro de ter feito algo errado. Sou uma menina obediente, estudo e gosto de ajudar mamãe.Me assustei de novo quando ouvi um som alto, parecendo uma queda. Pulei da cama, as mãos cruzadas em meu peito e andei devagar ate a porta do quarto