Mundo ficciónIniciar sesión— Pode parar aqui mesmo, Felix — Lennon mandou ao motorista, observando através da janela a residência do caipira, duas casas a frente. — Desligue o carro. Preciso de um tempo.
Assim ele fez. Com calma, ela deitou a cabeça e fechou os olhos. Respirou fundo uma vez. Duas. Então encarou a rua adiante. Pensou que deveria sair do carro, bater na porta e ter um jantar agradável com os Joseph. Um plano fácil de decorar, entretanto, difícil de executar... Em seu ultimo relacionamento, que foi há 6 anos, Lennon passou por maus bocados com o herdeiro de uma concessionária popular de Los Angeles. Ethan O’Conor, o rapaz no qual entregou anos de sua juventude em um namoro maravilhoso... no início. Com o passar do tempo, ele se tornou outra pessoa, e revelou uma personalidade narcisista. Ele e toda a família, que antes pareciam adorá-la, passaram a insultar Lennon, nas redes sociais e entre os amigos e sócios em comum. Naquele banco, enquanto coçava repetidamente o interior do dedo polegar — mania ansiosa —, Lennon se obrigou a lembrar que os Joseph não eram como os O’Conor. E caso fossem, caso se tornassem iguais ou pior que eles, os lembrariam de que comem na sua mão. E não hesitaria em amassá-los como um papel de bala caso se visse como uma presa apanhada na armadilha de um relacionamento destrutivo. É isso. Ela estava no comando. Ela tinha um plano. Ficará bem. — Vou seguir a pé, Felix — avisou, já abrindo a porta com a bolsa no ombro. — Jante em um lugar legal. Não conheço esse bairro, mas acho que deve ter algum restaurante decente por aqui. — Não se preocupe comigo, senhorita Kutcher. Estarei esperando quando terminar sua reunião. Era um jantar com a sogra, ela quis corrigir, mas não se deu o trabalho. Uma vez fora do carro, Lennon bateu a porta e caminhou até a casa dos Joseph. O jardim estava defasado, a fachada precisando de uma pintura nova e quando abriu o portão, um rangido revelava a idade das ferrugens. Bateu na porta e esperou, o vidro gelado contra os dedos, pressionados em nervosismo. Talvez devesse ter levado outra coisa... Ouviu alguns murmúrios, uma gargalhada e em seguida, foi recebida por um Jhon de camisa branca, cabelos loiros molhados e penteado e um sorriso tão acolhedor que algo deixara seu estômago gelado. — Seja bem-vinda — o caipira abriu mais a porta. Uma mulher ruiva, com longos fios, surgiu ao lado dele. — Mãe, essa é a Lennon. — Boa noite, senhora Joseph — a voz firme, embora sentisse o coração ansioso. Precisava se lembrar de que estava no comando, ela pode dar fim aquilo quando bem entender. Estendeu o vaso de flores. — Um presente. São flores de lótus, representam longevidade. Clarice abriu um terno sorriso, apanhando o vaso de vidro rosado. — Que atencioso da sua parte, querida. Vamos, entre. Jhon, mostre a ela onde fica a sala — mandou, com um tapinha no braço do filho antes de dar meia volta e seguir para outro cômodo. Uma vez dentro da casa, Lennon observou a decoração simples. Os móveis pareciam gastos, mas nada estava quebrado. E tudo, até mesmo o tapete centralizando a sala, se achavam limpos e exalando um cheiro suave de lavanda — desinfetante barato, se quisesse ser honesta. Ela deixou a bolsa sobre o sofá vermelho, olhando para o noivo. Jhon se manteve parado. — Não vai se sentar? — ela indagou, uma das sobrancelhas levantada. — Você quer beber alguma coisa? — Aceito vinho. — Ah... não costumamos beber em casa. Mas tem refrigerante. — Então deveria ter me oferecido isso, não acha? — o braço cruzado sobre o vestido vermelho, rodado e que chegava pouco abaixo dos joelhos. Lennon jamais saberia que essa fora a razão para ele ter paralisado ao lado do sofá. Ela não estava vestida como uma chefe, uma empresária poderosa e cheia da grana. Ali, com a rasteirinha baixa de pedrarias e o costumeiro perfume de flores do campo, Lennon era apenas sua noiva. Ele sorriu, ligeiramente acanhado. — Claro. Eu vou pegar pra você. — Na verdade — o impediu de ir. — Eu aceito uma água. Com gelo. Com mais um sorriso, Jhon concordou, dando-lhe as costas. Seria uma tremenda estupidez negar o impacto daquele sorriso, do brilho nos olhos azuis-celestes e da cordialidade em cada gesto — e de como ela se sentia em guerra com as próprias convicções quando ficava na presença de Jhon Joseph. (...) Lennon se viu limpando a boca com o guardanapo, se perguntando qual foi a ultima vez que riu daquela forma. — Diachos, mãe! Não precisa contar isso — Jhon se lamentava, com o rosto vermelho. — Tem tantas histórias pra contar pra ela... Por que não fala do dia que matei um pato com a espingarda do tio Tod? Clarice cruzou os braços. Olhos azuis-cinzentos miraram nele. — Você sabe atirar? — havia empolgação na voz de Lennon. — Aprendi aos oito anos e ganhei duas disputas de tiro. No Nebraska, eu poderia ser o próprio Robin Wood das armas — então sorriu, pensativo. — Diachos, eu deveria voltar a praticar. — Querido, ela não se interessa nesse assunto. A minha história é bem mais divertida — dona Joseph piscou para a futura nora, que rapidamente assentiu cúmplice. — É isso mesmo. Eu quero saber com terminou a história da peça de teatro e do sanduíche de requeijão. Jhon bufou, se levantando e pegando os pratos da mesa. — Claro, riam do intolerante à lactose — debochou ele, de si mesmo. As mulheres riram. Clarice se ajeitou na cadeira, na direção de Lennon, conforme o filho lavava a louça de costas pra elas. — Pra resumir a catástrofe, o auditório todo foi evacuado e os bombeiros não encontraram o bicho morto que causou a nuvem poderosa de fedor — e pegou o copo de refrigerante, enquanto a mulher ao seu lado ria com a mão na boca. — É claro que eles não iam achar. Eu trouxe o bicho morto pra casa. Ai ai... foi difícil remover toda aquela fantasia de arbusto pra ir logo ao banheiro. — O bom é que se não tivesse dado tempo, ele já estava na “moita” — Lennon zombou, rindo do noivo. — Adorei — Clarisse gargalhou. — Precisa se lembrar dessa história na hora de escolherem os aperitivos do casamento, ou ao invés de dizer “aceito”, vai gritar por “socorro”. Lennon riu mais, sentindo a barriga doer. O noivo reclamava enquanto lavava a louça, tentando contar uma versão em que não soasse como um apocalipse do peido. Então encontrou os olhos de Clarisse, a observando, cautelosa. — Podemos conversar na sala, querida? — a voz suave, apontando o cômodo com a cabeça. Lennon apenas assentiu, se levantando.






