Mundo de ficçãoIniciar sessãoJhon olhou o relógio pela enésima vez, desde que teve seu sangue tirado, sua saliva e urina coletadas e fora obrigado a fazer coisas obscenas no banheiro do consultório. Ter seu sêmen coletado revelaria sua porcentagem de fertilidade, e estava preocupado com o resultado. Sabia que tinha uma boa saúde, se alimentava bem e fazia caminhadas leves com a mãe pelo menos quatro vezes na semana. Não dormia tarde. Não fumava e desprezava bebidas alcoólicas. No entanto, a ideia de não conseguir ser fértil o suficiente para dar um filho à Lennon colocaria todo o acordo deles em risco.
Talvez fosse ansioso, mas já estava começando a roer seus cotocos de unha ao imaginar a chefe rindo por ele não ter “bala na agulha”, dando-lhe “tchau” e procurando outro felizardo para engravidá-la. O resmungo veio logo depois, quando o rosto de Mike surgira em seus pensamentos. Mas não! Ela não sairia procurando maridos na própria empresa, apenas porque aconteceu com ele. Poderia achar um nas reuniões de empresários. Ou na academia... Diachos! — Senhor Joseph — uma voz o chamou. Uma mulher de jaleco, a mesma que revelou todos os exames que teria de fazer naquela manhã, sorriu e o chamou para a sala. Ele não percebeu a têmpora suada quando se levantou a fim de acompanhar a doutora. Jhon se sentou na cadeira, com as mãos mais frias do que o costume. O homem olhou novamente para o relógio: esperou por torturantes 45 minutos. — A senhorita Kutcher acabou de chegar. Vamos esperar até que ela suba. Enquanto isso, me conte sobre a intensidade de sua intolerância com a lactose. — Não posso comer nada derivado de leite que contraio muitos gases. E não é nada legal quando isso acontece. Eu evito comer e tomar esses trem, mas as vezes acontece e é bom que ninguém esteja perto. Ela assentiu, digitando algo na ficha digital dele. Logo dois toques na porta. Lennon entrou, com seu queixo elevado e seu salto batucando no piso da sala. O costumeiro terninho cinza-grafite, justo ao corpo, realçando o corpo curvilíneo. O perfume dela, predominou o ambiente que antes tinha cheiro de água sanitária e sabão. Agora, aroma de flores no campo. Por alguma razão, Jhon se sentiu desconcertado ao admirá-la. — Bom dia — ela disse, aparentemente para os dois. Então se acomodou na poltrona ao lado de Jhon. Cruzou as pernas, mantendo o rosto inexpressivo. — Como foram os exames? — Apenas boas notícias. O senhor Joseph tem bons níveis de hormônios, nenhuma doença transmissível, negativo para infecções urinárias e uma excelente produção de esperma. Jhon apenas ouvia. Agora, aliviado, agradecendo mentalmente por suas bolas não serem preguiçosas. — Qual sua análise em junção com meus exames? — perguntou Lennon. — De acordo com o que vejo — a médica deslizava os olhos na tela do computador. — Vocês estão aptos para gerar um bebê. Ambos são saudáveis e férteis. E você tem no momento, 4 óvulos preparados para conceber. Algo como um raio gélido subiu pela espinha de Lennon. Ele cheio girinos apressados e seu útero cheio de amor pra dar... Tudo isso era mesmo ÓTIMO — havia muita ironia em seus pensamentos. — Acredito que já tenha se habituado com a tabelinha que te passei, certo? — a voz da médica a fez concordar com a cabeça. — Que bom. Agora é só começarem a praticar. A doutora sorriu, e Jhon também, mas todo o ambiente afetado pelo perfume campestre de sua noiva, pareceu pesar com a fala da médica. Como se nuvens carregadas tivessem adentrado o espaço e trovejassem sobre a cabeça deles. Lennon se colocou de pé. — Obrigada doutora — e então saiu pela porta. Desconcertado pela rispidez da noiva, Jhon se despediu da média, curvando-se levemente como sempre fazia em um aperto de mão gentil. Depois seguiu Lennon pelo hospital. — Você tomou café da manhã? — foi o que ele perguntou, parando ao lado dela. A mulher cessou o andar elegante, se virando para o noivo. Se achava tão cansada, tem trabalhado muito e estado incomodada com a chegada de Jhon em sua vida. Com a relação que teriam e, por vezes, pensava em voltar atrás. Mas, Evan sempre estava lá para proibi-la de fazer tal coisa. Ela observou os fios dourados escapando do boné que ele acabara de colocar. Era novo e preto, nada parecido com o do uniforme de trabalho. — Já tomei café. E por que está usando essa porcaria? — e arrancou o boné. — Eu jamais sairia com um homem que usa isso. — Mas eu gosto — Jhon se aproximou, pegou da mão dela e voltou a colocá-lo. — Preciso falar com você. Lennon poderia arrancar o boné novamente, mas algo na sombra formada no rosto dele, sob os olhos azuis que agora brilhavam, mesmo escondidos, a obrigou cruzar os braços e ouvi-lo. — Minha mãe quer conhecer você. A mulher piscou. — Isso não estava no acordo. — Mas você vai ser a esposa do filho dela. — Não me dou muito bem com sogras... — confessou, e o fez com uma estranha naturalidade. A mulher pensou. — Posso pedir para minha governanta preparar um jantar amanhã. Mando um motorista buscar vocês às 19h. Lennon sacou o celular da bolsa e já voltava a andar na direção do elevador, no entanto, sentiu seu braço quente, dedos o contornando suavemente. Quando ergueu o olhar, percebeu Jhon perto demais. — Diachos — Ele a soltou, no instante em que percebeu ter recuperado a atenção dela. — Minha mãe, ela quer cozinhar pra você. Ela cozinha muito bem, então esperamos VOCÊ em nossa casa. Às 19h. Jhon não esperou que ela confirmasse, apenas adiantou os passos até a escadaria, desejando ir para empresa, bater o ponto e iniciar mais um dia de trabalho, torcendo para que o formigamento em sua mão e a lembrança na maciez da pele da noiva, sejam esquecidas junto aos banheiros sujos e janelas manchadas.






