O hospital sempre tinha cheiro de algo entre limpeza e morte.
E naquela sala branca demais, iluminada demais, fria demais, Isabella Moretti parecia uma obra-prima de drama renascentista jogada sobre lençóis caros.
Lençóis nos quais ela se mexia com tanta delicadeza que parecia até ensaio.
A maquiagem borrada — estrategicamente borrada.
O cabelo molhado — estrategicamente desgrenhado.
Os olhos semicerrados — estrategicamente sofridos.
Vittoria Montenegro andava pelo quarto como uma leoa que perdeu o último filhote.
— Minha menina… minha pobre menina… — ela repetia, apertando um lenço no peito. — Isso foi um ataque! Um ataque planejado, Rafael!
Rafael estava de pé, parado no canto, braços cruzados, roupa ainda úmida.
Mas era o rosto dele que chamava atenção.
Aquele rosto cinza de tempestade.
— Ela quase morreu! — Vittoria insistiu. — E tudo por causa daquela… daquela… DESQUALIFICADA que você assinou como esposa!
Isabella apertou os lábios, trêmula o bastante para comover um país inteiro