Rafaela caminhava pelo corredor da empresa com passos firmes, mas seu coração parecia uma tempestade desordenada dentro do peito. A notícia que havia recebido poucos minutos antes ainda ecoava em sua mente como algo absurdo demais para ser real. Casar-se com Caíque Albuquerque era simplesmente a última coisa que ela imaginaria para sua vida.
Ela o odiava.
Odiava a arrogância dele, o jeito frio como tratava as pessoas, a forma como parecia acreditar que o mundo inteiro existia apenas para satisfazer seus caprichos. Para Rafaela, Caíque representava tudo aquilo que ela mais desprezava: privilégio sem esforço, riqueza herdada e uma vida construída sobre o dinheiro e o poder de outra pessoa.
Ela apertou os braços contra o corpo, respirando fundo.
Enquanto pensava nisso, ouviu passos atrás de si.
— Rafaela — chamou uma voz calma.
Ela se virou e viu Marcelo, o advogado da família Albuquerque, aproximando-se com a mesma postura educada de sempre. Ele parecia ser o único naquela situação inteira que realmente mantinha algum equilíbrio.
— Podemos conversar um instante? — perguntou ele.
Rafaela suspirou, claramente contrariada.
— Se for sobre aquele absurdo de casamento, eu já disse que não vou aceitar.
Marcelo cruzou as mãos diante do corpo, observando-a com atenção. Havia algo naquela jovem que ele não via com frequência nas pessoas que circulavam naquele ambiente de luxo: autenticidade, ele se snetia atraido por ela era certo , algo nela resplandecia para ele.
— Eu sei que você não gosta do Caíque — disse ele com sinceridade. — E para ser justo… acho que ele também não está muito feliz com a ideia.
Rafaela soltou um pequeno riso irônico.
— Não diga.
Marcelo respirou fundo antes de continuar.
— Mas eu também sei que você não é o tipo de mulher que se casa por dinheiro.
A frase fez Rafaela erguer o olhar com certa surpresa.
— Então por que está insistindo nisso?
Marcelo inclinou levemente a cabeça.
— Porque talvez isso não seja apenas sobre dinheiro.
Rafaela franziu a testa.
— Não entendi.
O advogado então falou com um tom mais sério.
— Rafaela, eu pesquisei sobre você.
Ela arregalou os olhos, surpresa.
— Eu precisava saber quem você era antes de envolver seu nome em algo tão importante.
Ele fez uma breve pausa.
— O senhor Antônio Albuquerque sempre observou você.
O nome do antigo chefe fez Rafaela se lembrar imediatamente daquele homem sério, porém respeitoso, que muitas vezes havia demonstrado consideração por seu esforço.
— Desde aquele incidente no hospital — continuou Marcelo — ele passou a prestar mais atenção em você.
Rafaela recordou-se daquele dia em que havia ajudado o empresário durante um mal-estar repentino dentro da empresa, sendo ela quem chamou ajuda médica rapidamente.
— Ele sempre acreditou que você era uma pessoa especial — disse Marcelo. — Trabalhadora, honesta… alguém que não se dobra diante do dinheiro, e depois daquele dia no hospital suas escolhas e posturas...
Rafaela permaneceu em silêncio. Então o advogado continuou, com voz calma:
— Sei que você não é do tipo de mulher que se casa por dinheiro… mas Rafaela, já imaginou que Antônio pode estar tentando ajudar você também?
Ela piscou algumas vezes, surpresa.
— Ajudar… eu?
— Sim — respondeu Marcelo. — De certa forma, ele sempre ajudou. E agora, mesmo depois de partir, talvez esteja tentando proteger você.
Rafaela sentiu o coração bater mais forte.
— Proteger… de quê?
Marcelo deu um leve sorriso.
— Talvez do mundo. Talvez das dificuldades da vida.
Ele então falou algo que fez Rafaela ficar completamente em silêncio.
— Você teria acesso ao dinheiro da família… às propriedades… às joias… às oportunidades, ele não quer isso em mãos erradas.
Rafaela imediatamente abriu a boca para negar. Mas as palavras não saíram. Porque naquele instante uma lembrança dolorosa surgiu em sua mente. Uma conta. Uma conta antiga que ela havia encontrado escondida em uma gaveta da cozinha de casa. Uma dívida da casa. Seus pais haviam tentado esconder aquilo dela, mas Rafaela sabia exatamente o que significava. Se aquela dívida não fosse paga… eles poderiam perder a casa. O lugar onde ela havia crescido. O único lar que sua família possuía. Ela respirou fundo. Marcelo percebeu a mudança em sua expressão. Percebeu o silêncio. Percebeu a hesitação. Então falou com suavidade:
— Vamos voltar ao escritório e terminar essa conversa com calma.
Rafaela ainda parecia pensativa. Mas dessa vez… ela não disse não. Apenas assentiu levemente.
Enquanto os dois caminhavam de volta ao escritório principal da empresa, Caíque estava sentado atrás da grande mesa de madeira escura, segurando o celular junto ao ouvido.
Do outro lado da linha estava Verônica o escutava. Uma modelo loira, elegante e sofisticada, que o conhecia desde a infância.
— Então quer dizer que você vai mesmo se casar? — perguntou ela com um tom curioso.
Caíque passou a mão pelos cabelos com irritação.
— Não tenho escolha, mas isso não vai mudar nada entre nós e nossas saídas gata.
— E quem é ela?
Ele soltou um riso sarcástico.
— Ninguém importante. Uma mulher qualquer que meu pai decidiu colocar no testamento.
Verônica franziu a testa, ela estava confusa do outro lado da linha.
— Como assim lindinho?
— Uma secretária da empresa. Rafaela alguma coisa… Estevez, eu acho.
A modelo ficou em silêncio por um instante.
— Você está brincando comigo.
— Queria estar — respondeu ele. — Se dependesse de mim, eu me casaria com você e resolveríamos isso facilmente.
Verônica sorriu lentamente, sua mente pensando em muitas possibilidades de resolver isso.
— Isso não seria um problema para mim.
Caíque continuou:
— A gente já se conhece há anos. Nada mudaria. Seria só um título… esposa no papel.
Ele parecia totalmente indiferente.
— Mas não — continuou com irritação. — Meu pai tinha que ferrar tudo colocando uma desconhecida nessa história.
Nesse instante, a porta do escritório se abriu. Marcelo entrou primeiro. E logo atrás dele estava Rafaela.
— Depois a gente continua essa conversa — disse Caíque, encerrando a ligação.
Do outro lado da linha, Verônica ficou olhando para o celular com os olhos ardendo de raiva. Aquilo era inaceitável. Era para ser ela. Ela sempre esteve ao lado de Caíque. Ela conhecia o mundo dele. Ela o amava exatamente como ele era. Aquela fortuna… aquele poder… aquele lugar ao lado dele… Tudo deveria ser dela. Verônica apertou o celular com força na mão.
— Rafaela… — murmurou com desprezo.
Se Caíque achava que ela desistiria facilmente… Estava muito enganado. Porque Verônica Munhoz ainda não havia perdido aquela guerra.