Eu acordo ao som de uma voz que tenta ser gentil e não consegue. Primeiro vem um chamado suave, “senhorita”, como se eu ainda não tivesse direito a ser chamada de esposa. Gemeu um fio de dor que me atravessa, porque cada centímetro do meu corpo parece ter sido desmontado e remontado sem cuidado, e a pior fisgada arde entre minhas pernas, lembrando o que foi feito de mim e comigo.
Tarde demais para fingir que não aconteceu. Tarde demais para esconder de mim mesma que foi a nossa noite de núpcias, minha e de Luciano e que, mesmo sendo casamento, doeu como se eu tivesse sido deixada à margem, como se amor e delicadeza tivessem sido palavras de um dicionário queimado.
Abro os olhos devagar.
O quarto aparece por partes, como se eu estivesse espiando por uma fechadura. Primeiro, as paredes que eu juraria que eram pretas.
Não são.
É madeira escura, muito escura, entalhada com cuidado doentio, arabescos, folhas, caveiras, rosas espinhentas que sobem como hera envenenada. Há um quadrado pe