Ela ficou ali, parada, respirando rápido, enquanto eu tentava organizar o próprio pensamento. A verdade é que, naquele momento, eu já sabia. Sabia exatamente o que precisava fazer. E, ao mesmo tempo, parecia que alguém tinha arrancado um pedaço de mim sem aviso.
Eu odiava estar naquela posição.
Odiava que fosse ela.
Odiava que fosse eu o responsável por decidir o destino dela.
Mas não tinha mais volta.
Felicia sempre foi muita coisa ao mesmo tempo. Se tornou impulsiva, ciumenta, ferida, orgulhosa, egoísta, quebrada. Uma bomba relógio. E eu… eu sempre fiz vista grossa. Sempre passei a mão na cabeça dela achando que era só um momento ruim, só uma fase, só um luto mal resolvido pela morte do nosso pai, do nosso irmão… depois da nossa mãe.
Eu não percebi ou não quis perceber que ela estava se deformando por dentro.
Agora, olhando pra ela sentada naquela cama barata, com aquele rosto machucado, parecia outra pessoa. Uma versão distorcida da minha irmã. Uma versão que eu não podia trazer