Mundo ficciónIniciar sesiónQuando se casaram, o amor era uma verdade absoluta. Rael era genuinamente apaixonado por Lana, e ela via nele o porto seguro, o companheiro para todas as estações. No início, o carinho não era um esforço; os planos, os risos e as promessas eram ditos com a leveza de quem acredita no "para sempre".
Mas, gota a gota, o trabalho começou a consumir Rael. A ambição e a necessidade de reerguer a empresa tornaram-se uma obsessão. Ele queria que a Mérida Residence fosse maior e melhor do que nunca. Centralizador, fazia questão de assinar cada contrato e vistoriar cada novo imóvel, como se ninguém fosse capaz de fazê-lo com a mesma maestria. Esse perfeccionismo cobrou um preço alto: o seu tempo e, consequentemente, a vida da sua esposa. Rael não percebia o relógio correr. Como Lana enfrentava a doença da mãe em silêncio, sem transbordar queixas, ele se convenceu de que ela estava bem. Interpretou a falta de palavras como força e o luto dela como algo superado. Quando viajou no dia do enterro da sogra e não ouviu reclamações, sua mente egoísta entendeu que tinha permissão para continuar ausente. Ele já não se lembrava das promessas que fizera. O silêncio de Lana não era aceitação, era o eco de uma decepção profunda; ela esperava que ele cumprisse a palavra sem que ela precisasse implorar. Mas Rael esqueceu. Ao chegar em casa, se Lana ainda estava no hospital, ele ia direto para o escritório. Aquele cômodo, entulhado de papéis e iluminado pelo brilho frio do computador, tornou-se sua verdadeira residência. Lana, aos seus olhos, passou a ser como uma secretária: alguém que aparecia apenas para dar um recado, servir uma refeição e se retirar. Sem que ele notasse, a distância de meses virou cinco anos. Depois seis, sete... nove... dez. Dez anos de silêncio que até o jardim, onde antes as flores desabrochavam foi soterrado, assim como as fotos da sala. Rael já não lembrava mais do som do sorriso de Lana. Não lembrava do calor das promessas de amor. Já não sabia sequer o dia do aniversário de casamento. Ele tinha a empresa, mas não percebia que, dentro de casa, havia se tornando um estranho para sua esposa. Lana estava farta. Às vezes, sentava-se sozinha no jardim e ficava apenas observando o solo árido. As flores não brotaram; na verdade, secaram há muito tempo. Ela sabia, com uma clareza dolorosa, que nada sobrevive sem ser regado — nem as plantas, nem as promessas, nem as pessoas, muito menos um casamento sem dedicação. Tentou retornar ao mercado de marketing, mas a chama interna havia se apagado. Não era mais a mesma coisa; a animação de dez anos atrás fora substituída por uma apatia densa. O luto pela mãe e o abandono emocional do marido haviam fragmentado sua identidade. Lana se sentia perdida em um mundo que continuava girando depressa, enquanto apenas a sua vida parecia ter estagnado em um cinza constante. Rael mal parava para olhá-la, e o toque físico tornara-se uma memória distante, quase lendária. Ela sentia uma falta desesperada do homem que ele costumava ser — aquele que a carregava no colo, que planejava um futuro cheio de risos e que prometia que eles seriam diferentes dos seus pais. O corpo dela sentia a necessidade do corpo dele. Antes, ela ainda o procurava: ia até o escritório com suas belas camisolas de seda, na pontinha dos pés, mas muitas vezes nem entrava, pois ele estava de costas em sua cadeira, ao telefone, irritado com algo. Outras vezes, entrava sem bater; ele acenava com a mão, pedindo para que ela se retirasse, e dizia que em breve estaria na cama. No entanto, essas palavras se tornavam mentiras. Ela o esperava deitada, apenas de camisola ou baby doll, porém, ao amanhecer, acordava coberta e com a cama vazia. Teve uma noite, no aniversário de casamento deles, em que ela se produziu toda. Com o jantar feito com o maior cuidado, foi até o escritório vestindo uma bela lingerie. Entrou enquanto ele estava ao telefone, beijou-o no pescoço e sentou-se em seu colo com toda a delicadeza. Ele, porém, apenas a olhou e fez um sinal de que estava ocupado, apontando para os papéis com uma expressão de desaprovação. Ela se retirou e, a partir dali, passou a não incomodar mais. Lana olhava para o Rael atual e via apenas um executivo eficiente, um ótimo profissional, dedicado e sempre pronto para qualquer reunião que surgisse. porém em casa, na vida pessoal se tornou um estranho que ocupava o mesmo teto, mas que não habitava mais o mesmo coração. A ausência dele era visível, mesmo eles respirando o mesmo ambiente, a presença marcante do perfume dele que ainda exalava pelos cômodos da casa o fazia presente. Para Lana Mérida mesmo Rael estando presente nos cômodos, doía mais do que se ele tivesse partido. Sentir alguém tão perto, e ainda assim vê-la se tornar invisível machuca até a alma.






