Mundo de ficçãoIniciar sessãoLana sempre foi uma mulher dedicada.
Agora, nos braços de Rael, ela admirava o novo lar. Aconchegada em seu colo, observava cada detalhe: os móveis no lugar e as paredes da sala decoradas com a história dos dois. Lana fizera questão de revelar registros da época do namoro para criar um painel afetivo. Ao olhar para aquelas imagens, sentia-se transportada no tempo. Rael sorria ao seu lado, perdido em lembranças felizes de encontros na praça, tardes nos parques e idas à sorveteria. Ele transbordava felicidade. Com um sorriso largo, percebia que aquele espaço já não era um lugar vazio; agora, estava preenchido por recordações de um amor sólido e por um painel em branco que, segundo Lana, seria reservado para as novas memórias que construiriam ali. Fazia apenas uma semana que haviam se mudado para uma residência ampla, cercada por um jardim imenso. No quintal, pequenas mudas que plantaram juntos começavam a brotar — os primeiros " brotinhos de amor” ganhando vida. As mudas já estavam aparecendo, surgindo de vagar, quando cuidada com amor e regadas com paciência. Assim como o amor dentro daquele lar dos recém casados. Rael sonhava com aquele lugar havia mais de seis anos, antes mesmo de decidirem pelo casamento. Sempre que passava por aquele bairro, imaginava Lana ali. Via, em pensamento, uma criança correndo pelo gramado, rindo livremente entre as flores. Por isso, fazia questão de cultivar o jardim. Ele dizia para Lana que aquelas mudinhas eram os "pés de amor", que um dia seriam gigantes e infinito, como o amor deles, que crescia a cada dia. Ele preparava o espaço regava com cuidado e amor, pois futuramente, veria seu filho crescer. Sentados na grama, abraçados e observando o brotar da vida no solo, eles sentiam que a felicidade finalmente havia chegado, exatamente como nos sonhos. Lana olhou para ele e o beijou suavemente no rosto, como uma prece silenciosa de gratidão por aquele momento. Mas, por mais que Rael não quisesse pensar, ainda havia algo importante a decidir: continuar no emprego atual, na contabilidade, ou aceitar o convite do pai para assumir um cargo na empresa da família. Não fazia parte de seus planos se tornar dono do negócio. Porém, Henrique insistia em plantar essa ideia em sua mente desde antes do casamento, dia após dia. Três meses depois, o peso do sobrenome falou mais alto, e Rael assumiu o comando da empresa. Raul, o irmão mais novo, demonstrava total desinteresse pelos negócios, o que tornava a escolha inevitável. Rael sentia que era seu dever como filho mais velho. Via o cansaço nos olhos do pai e sabia que Henrique já não tinha mais saúde para lidar com o estresse de uma empresa que vinha perdendo fôlego no mercado. Lana, embora receosa, deu seu apoio. Ela compreendia que cuidar do patrimônio e dos interesses da família era algo que Rael precisava fazer para honrar o pai. Confiando na promessa de que o trabalho não roubaria o tempo precioso dos dois, ela aceitou a nova rotina sem questionar, acreditando que o amor deles seria forte o suficiente para resistir às pressões da Mérida Residence. Com o tempo a seu favor, Lana sentiu um peso sair dos ombros. Ela podia, enfim, se dedicar inteiramente aos cuidados da mãe. Sendo filha única, sentia que aquela era sua missão mais importante. Ela passava a maior parte dos dias no hospital, movendo-se entre corredores silenciosos e leitos, cuidando de cada detalhe com uma delicadeza que só quem ama profundamente consegue ter. Os dias seguiram, e Rael, com um esforço admirável, cumpria o que prometera. Não abria mão do jantar ao lado da esposa e fazia o impossível para deixar a empresa às dezoito e trinta. Lana saía do trabalho às dezessete horas e, ao abrir a porta de casa, muitas vezes o encontrava na cozinha, finalizando o preparo da refeição. As primeiras semanas foram envoltas nessa dedicação mútua. Parecia que a lua de mel ainda não tinha fim. No entanto, a vida fora daquelas paredes começou a exigir seu preço. A mãe de Lana piorou, e a rotina dela se transformou em uma maratona exaustiva entre o trabalho, as visitas ao hospital e o retorno para casa. Mesmo assim, Rael estava lá, organizando a mesa e tentando ser o seu porto seguro. A exaustão, porém, tornou-se visível no olhar de Lana. Certa noite, após o jantar, o silêncio da casa foi preenchido por uma proposta delicada. Rael segurou a mão dela com carinho e sugeriu que ela se afastasse temporariamente do trabalho para se dedicar exclusivamente aos cuidados da mãe. Ele explicou que o novo salário na empresa era suficiente para cobrir todas as despesas e ainda sobraria. Quando a sogra se recuperasse, Lana poderia retomar suas atividades normalmente. Ela hesitou. Aquela decisão significava abrir mão de sua independência e de sua rotina profissional, mas o cansaço e o amor pela mãe falaram mais alto. Com um aperto no coração e um suspiro de alívio ao mesmo tempo, ela aceitou. Lana trabalhava com marketing, mas depois da doença da mãe começou a sentir o peso da rotina. Conciliar trabalho, casa e ainda cuidar dela, que piorava a cada semana, se tornou cansativo demais. Então, com o olhar abatido, ela conversou com Rael. Foi uma conversa silenciosa e madura, daquelas que carregam renúncias escondidas. Juntos, decidiram que ela deixaria o trabalho. Embora o ambiente hospitalar fosse desgastante, o fato de não precisar mais correr para cumprir horários trazia uma estranha sensação de paz. Ela era o único apoio da mãe e cada pequeno gesto — um ajuste no travesseiro, uma conversa em voz baixa, o simples ato de segurar sua mão — era feito com total devoção. Ao cair da tarde, sua única expectativa era voltar para o refúgio que dividia com Rael, onde o jardim e as fotos na parede a lembravam da vida que ainda existia além do hospital. De um amor que abraça e acalenta. Rael, no início, parecia entender tudo. Sempre chegava com um belo buquê de rosas e os doces preferidos dela. Um abraço, aquele sorriso encantador que só ele tinha e a acalmava, e os beijos que a fazia sonhar. Até que, em um sábado pela manhã, enquanto caminhavam juntos, encontraram uma loja de doces inaugurando. Aquilo pareceu um presente do destino. Antes, Rael precisava ir até o centro da cidade para comprar os doces que Lana amava. Agora, em vinte minutos, ele podia chegar ao mesmo lugar… e ao sorriso dela. A loja virou ponto certo. Sábados e feriados se tornaram encontros doces de recém-casados: mãos dadas, risadas leves, olhares apaixonados. Uma mesa que se tornou dele na loja de conveniência "Doces e Sabores", a dona da loja admirava aquele casal perfeito. Mas, com o passar dos meses, tudo ficou mais difícil. Dias longos, cheios de cansaço. Noites inquietas, carregadas de medo. As idas ao hospital aumentaram, e o estado da mãe só piorava. Lana se dividia entre remédios, consultas, preocupações e lágrimas que engolia para não desmoronar. Às vezes era nos braços dele que ela desmontava, desabava em lágrimas. Enquanto isso, Rael aproveitava a ausência dela em casa e permanecia cada vez mais na empresa, ficando até tarde. Ele já não estava mais na cozinha quando ela chegava do hospital. Agora era ela quem precisava preparar tudo. Rael se atolava em papéis, reuniões e entrevistas com novos sócios e clientes. Aos poucos, a empresa foi tomando conta da vida deles… porque Rael deixou a empresa entrar dentro de casa. O espaço que era para eles fazerem uma biblioteca para o futuro filho, se tornou um escritório. Organizou um escritório no corredor da sala. Lana interveio. Não queria aquilo. Odiava trabalho em casa. Ela tinha visto como os pais dele quase se separaram por causa disso. Mas Rael prometeu que não iria interferir em nada. E que ele não era Henrique Mérida. Até que, um dia, quando ela retornou do hospital, ele estava trancado no escritório, rodeado de papéis e teclando sem parar. Não a ouviu chegar, nem as luzes dos cômodos ele ligou. As dívidas e responsabilidades que o tio havia deixado eram enormes, e ele temia ver a empresa afundar em suas mãos. Lana chegava em casa exausta e, mesmo assim, fazia questão de deixar a janta pronta. Muitas vezes, contratava uma enfermeira para ficar alguns dias com sua mãe, apenas para poder voltar para casa, organizar as coisas e dar atenção a Rael. Mas ele não aparecia. E quando aparecia, dava um beijo rápido e se trancava novamente no escritório. Lana ainda tentava. Entrava no escritório, sentava-se em frente a ele, buscava um olhar, um gesto… qualquer sinal de presença. Mas era como se ela fosse invisível. E isso a fazia sofrer ainda mais. Rael falava apenas de números. Contas. Pagamentos. Imóveis. Projetos. Negócios. Reuniões. Viagens. E, pouco a pouco, Lana foi se afastando… com medo de atrapalhar. De ser apenas um cliente. Quando sua mãe faleceu, Lana se viu vazia. Perdida. Como se o mundo tivesse ficado sem chão. Como se uma parte dela tivesse sido enterrada junto. Ela caiu em um buraco profundo de dor, já que não tinha mais aquele abraço de Rael para desmoronar. Naquele dia, Rael estava no escritório. E, de repente, precisou viajar às pressas. Mandou apenas uma mensagem fria, acompanhada de um buquê de flores. “Sinto muito. Em breve estarei em casa. Te amo.” Dois anos se passaram desde a morte de sua mãe, e Lana continuava vivendo apenas para o lar. Já não existiam sonhos, casamento, companheirismo, ela aprendia cada dia a sobreviver em uma relação de uma pessoa. Já não existia entusiasmo, um fio de salvação para ela se sentir viva , apenas uma rotina cinza. Dentro daquele casamento, ela sentia que vivia sozinha. Rael se apegava cada vez mais à empresa, como se ela fosse o único propósito da vida dele. E, entre os dois, um vazio crescia em silêncio, ocupando espaços que antes eram cheios de amor. O vazio já estava ali, só precisou daquela imensidão para fazer moradia. E Lana permaneceu ali. Sozinha. Vivendo dois luto em seu coração. Um pelo falecimento da mãe, outro por ter se tornado, viúva de um marido vivo. Renunciando a tristeza. Dia após dia.






