ANALU
Os dias aqui são todos iguais. Um ciclo interminável de paredes brancas, luz fria, e o som da porta sendo trancada. E os comprimidos. Sempre os comprimidos. Eles vêm num copinho de plástico, cores diferentes, um arco-íris de amnésia. Eu mais uma vez finjo engulir. Finjo que o efeito é mais forte do que é. Deixo o corpo ficar mole, a fala arrastada, os olhos perdidos. Mas por dentro, por dentro tá tendo uma guerra.
A mente ainda é um nevoeiro, às vezes as palavras fogem, as lembranças vêm em pedaços. Mas uma coisa não sai de mim: a vontade de fugir. É um instinto primitivo, um pulsar constante no meu peito, mais forte que qualquer droga que eles me enfiem goela abaixo.
E hoje... hoje algo diferente aconteceu. Uma enfermeira nova. Jovem. O nome dela é Talita. Ela não tem aquele olhar vazio das outras. Quando ela me entregou o copo com os comprimidos, nossos dedos se tocaram, e ela segurou o meu por uma fração de segundo a mais. Olhou nos meus olhos. E eu... eu deixei a máscara cai